quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Iremos começar um novo processo no ano que vem.
Um estudo sobre 'Hamlet' e 'A Gaivota'.
E vamos tentar ter como foco questões sociais.

Eu coloco um texto aqui para todos nós.
São dois professores.
O de matemática e o de história.

Acho que tem um pouco a ver com o nosso novo processo.

"Foi servir-se de um café, voltou a sentar-se e, sossegadamente, estendeu o jornal em cima da mesa, disposto a inteirar-se do estado geral do mundo e do país. Depois de percorrer os títulos da primeira página e franzir o nariz a cada um deles, disse, Às vezes pergunto-me se a primeira culpa do desastre a que esse planeta chegou não terá sido nossa, disse, Nossa, de quem, minha, sua, perguntou Tertuliano Máximo Afonso, fazendo-se de interessado, mas confiando que a conversa, mesmo com um início tão afastado das suas preocupações, acabasse por levá-los ao âmago do caso, Imagine um cesto de laranjas, disse o outro, imagine que uma delas, lá no fundo, começa a apodrecer, imagine que, uma após outra, vão todas apodrecendo, quem é que poderá, nessa altura, pergunto eu, dizer aonde a podridão principiou, Essas laranjas a que está a referir-se são os países, ou são as pessoas, quis saber Tertuliano Máximo Afonso, Dentro de um país, são as pessoas, no mundo são os países, e como não há países nem pessoas, por elas é que o apodrecimento começa, inevitavelmente, E por que teríamos tido de ser nós, eu, você, os culpados, Alguém foi, Observo-lhe que não está a tornar em consideração o factor sociedade, A sociedade, meu querido amigo, tal como a humanidade, é uma abstração, Como a matemática, Muito mais que a matemática, ao pé delas a matemática é tão concreta quanto a madeira desta mesa, Que me diz, então, dos estudos sociais, Não é raro que os chamados estudos sociais sejam tudo menos estudos sobre pessoas, Livre-se de que ouçam os sociólogos, condena-lo-iam à morte cívica, pelo menos, Contentar-se com a música da orquestra em que se toca e com a parte que nela lhe coube tocar, é um erro muito espalhado, sobretudo entre os que não são músicos, Alguns terão mais responsabilidades que outros, você e eu, por exemplo, estamos relativamente inocentes, ao menos dos males piores, Esse costuma ser o discurso da boa consciência, Que o diga a boa consciência, não deixa por isso de ser verdade, O melhor caminho para uma desculpabilização universal é chegar à conclusão de que, por que toda a gente tem culpas, ninguém é culpado, Se calhar não há nada que possamos fazer, são os problemas do mundo, disse Tertuliano Máximo Afonso, como para rematar a conversação, mas o matemático rectificou, O mundo não tem mais problemas que os problemas das pessoas, e, tenho deixado cair esta sentença, meteu o nariz no jornal."


SARAMAGO, José - O homem Duplicado. São Paulo. Companhia das Letras, 2008.


Bruno Lourenço

2 comentários:

Anônimo disse...

Olá Bruno,
Meu nome é Marina fui assistir Primavera duas vezes, e gostei muito do trabalho de vocês.
Peguei o contato do Willian que trabalhou comigo aqui no sesi, mas perdi minha agenda.
Queria muito estar envolvida com vocês no processo do ano que vem, por favor você poderia me mandar informações por e-mail. Dia de ensaio horas etc? Primeiro encontro e tudo o mais?
Por favor, Um ABraço
Marina

ps: Vc prestou cênicas na unesp? Tomará que nos vejamos por lá ano que vem

Anônimo disse...

ah meu e-mail é mvungaro@gmail.com

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