O que é ser de celofane pra você?

Eu tenho dois relógios. Um, eu embrulho num papel de celofane vermelho. É bonito, transparente e não nega a realidade do que está dentro. Um relógio! Você pode até ver que horas são, sem precisar desmanchar o embrulho.
O outro, eu coloco dentro de uma caixa. Não nego que existe um relógio ali dentro, mas quem não sabe que eu o coloquei jamais saberá, ao menos que abra o embrulho e faça uso do que está no seu interior. Ou, numa situação mais cautelosa, faça um silêncio absoluto para simplesmente poder ouvir o tiquetaquear.

É engraçado como hoje (e sempre, não nos esqueçamos da história), o olhar perfura o celofane transparente. Não que o celofane seja algo imperceptível. Talvez seja o medo da nossa realidade primitiva.

É visto como algo fora do eixo, quando na verdade é um grito de atenção disfarçado de ‘tic-tac’.


Bruno Lourenço

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