A primeira vez que eu ouvi falar sobre tudo isso

Beatriz Barros postando :
Quinta-feira conversávamos enquanto montávamos o cenário, das coisas que já passamos juntos. E aí, eu comecei a lembrar de tudo! Desde o início, desde a primeira vez que eu ouvi falar desse grupo, desse pequeno teatro de torneado.
As primeiras palavras vieram da Mariana, irmã da Beatriz Cavalcante. Ela estuda no meu colégio, um dia sentadas em um banco começamos a falar sobre teatro, e então ela começou a falar sobre o seu grupo. Começou falando sobre a peça: primavera. E então me disse sobre coisas totalmente abstratas no primeiro momento, palavras soltas que eu tive que juntar e formatar um sentido em minha mente: vestido de noiva, Ilse, Minas Gerais, William Costa Lima, Bruno, Thiago, Helô, menina de louça. E então veio o resultado: as imagens que eu formatei são as primeiras imagens da peça em minha mente, algo que não é tão distante da realidade. Uma luz amarela, caída sobre uma noite cheia de estrelas, pessoas em frente de uma igreja branca com detalhes azuis, com arquitetura barroca. Uma menina dançando com um vestido branco de noiva de tecidos leves e soltos que seguiam o caminho do vento, e meninas com flores grande e coloridas e suas cabeças, com vestidos que cada vez mais ficavam sujos e carregados com a terra que se levantava com os pés em movimento. E elas dançavam! Com toda terra, todas as flores, todas aquelas cores.
Depois de um tempo, descobri que o grupo iria fazer uma apresentação na minha escola, de um monólogo chamado “menina de louça”, a Mariana, minha amiga, que conseguiu fazer eles apresentarem lá, com um projeto que o curso técnico dela fez. De repente, estou dentro da biblioteca observando a Helô interpretando de uma forma que eu nunca vi nada parecido. Uma cadeira, um batom e um vestido azul em uma atriz que falava um texto que me envolveu 100% foi o necessário para eu ficar ali, parada, prestando atenção em cada detalhe, em cada passo que ela dava e tudo, tudo era motivo para eu ficar cada vez mais interessada em tudo aquilo, toda aquela atmosfera proporcionada para mim naquele momento, e eu me perguntava “quando que isso vai acabar?” e eu esperava que não acabasse mais, que eu continuasse me perdendo no tempo escutando aquela história, e me perdendo cada vez mais com o som da voz da Heloisa em minha mente. Aquilo mexeu comigo, cheguei em casa berrando “MÃE! EU VI UM MONÓLOGO FANTÁSTICO HOJE!” e meus olhos brilhavam e eu não parava de falar sobre cada detalhe de tudo o que eu tinha visto, aquele sentimento se prolongou muito, as sensações que aquela peça marcou em mim ficaram ecoando durante longas horas.
No outro dia, foi-se o tempo da peça “primavera”. A peça ainda estava em processo, foi mesmo um ensaio aberto mostrando apenas algumas cenas, e alguns exercícios teatrais que eles faziam. E foi no mesmo lugar, na biblioteca do meu colégio, que naquele momento, estava sem nenhuma mesa, nenhuma cadeira, e cheia de folhas secas, velas, incensos, malas, e uma luz amarela forte, foi um dos lugares mais prazerosos, misteriosos e confortáveis que eu já estive. E pessoas correndo, atores correndo se movimentando pelo espaço, meninos e meninas da mesma idade que eu! E o vestido! O vestido de noiva estava lá! A noiva, o ritual, os seus amigos, e aquelas frases, aquelas pessoas! TUDO, tudo era fantástico, tudo me atraía. E quando eu vi já tinha atores atuando na minha frente, eu compreendo hoje em dia que eu não consegui enxergar um momento para tudo aquilo começar, eu simplesmente entrei naquela biblioteca e fui, seguindo eles, em direção aos seus caminhos, eu simplesmente sentei e escutei suas histórias, estive aberta porque eles fizeram eu me sentir totalmente aberta e confortável para estar ali, e eu me senti uma parte daqueles jovens, toda hora eu pensava em ser um deles, eu me encarava e via eles falando coisas que eu pensava, coisas que eu já disse e que um dia eu poderia e com certeza vou dizer. E questões que ficavam cada vez mais presentes na minha mente eu conseguia me desprender e me prender delas a qualquer momento, e sempre vinham novas questões, mas tudo me despertava uma curiosidade que me instigava cada vez mais a continuar ali, as imagens, a falta de determinação de tempo, e até onde eu enxergava aquilo como teatro, e não como qualquer outra coisa. Como uma reunião de amigos que se conhecem faz anos, como um relacionamento amoroso entre dois seres humanos, como uma demonstração de oito humanos.
Depois de um tempo, de ter feito contatos de alguns dos atores, de ter dado aula de flauta para um e ter saído para passar uma tarde com outros, eu entrei no grupo. Me indicaram, fiz um teste, e entrei. Admito que não foi fácil, era tudo novo, tudo mesmo! O ritmo, as conversas, as idéias, a concentração, era tudo com uma energia diferente que eu nunca tinha encarado daquela forma, as pessoas mesmo! Mas com o tempo, com o tempo você vê que algo nos liga, que algo existe para eu estar ali também. Com o tempo eu cresci, eu me adaptei e comecei a crescer junto com eles. E hoje em dia, eu me sinto parte desse grupo, eu me sinto a vontade, sei que posso rir e chorar com alguém, tanto em cena como na vida real.
É isso, beijos.

Comentários

Mayra disse…
Que lindos os textos de vocês!
Fernando Melo disse…
Nossa, lindo, lindo e lindo!
e é isso aí pessoa, é disso pra mais!
hehehe!

Beijos torneásticos!
Renan... disse…
Lindo demais, Bia.
Menos só... Mais complicado... Mas, menos só... (E isso é o que importa).
Diego disse…
Pois é bia...gostei mesmo...
e logo deixo o meu texto por aki..hehe
bjus torneados...

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