Transtornos alimentares.

Bia Cavalcante postando aqui.
Bom, há um tempo atrás eu recebi uma carta que me emocionou muito. Que, na minha opinião, é cheia de inteligência sem perder humanidade. E eu gostaria muito de compartilhá-la com vocês, então...

"Não estou aqui para confessar tudo e contar sobre como foi horrível, que meu pai era mau, a minha mãe era má e algum garoto me chamou de balofa na terceira série, porque nada disso é verdade. Eu não vou repetir sem parar o quanto os transtornos alimentares "têm a ver com controle", porque todos já ouvimos isso. É uma palavra-chave, reduzida, categórica, uma forma organizada de amontoar as pessoas numa quarentena mental e dizer: Pronto. É isso. Transtornos alimentares "têm a ver com": sim, controle, e história, filosofia, sociedade, estranheza pessoal, problemas familiares, auto-erotismo, mitos, espelhos, amor e morte e sadomasoquismo, revistas e religião, os tropeções de um indivíduo de olhos vendados através de um mundo cada vez mais estranho. A questão não é realmente se os transtornos alimentares são "neuróticos" e indicam uma falha na mente, mas sim por quê. Por que esta falha, o que ligou esta chave, por que somos tantos de nós? Por que esta escolha tão fácil? Por que agora? Alguma toxina no ar? Algum aborto da natureza que virou as mulheres contra seus próprios corpos com uma virulência nunca antes vista na história, de repente, sem qualquer motivo? O indivíduo não existe fora da sociedade. Há motivos pelos quais isto está acontecendo, e eles não estão apenas na mente.
Os meus termos correspondem à heresia cultural. Precisei dizer: vou comer o que quiser, ter a aparência que me der na telha, rir tão alto quanto tiver vontade, usar o garfo errado e lamber a minha faca. Tive de aprender lições estranhas e deliciosas, lições que muito poucas mulheres aprendem: a amar o barulho dos meus passos, o sifnigicado do peso, da presença e do espaço ocupado, a amar as fomes rebeldes do meu corpo, respostas ao toque, a compreender a mim mesma como mais do que um cérebro ligado a um feixe de ossos. Preciso ignorar a cacofonia cultural que canta o dia inteiro, numa ladainha, muito, muito, muito. Como escreve Abra Fortune Chernik, "Ganhar peso e erguer a minha cabeça da privada foi o maior ato político da minha vida".
Um transtorno alimentar é, em muitos sentidos, uma elaboração bastante lógica de uma idéia cultural. Enquanto a personalidade de uma pessoa com transtorno alimentar exerce uma função imensa - somos freqüentemente pessoas de extremos, altamente competitivas, incrivelmente autocríticas, determinadas, perfeccionistas, com tendência ao excesso - e, embora a família de uma pessoa com transtorno alimentar desempenhe um papel bastante crucial na criação de um ambiente no qual o transtorno possa se desenvolver como uma flor de estufa, eu acredito que o ambiente cultural é igualmente, se não mais, culpado da absoluta popularidade dos transtornos alimentares. Havia inúmeros métodos de autodestruição disponíveis para mim, incontáveis saídas que poderiam ter canalizado a minha determinação, o meu perfeccionismo, a minha ambição e o meu excesso de intensidade em geral, milhões de maneiras com as quais eu poderia ter reagido a uma cultura que considerava altamente problemática. Eu não escolhi essas maneiras. Eu escolhi um transtorno alimentar.
A menina se levanta todos os dias e cria a si mesma com roupas e pintura. Ela escreve à noite sobre homens que olharam e garotos que tocaram, e se pesa. Ela escreve sobre a grande fraqueza que a levou até o armário da cozinha e a fez comer. Ela nunca escreve o suficiente. A confissão é insuficiente. A absolvição nunca vem na articulação, apenas na penitência. Ela pensa nas santas: seus flagelos, suas camas de pregos, saus desculpas com séculos de atraso por Eva, que condenou todas as mulheres às dores da carne ao ceder aos prazeres dessa carne. Elas laceram a própria carne em penitência por Eva, pelos pecados do mundo, que carregam nos ombros como se fossem seus. Vestem cilício ou navalhas perto da pele.
Ela lê livros sobre as santas. As anoréticas santificadas, que, em seu asceticismo sagrado, insistiam que Deus as estava mandando jejuar. Ela pensa em Deus. Ela determina que, se os dois estivessem se falando, ele a mandaria jejuar pelos pecados em geral. O cilício é a sua própria pele, raspando a crueza do que há por baixo. Ela se dispôs a se erguer acima da carne: sem comida, sem sexo, sem toque, sem sono. Ela cheira cocaína em seu quarto floreado para não sucumbir ao sono, uma fraqueza, e ela, já fraca demais recusa-se a sucumbir. A bulimia e as drogas levam à insônia e ao desequilíbrio químico. A insônia leva à mania, um fluxo de pensamentos constantes e imagens sadicamente realistas brotando no cérebro - "a atroz lucidez da insônia", definiu Borges -, os pensamentos girando para cima, num assovio agudo, enquanto uma chaleira apita dentro do cérebro.
Ela passa tempo demais sem dormir e pira.
Ela não lembra de quando começou. Volta a sentir um violento medo do escuro. Está velha demais para isso, lembram os pais. Toda noite, ela faz o pai conferir cada fechadura, cada janela e cada porta, vasculhar o porão atrás do homem que ela tem certeza que veio pegá-la, o homem com a faca. Ela fica deitada na cama, dura como um cadáver, esperando pelos passos na escada. Ela não consegue dormir. Cada movimento e suspiro da casa, cada rajada de vento nas paredes e nas árvores, faz com que ela dê um salto na cama, gritando pelo pai. O pai vem correndo e se esforça muito para compreender. Ela não pode ficar sozinha em casa. Ela fica sozinha em casa desde os 9 anos de idade. Aos 14, isso se torna impossível. Ela se senta nos degraus da frente da casa quando chega da escola e espera até alguém chegar. A tremedeira: ela lembra principalmente da tremedeira, de todo o seu corpo, tenso e trêmulo, esperando pelo homem que vai encurralá-la no quarto e despedaçá-la com sua faca.
Olhando para trás, ela pensa que aquilo era uma premonição. Foi o último ano que ela morou em casa. Ela quer que a mãe e o pai a salvem. Ela diz issom e o pai pergunta a sério: de quê?
De mim mesma.
A voz corrente sobre os transtornos alimentares é que eles são uma tentativa de voltar a ser criança, uma regressão. Em vez de olhar para os transtornos alimentares como um desejo infantil de voltar para uma simbiose ex utero com a mãe, acho que é importante registrar que eles podem ser um genômeno cultural e geracional do bom e velho burnout. A minha geração foi alienada por propaganda subliminar, televisão burra, filmes violentos, uma insípida literatura de balcão, MTV, videocassetes, fast food, informes comerciais, anúncios em papel cuchê, auxílio a dieta, cirurgia plástica, uma cultura pop na qual a supermodelo hiperblasé de olhos inexpressivos era uma heroína. Isso é o equivalente intelectual e emocional de não comer nada além de doces industrializados - você fica subnutrida e cansada. Crescemos num mundo em que a superfície da coisa é infinitamente mais importante do que a sua substância - e no qual a superfície da coisa precisa ser "perfeita", urbana, sofisticada, blasé, adulta. Eu diria que se você crescer tentando ser constantemente um adulto, um adulto de sucesso, você estará cansando de ser adulto quando atingir a maioridade."

Comentários

Preciso ler mais esse texto...

Obrigado pelo depoimento... Difícil e necessário...
Que repensar...

Bjus a essa menina generosa!!!
Helô disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Helô disse…
Se for o texto que estou pensando, uma pena que ela se foi; seria uma grande escritora...

Foi uma das melhores coisas que li nos últimos tempos.
Não é não Helô!!!

Essa está VIVA!!!

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