Barros postando!

Hoje eu escrevi um texto pra Cavalcante, acho que tem um pouco a ver com o nosso processo. Sobre esses lugares que ultimamente estamos passando com mais freqüência. Talvez não faça muito sentido, na verdade quando escrevi ele muitas coisas não tiveram um sentido completo, e eu acho que um dia, em um futuro não muito próximo, terá. De qualquer forma, está aí:

A minha carne pesa.
Eu sempre achei essa frase forte. Só que às vezes a minha mente é tão pesada que a carne fica tão leve, mais leve do que um pássaro, mais leve que uma de suas plumas. A complexidade humana me leva a loucura, eu vejo as pessoas passando e eu ali, algumas vezes aceitando elas em minha vida, outras aceitando com a possibilidade de elas saírem, continuarem passando. Parece que nascemos em uma casa, e ficamos olhando para fora da janela desta casa, e lá fora tem uma rua, onde as pessoas andam, algumas tropeçam em pedrinhas que estão pelo caminho ou mesmo pedrinhas que nós mesmos jogamos da janela. Algumas continuam andando, vão andando até o final da rua onde você não possa mais enxergar, às vezes elas param e entram na casa, entram na casa e ficam. Ficam 1, 2, 3 horas. 4, 6, 9 dias, anos, décadas, uma vida, uma casa.
Às vezes elas desaparecem, some, dentro da sua casa, você corre pelos corredores pelos quartos pelos banheiros e não encontra, ela simplesmente seguiu para outro corredor, ou até mesmo conseguiu encontrar uma porta dos fundos. Parece que a nossa casa fica, vai enchendo de coisas, de objetos. Livros escritos por você mesmo, CD's que você gravou seus projetos em estantes, suas lembranças em fotografias, seus restos de roupa viraram pano de chão, suas escovas de dente se tornaram instrumentos para limpar sapatos de couro. E você na janela, olhando, observando tudo isso. Tudo muda, as pessoas aprenderam a andar quando crianças e você viu esse desenvolvimento do primeiro passo até o último, os objetos são constituídos por pessoas e você vê eles sendo destruídos por outras e você fica ali. Absorvendo tudo isso e olhando, olhando... olhando.
E de repente, um espelho aparece de frente pra você. E você se toca ve o seu reflexo e começa a lembrar de tudo:
Lembra daquele senhor que entrou na sua casa e comeu o queijo com geléia sentado na mesa com você, dando risadas altas e divertidas. Sobre o vinil colocado na sala quando você aprendera a dançar com seu pai, sobre o cheiro das receitas de sua mãe, sobre as histórias que a sua irmã te contava, sobre o seu primeiro amor, sobre o seu segundo amor, sobre o seu último amor que acabara de morrer. E ai, você vê, que você também passou. Que sua casa já esta velha, antiga. Que suas pernas já andaram tanto que você está sentado, frágil em uma cadeira, com joelhos de cristal. E que tudo o que você percebe, é que a sua rua, o seu jardim, era seu apenas para você, mas tem algo que realmente, DE VERDADE VERDADEIRA, é só seu. Só seu e de mais ninguem. Algo fica, eu não sei o que, e eu não sei o que esperar, mas algo... algo fica.
A pluma volta a pesar, o pássaro fica mais pesado do que a minha mente, e eu vou para longe com a minha carne, enquanto penso em tudo isso.


Beatriz Barros

Comentários

Anônimo disse…
O corpo pode ficar pesado.A mente pode pode ficar mais pesada ainda.Mas a alma deve ser leve.Deve ser como um útero pronto a receber a vida que pulsa dia após dia.Um vazio cheio. Esse é o bom da vida.

Inara - jardimdaroyal.blogspot.com

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