O Processo do 'Pequeno Teatro de Torneado' na montagem de "Refugo", do Projeto Conexões.

O projeto 'Conexões' visa fazer e discutir teatro jovem com o intuito de preencher a lacuna existente entre o teatro infantil e o teatro adulto. O projeto, que em boa parte do seu discurso dialoga com o discurso do 'Pequeno Teatro de Torneado', nos despertou o interesse de conhecê-lo e de, dele, participar.
Os primeiros contatos diretos com o 'Conexões' foram extremamente importantes para a nossa concepção da estrutura do projeto. O que foi essencial para que o grupo conhecesse os alicerces aonde poderia - ou não - se apoiar.
"Refugo" é o segundo resultado coletivo do 'Pequeno Teatro de Torneado'. O grupo acabava de sair de um processo de criação aonde o contato com o palco italiano e com o texto pronto antes do início dos ensaios era nulo, o que gerou um - já esperado - 'baque' em alguns dos integrantes.
O que nos levou a escolher o "Refugo" foi a maior quantidade de semelhanças entre o texto e a pesquisa do 'Pequeno Teatro de Torneado'. Desde sempre o encaramos, não como um texto adolescente, e sim como um texto social. Uma estória contada por adolescentes mas que envolve todo um contexto maior, como a retratação da perda da infância através da violência. O recurso épico foi outro objeto de estudo do 'Pequeno Teatro de Torneado' que, presente em "Refugo" nos levou a crer que esse seria o texto que encararíamos com maior propriedade.
"Refugo" assume um protagonista para contar essa estória: o menino Kojo, da Costa do Marfim. A "desprotagonização" com a qual trabalhamos em nossa primeira montagem, não poderia ser feita dessa vez com tanta liberdade, uma vez que é obviamente escolhido um ponto de vista principal para que essa estória seja contada.
O texto deixa claro não se tratar de um 'flagrante na desconstrução de uma rotina', mas assume um ponto de vista individual de uma estória contada por todos. E foi esse um dos mais importantes passos para a nossa concepção do espetáculo. Depois de contaminações de conversas, estudos do texto e algumas discussões, o processo de criação consistiu na aplicação do ponto de vista cênico do ator que interpretava o Kojo para que, depois, isto passasse pelo filtro do diretor.
Para um grupo que, antes, tinha como compromisso maior as suas próprias necessidades, o 'Conexões' foi uma nova chave para o "amadurecimento" de idéias.
Montar um texto de um adulto que tenta pensar como um jovem já causa um estranhamento que tentamos quebrar nos apoiando no 'cênico e na porosidade do ator'.
Criar esse espetáculo num estado ritualístico foi uma das formas encontradas para que pudéssemos nos aproximar da verdade necessária. Isso cria uma dialética entre as culturas abrangidas e joga o espetáculo num clima aonde a terra que todos pisamos é parte viva dessa estória, tornando-a algo que diz respeito, não só aos jovens, mas a todos os seres humanos.
Talvez, após finalizado todo o circuito de compromissos do Conexões, nós - os jovens participantes desse projeto - possamos sentar e conversar sobre as diferentes experiências e sobre como fazer desse projeto o 'adubo' de um próximo estudo.
Uma vez que possamos conversar, discordar, debater e relatar tudo que se passou durante a 'gestação' dos espetáculos, o teatro jovem estará realmente a um passo de preencher aquela "lacuna".

Bruno Lourenço

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