sábado, 19 de dezembro de 2009

Bons Ventos (Ou assim espero)

Estamos em fase de renovação. De transformação.
Agora é a hora de saber focar e de abrir os olhos.

É bonita a procura da criança, mas a organização do adulto nos faz falta, a sabedoria do sábio nem sempre chega em nós.

Estamos com um novo processo ‘Gritar por Cida’, uma pesquisa sobre amor e violência. Talvez seja o trabalho mais maduro do Torneado. Estamos buscando a sensibilidade, a busca pela boa estética, a boa dramaturgia, o bom trabalho de ator e também buscamos o efêmero, o híbrido, o dinheiro e a noite sem preocupações.

Terminamos uma temporada hoje. Dias de Campo Belo, no histórico Teatro de Arena. Uma temporada fraca de público, mas muito importante para o grupo. O Dias foi a primeira peça do grupo onde a maturidade foi um dos fatores principais. Talvez o Dias seja uma nova fase do Torneado. Então pensaremos da seguinte forma: Não é que ainda não somos bem vistos.

É que ainda não fomos bem vistos.

Talvez agora comece.

É raça, mermão. Uma beijoca molhada.
Em breve produzo algo com um pouco mais de refinamento.

Bruno Lourenço

domingo, 22 de novembro de 2009

Colaborações da crítica teatral Paulistana... Ou um olhar crítico sobre o crítico...

A Crítica Teatral Jornalística: Qual Seu Papel?

Michel Fernandes*, especial para o Jornal de Teatro (michel@aplausobrasil.com)

*Artigo escrito para a edição número 11 do Jornal de Teatro

Sábato Magaldi, crítico e pesquisador de teatro

Sábato Magaldi, crítico e pesquisador de teatro



Na edição número 8 do Jornal de Teatro

, o editor Rodrigoh Bueno, registrou em seu editorial um justificado espanto com a conversa de alguns críticos de teatro, que estavam na mesma van que ele, num determinado festival de teatro. Segundo Rodrigoh, tais críticos não gostaram do espetáculo que tinham visto, mas teriam de “pegar leve” em seus textos, pois o espetáculo levava a assinatura de um “figurão”.



Deprimente saber que a autocensura dos que não têm coragem para assumir suas posições frente a uma peça – por medo de desagradar a alguém cuja carreira é coroada por sucessos ou aos artistas que, em sua trajetória, compilaram um exército de amigos influentes – exista e seja mais praticada do que sonha nossa vã filosofia.

E, além dessa ideia equivocada e que atravanca a reflexão – absolutamente necessária – para os avanços estéticos de nosso teatro, há um grupo de pessoas que lidam, direta ou indiretamente com a crítica teatral, que abre concessões a espetáculos de iniciantes com a justificativa de que é preciso incentivá-los.

Em artigo de Sábato Magaldi lemos que a crítica comete muitos erros de avaliação, mas são equívocos necessários para propagar a reflexão acerca dos novos fenômenos teatrais, ponto que vai de acordo com as ideias da dramaturga Marici Salomão, de que a crítica é uma das bases da percepção, discussão e difusão de novos caminhos das artes cênicas.

Não quero com esse texto glorificar a atividade de crítico teatral, que exerço aqui no Aplauso Brasil, seria no mínimo pedante e pretensioso de minha parte, mas, antes, reconhecer a responsabilidade que carregamos ao assinar nossos artigos críticos e, por isso mesmo, nos entregarmos à dúvida, ao questionamento constante. Em lugar do autoritário “isso pode” e “isso não pode”, reconhecer que o teatro é território livre, em que quaisquer experimentações são possíveis e que, concordando ou discordando do fenômeno teatral que se critica, é necessário o embasamento teórico e de experiências, vividas ou apreendidas em leituras, para se tecer o texto que, aliás, nada deseja ser definitivo, mas, tão-somente, uma alavanca para a discussão sobre tal fenômeno, já que segundo diz o diretor inglês Peter Brook “o verdadeiro bom teatro só tem inicio ao cair do pano”.

É preciso refletir sobretudo, “o que é?” e “para quem é dirigida?” a crítica teatral. É preciso diferenciar a crítica teatral dos materiais de divulgação de um espetáculo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Sobre "Sinfonia de Sofhia"

Escrito em 2007, quando eu ainda cursava o núcleo de dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo André, sob coordenação do mestre Kil Abreu. A "Lição de Casa" era a seguinte; um texto, com as características de um drama moderno sem perder um certo traço de linearidade na trama.

O texto aborda o olhar de uma jovem atriz, vinda de Maceió, que tenta seguir carreira artística em São Paulo.

De todos os textos que escrevi e gostaria de montar pelo Torneado, talvez esse seja o que menos me empolgue. Mas, dependendo da recepção dos nossos artístas criadores tudo pode mudar, inclusive o texto!

"Sinfonia de Sofhia" será lido no Ciclo de dramaturgia da Gastão Tojeiro.

Segue as informações:






















A seguir um trecho dessa dramaturgia:

Na pensão.

Madalena: Parece feio, mas podia ser pior.

Sophia: Cê não sabe de onde eu venho. Lá que é feio demais.

Madalena: E eu sei.

Sophia: Pois conhece?

Madalena: E precisa conhecer, com uma cara feia dessa, cê só podia vir de um lugar feio. Susto com minha sinceridade, né? Tá desacostumada com gente como eu? Ó, eu não guardo nada não. É de câncer que eu não morro. E, se não gosta, que bote pra fora também. Nóis pega nosso desgosto, bota pra brigá e vê quem ganha. Que vida amarga eu não levo não! Cê gosta?

Sophia: De que, meu Deus?

Madalena: Fala Deus de novo que leva um soco na boca. Não por mim, mas, pra você. Se tem coisa que eu gosto de ensinar pra gente besta, que vem de longe, é que Deus não existe. Vive, menina! Tô ensinando uma coisa procê. O mundo é divido em dois. Os que mexe e os que não se mexe. Você se mexe?

Sophia: Sim.

Madalena: Pois então, o que não se mexe não te pertence.

Sophia: Olha, à primeira vista eu posso parece besta. Mas sou não, viu. Sou é ligeira, que igual não se vê por aí fácil não, viu. Por exemplo, acha eu sou trouxa de pagar o quanto cê tá pedindo por esse muquifo aqui, é?

Madalena: Conhece a cidade, vá procurar outra casa então...

Sophia: Quanto é uma diária?

Madalena: Melhor cê fechar uma semana.

Sophia: É que eu nem sei o quanto de tempo eu...

Madalena: Vá dormir, ô menina, amanhã nóis conversa disso.

Sophia: Escuta...

Madalena: Que é que foi?

Sophia: Como é que gente sincera fala boa noite?

Madalena: Seja bem vinda.

Sophia: Vou aprender muita coisa, viu. Tô disposta. Pode vim sem dó. Que eu já tô sabendo que tudo que vier, só vai me fazer crescer mais. Então, num tô com medo de nada não. Se vai dar, dá na cara. E, ó... Seu desgosto muito me cativa. Quero andar do ladinho dele, que assim ele não me machuca. Vim avisada! Que eu vou sofrê...Vixe! Já vim sabendo. Daí pra frente o que vier é lucro. E se um dia eu voltar, vou dizer: “mainha, mais tu que cuzona!”. E ó! Eu sou bem vinda. Que eu já cheguei resolvida. E hoje eu digo foi um prazer te conhecer, mas se amanhã eu passar direto por você sem lhe desejar bom dia é que cresci e aprendi a ser sincera como você. Mas, por enquanto: boa noite.

Madalena: Êta baianinha metida. (Sophia deita-se em sua cama, lê os seus escritos até amanhecer).

Sobre o "Menina de Louça".




Primeiro Cartaz da montagem(Setembro de 2006).



"Menina de Louça", pode ser considerada a primeira montagem do grupo, antes dela havíamos realizado apenas o exercício; “A incrível Saga” (mencionado no post anterior). “Menina de Louça”, trata da questão da Histeria adolescente e tem como pano de fundo a lenda urbana da “Loira do Banheiro”. Era um momento em que eu buscava o lugar da comunicação entre ao ator e o essencial para a cena. Essencial também, foi realizar o processo com a dispota e vibrante Heloisa Evelyn, na época com 12 anos e muita coragem.

A seguir um pouco mais sobre o espetáculo, através de fotos, imagens, depoimentos colhidos.


Programinha da temporada do CCSP(Maio de 2007).










































Foto do processo de montagem(Agosto de 2006).



























E agora olhar da fotógrafa Sylvia Sanchez para a nossa "Menina de Louça".





















































































Para finalizar um trecho da dramaturgia:

"Em um pote de iogurte plantei um feijão, que germinou em duas gramas de algodão. Parecia milagre, mas não era não. Era uma tarefa bastarda que qualquer estagiária do magistério sabe que funciona para distrair a mente de uma criança atormentada. Os seres humanos nascem, são amados, crescem e amam, reproduzem-se amando, e morrem sem entender o que é o amor..."

Torneado e essa história de uma Dramaturgia Autoral.

Quem acompanha nossa trajetória deve perceber que uma das questões que procuramos nos aprofundar é a da dramaturgia.

Eu particulamente, posso retratar o quanto tem sido importante o exercício de ter um coletivo disposto a tentar entender as minhas idéias através da busca de uma dramaturgia autoral.

Paralelo a isso, também nos preocupa a busca individual de cada um por essa dramaturgia autoral. “Responsabilizando” não na palavra “dramaturgia” e sim na palavra “autoral”, o lugar em que iremos expor o nosso caos. O sufixo “dramaturgia” acaba sendo só uma ferramenta de organização do espaço para autoria/caos. E assim, sempre que ensaiamos uma obra, por mais que seja um texto que estamos repetindo há três anos, não ensaiamos para saber executar a dramaturgia e sim para preencher de caos o espaço da autoria. E foi o que senti no final do último ensaio do “Primavera”, um caos vivo e leve (porque assim também pode ser).

Já não ensaiavamos mais para saber a obra e sim para a organizar a catástrofe. E esse é o lugar onde percebo que o meu jeito de escrever tem mudado. Na dramaturgia do Torneado, damos espaço para que a leitura das obras sejam através de zonas territorias. Espaços onde atores e público são testemunhas dessas implosões e o primordial; “Sempre ao VIVO”.

Tenho uma impressão muito pessoal mesmo… De que para o grupo avançar em sua pesquisa, é preciso que o coletivo me ajude a esgotar as possibilidades das obras que escrevi antes da formação do grupo, e isso será o tempo dos integrantes amadurecerem ainda mais. Algumas dessas obras já foram montadas pelo grupo ou estão sendo inclusas no material de pesquisa. Claro que paralelo a isso não pararemos de produzir nossa dramaturgia coletiva.

Conheça um pouco das peças que escrevi antes do grupo e que de uma certa maneira o coletivo tem me ajudado a exorcizá-las… E que venha o novo!

(Para que esse Post não fique sobrecarregado farei um post para cada texto).


William Costa Lima

sábado, 7 de novembro de 2009

Um silêncio lá de traz....

Como Bruno já mencionou no último post, estamos em um momento de revisão crítica do que somos. Ultimamente, em tantos momentos, me pego vivendo um passado onde falar em reuniões de produção, verbas, editais... era algo que eu não imaginava. Eu conseguia ser menos que um "jovem promissor", que um dia cismo de ver em um grupo de crianças a sua única oportunidade de se fazer um teatro mais livre do próprio teatro.

A seguir o cartaz, o programinha e fotos da primeira montagem de um exercício, em OITO de dezembro de 2005, quando ainda nos chamavamos por "Projeto Meu Olho -Meu Mundo". Esse exercício,mais tarde seria entendido como o sêmem da "Dramaturgia dos Moleques".













Cartaz da montagem.





























Parte interna do Programinha.






















Letícia Galla em cena como o prefeito.






A Mesma Letícia Galla Transmutada de Diabo.





















Todo o elenco nos movimentos de cenas coletivas.











































Parte da Dramaturgia contruída a doze mãos. (Crianças de 07 a 11 anos)







Esse pedacinho de terra que vocês vão adentrar agora, é um cantinho que vez ou outra é abandonado por alguns, e vocês vão ver que tem sempre uns que fica ou por teimosia, ou por esperança... Esperança de que? Num sei, a gente sempre tem uma esperança num é?! A única coisa que eu peço pro ceis, é cuidado ao entrar na casinha dos zoutro, pois se você num conhece bem o caminho você pode machucar o chão! Agora sejam todos bem vindos...








A Incrível Saga De um Povo Astuto que Cansou do Caloreio, Amiro pra Frente, Travesso o Poeirão, Perdeu Entes Queridos, Clamo pelo Divino, Xispo Coisas do Cão e chego lá nu Sum Paulo.

Velha: O sol do dia chega queima meu zóio. Queima porque eu sou é teimosa. Canso não de olhar por além do sol e querer enxergar uma bruta bacia de água. Que a qualquer horinha dessas, um Divino vai cisma de dó desse povo, que não cança não, de pedir pra o sol cessa um bucadinho. Me vai vira uma bruta bacia por riba dessa terra. E no deserto que só havia pó e tristeza, nessa terra que nada conseguia brotar, lá de cima uma estrela de dó chorou, sua lágrima foi tão pura que a terra decidiu brotar; “Uma linda flor para uma linda menina”.

Leinha: Vozinha, flor de pano não tem coração!

Velha: Entonce empresta o seu pra ela!

Leinha: Empresto é não! Eu preciso é dele para enxergar as coisa colorida da vida.

Velha: Pro ce enxergar as coisa colorida da vida menina, só é preciso que as coisa fique colorida, só isso.

Leinha: Ta bom vozinha, mais flor de pano eu quero não, eu quero é flor de planta.

As quatro Meninas: Leinha, Leinha, não se faça de rogada e me responda pro seu bem, o que falta no sertão que lá nu Sum Paulo tem?

Leinha: Onbulos de doise andare.

As quatro Meninas: Valdirézia, Valdirézia, não se faça de rogada e me responda pro seu bem, o que falta no sertão que lá nu Sum Paulo tem?

Valdirézia: Piscina com escorregadore.

As quatro Meninas: Ai que délicia! Jozeane, Jozeane, não se faça de rogada e me responda pro seu bem, o que falta no sertão que lá nu Sum Paulo tem?

Jozeane: Shoping Centere.

As quatro Meninas: Ai que délicia! Maciene, Maciene, não se faça de rogada e me responda pro seu bem, o que falta no sertão que lá nu Sum Paulo tem?

Maciene: Minino galego do zóio azul!

(Meninos entram jogando futebol de meia).

Jefison: Eta Maciene, que vestidinho hein! Deixa eu ver sua calcinha?!

Maciene: Ochê sai pra lá ô!

Vozinha: Olhe só, a miminada que é feliz!

Vizinha: São felize porque são criança, quero é vê quando crescer.

Vozinha: Leinha! Leinha! Venha cá minina, seu vestido já ficou pronto!

Leinha: Ah vozinha, que vestido mais cumprido!

Vozinha: Cumprido é nada, você já está fazendo quatorze anos.

Leinha: Viche Maria, se soubesse que teria de usar um vestido tão cumprido eu prefiria é ter doze mesmo.

Vozinha: Mas e vestido não é tão cumprido assim. Além do mais você já esta bem crescidinha para usar um vestido tão curto.

Leinha: Hoje em dia todo mundo usa! Deixe eu usar este, só mais um pouquinho? Só no calor. Ano que vem eu uso esse. Se usasse agora eu era capaz de tropeçar na barra.

Vozinha: O Leinha minha neta. Eu queria que você ficasse para sempre assim; minha menina. Vá use esse vestido mesmo, é melhor você aproveitar essas perna bonita, quem sabe o que vai ser do futuro...

Leinha: Quem sabe, talvez eu nem esteja mais aqui!

Vozinha: Cruiz credo! Não diga uma coisa dessas!

Leinha: Desculpe vozinha, mas eu não consigo evitar. É pecado pensar na morte?

Vozinha: Leinha! Leinha! Guarde seu vestido e fique com esse mesmo. Mas um dia desses eu ainda mando soltar a barra.

Leinha: Se é assim eu preferia é ter vinte anos!

Vozinha: Põe um casaquinho que você vai acabar passando frio e apanhando um resfriado.

Leinha: Ochê ta um calor insuportável, e além do mais, nos jovens não sentimos frio, muito menos nas pernas.

Vozinha: A minina sambanga, ce ta precisando é dum saculejo. (A vozinha e a menina saem correndo).

Vizinha 1: É cada uma esse mundo ta é perdido.

Vizinha 2: A culpa é dos pai, que dexa as minina sorta feito Passarim.

Vizinha 3: Dexe só quando o Passarim traze ovinho pro ninho, deixe só.

Jonatan: O cartero chego.

Etricio: E dessa veize num veio só beber café não, e ta Cuma carta na mão!

Denílson: Foi sim que eu vi, foi!

Vizinha1: Deve ser notícia de morte.

Vizinha2 : O entonce o fio do Zé Vilino apronto de novo!

Vizinha3 : Vai ver é a justiça que chego aqui, pra tira todo povo que num tem maise o que fazer da vida.

Vizinha1: Anunce cuida da vida alheia.

Vizinha2: Olhe que gentinha assim, aqui tem é muito, visse!

Carteiro: Aqui tem um povo curioso! Metido! Gente que ser aquilo que num é, gente que come Lambari seco e arrota caviare, ces me entendem né? Caviare, tipo assim aquela comida chique.

Vizinha 2: Tipo assim, já falando feito doutore, é?!

Vizinha 1: Hum, mai ta é chique hein bichinho!

Vizinha 3: Carta, pra quem?

Carteiro: Só lhe digo uma coisa, pra vocês é que num é, tão sasisfeita! E corra menino, vá chamar dona Liliana, e diga que chego carta de Sum Paulo pra ela.

Jonatan: Carta para dona Liliana? Pô deixa que eu aviso. Dona Liliana! Dona Liliana! Carta para senhora.

Carteiro: Aqui é desde pequeno que as pessoa esquece o que é ser discreto.

Vizinha1: E vai dizer que nem uma bizoiadinha você num deu?

Carteiro: Minha profissão é apenas entregar minha senhora, e o resto não me diz respeito, passar bem minhas senhoras.

Vizinha 2: Pois se eu fosse você, pelo menos uma conferida no conteúdo eu dava. Vai que é notícia ruim, assim dá tempo de preparar o coração da coitada!

Vizinha 3: Deixa pra lá! Não é todo mundo que pensa como noise. Por isso que eu nem me meto, depois a fama de ruim fica é pra nóise.

Leinha: Acode! Acode minha gente, que vozinha ta feito fantasma!

Denílson: Foi só abrir a carta, que a muié parece que teve o coração parado, sento numa bancadinha e paro inté de respirar.

Carteiro: Segura a muié, que seu coração ta feito coração de boi ferido, e pra fazer uma besteira da vida não custa nada.

Vizinha 3: Que se passa contigo muié?

Valdirézia: Foi só ler a carta que na horinha mesmo ele infezou. Balançou a cabeça dizendo que não e soco o papel goela abaixo!

Vizinha 2: A carta, num falei que tinha coisa ruim.

Leinha: Vozinha se acalme, isso não vai levar a nada.

Vozinha: Leinha, minha neta, onde é que ta o seu coração?

Leinha: Ta aqui mais você, batendo forte e firme.

Vozinha: E o meu coração?

Leinha: Ta mais forte do que nunca?

Vozinha: E o de sua mãe?

Leinha: Ta lá mais ela, esperando a hora de abraçar a gente.

Vozinha: Ta mais não Leinha! Coração de sua mãe salto pra fora, e agora ele voa disparado, e nunca mais ninguém abraça ele.

Carteiro: Cuidado pra não assustar a menina!

Leinha: Não se faça de rogada vozinha! Fale e fale bem.

Vozinha: Foi a correnteza que não era de um rio não. Pois o que por aqui falta, lá foi capaz de achatar sua mãinha. O pequeno barraco que dava teto pra sua mãe mais sua irmã, não resistiu a tanta água e se desfez. O coração de sua mãe saltou e o de sua irmã agoniza num leito, chamando o resto daquilo que costumamos chamar de família.

Leinha: Não!

Musica:
Abre o espaço lá na terra.
Deixa a moça rosa entrar.
Se não tem a formosura, põe a rosa no lugar.

Do outro lado da cena surge o Prefeito falando num megafone.

Prefeito: Venham! Venham todos, que eu tenho algo de muito importante pra dizer pro cêis!

Jhonatan: Vamo lá minha gente, o Prefeito vai falar.

Magda: O Prefeito vai falar! O Prefeito vai falar minha gente.

Valdirézia: Bora minha gente pro outro lado!

Jozeane: Vamo minha se levanta!

Todos: Deixe de moleza meu povo, simbora!

Anunciou a banda que o Prefeito vai falar.
Subiu lá no palanque blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá.
Simbora vem meu povo que o homi vai falar.
Mai teja preparado é blá-blá-blá e blá-blá-blá.

Prefeito: Meu povo, e minha póva...

Vizinha 2: Mais o que é isso? É assombração ou esse figura que se apresenta hoje aqui, é mesmo o senhor prefeito?! Quanto tempo num é meu povo!

Povo:É!

Prefeito: Estava muito ocupado, tomano parte dos pobrema do povo.

Vizinhas: To sabeno! To sabeno!

Prefeito: Vocês vem com as cobrança e eu venho com as resposta, conforme o prometido estou aqui para cumprir. Trouxe aqui ao zóio de vocês, o caminho dos progresso, dos acessos, dos percurssirios, da prosperidade. E que venha a revolução!(Entra a secretária vestida de modo sensual todos começam a assoviar e se exaltam).

Secretária: Eu só vim avisar que ta chegando.

Prefeito: O minha fofa.

Vizinha 3: Minha Fofa?! Que discarado!

Secretária: Olhe lá Prefeito, é ele que vem, vixe como é grande. (O ônibus vem se aproximando, barulhos de tambores durante a fala do Prefeito).

Prefeito: Atenção passageiros, rumo a prosperidade, esse ônbulos tem como destino a capital de Sum Paulo, Sum Paulo!( O Povo se exalta: Bravo! Formidável! Extraordinário! Viva O Prefeito!).

Prefeito: Mas como para tudo na vida é necessário estar pronto. Pois então venho cá perguntar quem aqui se sente pronto pra embarcar nessa saga rumo a modernidade.(O povo novamente se exalta: Eu aqui! Eu quero ir! Deixe eu, deixe eu!).

Prefeito: Da boca pra fora é fácil... Mas, pra evitar a mentira, eu tive a feliz sina de ter no meu caminho uma máquina da verdade.

Vizinha1: Máquina da verdade?!

Prefeito: É isso mesmo inventadinha por eu mesmo, capaz de saber se o cabra que estiver se apresentando, vai ta falando a verdade ou não! E sendo assim dará o veredicto se o cabra merece ou não partir rumo a essa saga. Ah! E já ia me esquecendo, a bichinha aqui tem um pacto com o Coisa Ruim, por isso o Calango que ousa agir de má fé, vai ter passagem garantida, mas só que no ônbulos que faz terminal nos quinto dos Inferno! Alguém disposto a começar?! Bem, mas antes eu precisarei de alguém para vestir a bichinha. Ah, ela ainda não foi testada, por isso se der algum problema de ante mão já está avisado. Ninguém arrisca? O povo gosta é de pedir, na hora de buta a mão na massa.

Secretária: Está bem meu povo, eu arriscarei minha vida em nome dessa missão; “Ó destino cruel!”

Povo: Vai! Vai! Vai! Vai! Vai! Vai! Vai! Vaiiii UH! UH! UH! Ôooooooooo!

Prefeito: Primeiro candidato!

Vizinha2: Pois vou me eu, que não tenho o que temer. Eu que da bondade faço minha sina, e na caridade do meu senhor vivo sem pecar!

Máquina: Pi, pi, pi, pi...

Vizinha: Oche mais eu nem comecei!

Prefeito: Falei que a bichinha era infalível, só de você chegar perto ela sentiu seu sangue ruim. Agora passa daí , vá!

Povo: Sai daí! Sua fofoqueira! Sua cobra! Coisa Ruim!

Vizinha 2: Essa máquina deve ta é defeitosa!

Prefeito: Chegue de ladainha mulher e não atrapalhe nossa missão com esse seu veneno! Vamo quem é o próximo?

Etrício: Pode ser eu?

Vizinha 3: Mas você é só um menino!

Etrício: Mas meninos também sonham, e eu tenho algo muito importante que faz com que eu mereça partir com esse ônibus.

Vizinha 1: Importante, vê se te acha menino!

Denílson: Deixe meu irmão falar. E o que tive de ser, será!

Prefeito: Pois falo feito gente grande, e por isso seu irmão ganha o direito de falar, desembuche menino!

Etrício: Faize é mais de seis méis que painho partiu rumo à São Paulo. Nesse tempo nem uma carta de notícia chegou na gente.

Denílson: E isso ta deixando a gente mai que aflito, e triste pra daná. Teve inté um dia que eu me desesperei de tanta saudade de painho, e subir num pé de alvore, e comecei a gritar o nome de painho feito doido.

Etrício: E noise tem certeza que quando ouvimo maise uma veiz a voz de painho, nosso coração vai aqueta um bucadinho, vai parar de querer sair pela boca.

Denílson: E aí ela não diz nada, quando não diz nada, é o que é?

Prefeito: Bem se a bichinha não disse nada, é sinal de que os minino devem de partir!

Magda: Eta! Se eles foram eu também devo de ir.

Vizinha 2: Pois desse jeito esse ômbulos vai ter é que fazer tyerminal numa creche!

Vizinha 3: Nunca vi tanta criança metida a sabida.

Prefeito: E o que que você vai fazer por lá menino.

Magda: Eu quero... Eu quero... Eu quero é...

Prefeito: É o que minino?

Magda: É vê Disco Voadore!

Todos: Disco Voadere?!

Prefeito: E qual o problema nisso. O zóio é do minino, e ele vê o que ele quizer.

Magda: É isso aí seu Prefeito! Como cidadão desse vilarejo, eu me decraro com o ditreito de vê o Eta Terresti.

Vizinha 3: Pois então que pegue um ômbulos pra Marte.

Vizinha 1: Vai ver ele quer voltar pro Planeta dele.

Vizinha 2: Vai vê é isso!

Magda: Cês não tão me entendeno é nada! Eu quero ir pra Sum Paulo, porque lá a chance deu vê um Eta Terresti é muito mai grande. Eles são um zizibido, eles gosta de aparecer é prum montão, pra poquinho, feito nois, es nem liga!

Máquina: Pi! Pi! Pi!

Prefeito: A Máquina ta é achando essa sua história meio história pra boi durmir.

Jhonatam: Pode inté parecer doidura, mai não é não! E a hora que eu provar isso eu vou ficar é muito famoso, Veja bem seu Prefeito, veja bem, pois através de uma atitude de apoio hoje, o seu município pode um dia fazer parte da história da humanidade.

Máquina: Pi! Pi! Pi!

Prefeito: Bem... Como hoje eu não decido nada... Sinto muito minininha, pois se a bichinha apito, já está dado o veredito. Próximo candidato!

Maciene: Vem Tofinho! Vem que vai se bom pra noise! Pronto! Já começo falando é?

Prefeito: Se é de sua vontade.

Maciene: Meu nome é Maciene, sou menina que da vida ainda espera muito. Painho, Mãinha, mais meus irmãos tão satisfeito com o que tem por aqui. Pois eu só aceito isso, depois que eu sabe o que tem do lado de lá

Carteiro: Pois se for só isso eu mesmo posso lhe ajudar, por do lado de lá eu conheço é muito...

Máquina: Pi! Pi! Pi!

Maciene: Apito foi pra mim é?!

Máquina: Pi! Pi! Pi! (Balançando a cabeça dizendo que não).

Valdirézia: Ah é pra ele! Vai vê ela não gosta de gente inchirida

Maciene: Como eu dizia... Eu quero é ser gente. Sem querer parecer ser enjoada dona Máquina, mas essa vida que eu levo me aperreia é demais, e se tem algo me incomodando é sinal de que eu devo de da outro rumo pra minha vida. Eu falei o que tinha pra dizer, e a bichinha não apito é nada. Então, isso é sinal de que a gente vai Tofinho!

Máquina: Pi! Pi! Pi!

Maciene: Oche, já não to entendendo mais é nada! Eu vou ou não vou?

Máquina: Pi! Pi! Pi! (Balançando a cabeça dizendo que sim).

Maciene: Entonce qual o problema?

Máquina: Pi! Pi! Pi! (Apontando para o cachorro).

Vizinha 3: É o cachorro!

Vizinha 2: Ce não é doida de querer botar um cachorro nessa, é?

Máquina: Mai Tofinho e eu somo um só. Se eu deixa Tofinho, capaiz dele morre de tristeza.

Vizinha 1: Tenha dó, é só um cachorro!

Maciene: Cachorro que tem muito mais coração do que ocê!

Máquina: Pi! Pi! Pi!

Vizinha 1: Desaforada!

Maciene: Tofinho vem de uma família muito de sentimento. Quando tiraram ele e seus irmãozinhos de perto da mães deles, os outros dois não agüentaram de tanta tristeza e viraram a alegria das formigas. Tofinho só foi forte porque eu me agarrei a ele e disse que eu não deixaria nada de mal acontecer com ele. Ele tremia, gemia, e eu acalentava ele no meu colinho de minina. Brinquei de boneca, e disse que ele seria o meu filinho, e o pior é que ele acreditou.

Prefeito: O minina desse jeito não coração seco que resista, triste demais, triste demais.

Máquina: Pi! Pi! Pi! (chorando).

Prefeito: Eu não quero ser o culpado pela tragédia de ninguém não, vai, vai vê o que tem de lá do outro lado, pó levar seu cãzinho sim!

Motorista: Vamo! Bora seu Prefeito, ta com muita falação e eu tenho hora, e chegue de chamar gente que só cabe mais dois!

Prefeito: Pois então que se apresente os dois últimos candidatos!

Jozeane: Nois duas!

Valdirèzia: Oche eu não quero ir não minina!

Jozeane: Não ouve ela não, que ela é muito minina pra saber o quer da vida. Eu respondo por ela e ela quer ir sim, não é. (biliscando-a).

Valdirézia: Ah! Sim.

Jozeane: Minha irmã já ta indo pra quarta série, ano que vem por aqui não tem mais escola pra ela. Nosso irmão já ta lá nu Sum Paulo, e em assunto estudo ta se dando bem, já ta no Colegial. Eu preciso de ir pra cuidar dela, essa minina aí só tem tamanho mas é lerda, tadinha!

Valdirézia: Oh!

Jozeane: Xiiii!

Motorista: Bora seu Prefeito! Manda essas duas pra encher logo negócio, que eu tenho hora!

Prefeito: Vão se então mininada porreta!

Leinha: Espere seu Prefeito! Desculpe a demora é que tava difícil de convencer vozinha.

Prefeito: Pois chego tarde minina, que o negócio já ta abarrotado! Não cabe mais ninguém!

Leinha: Mas a gente precisa muito de ir!

Prefeito: Precisar to mundo precisa!

Vozinha: Deixe disso Leinha, neta minha não se humilha pra certo tipo de pessoa.

Prefeito: Certo Tipo! O que a senhora quis dizer com isso!

Vozinha: Entenda o senhor como quiser!

Leinha: Desculpe Vozinha pelas fortes palavras senhor Prefeito! Mas entenda o quanto é importante para gente essa partida.

Prefeito: Oche a minina fala como se fosse questão de vida ou morte!

Leinha: Mais de morte do que vida seu Prefeito! É o corpo de mamãe, que solitário espera uma assinatura para ser enterrado com dignidade. E minha irmãzinha que agoniza num leito de olhos fechados, e Vozinha e eu queremos estar lá no exato momento em que ela abrir os olhos, pra que ela saiba que não está sozinha.

Prefeito: O minha filha o que fazer nesse caso, se vocês tivesse chego antes não tinha o que se discutir, mas eu já dei minha palavra pra aqueles que estão ali e...

Valdirézia: Pó deixar, seu Prefeito! Esse ônbulos não é nem primeiro e nem o último que parte daqui.

Jozeane: Que ce vai falar?

Valdirézia: Feche o bico Jozeane! Não vê que nossos sonhos ficam pititinho, diante dos sonhos da Vozinha. A gente ainda tem muito tempo pra correr atrás deles. Pode vim Leinha, pode vir vozinha. Vocês mais do que ninguém merecem partir nessa viagem. Não é Jozeane?

Jozeane: Ah, claro! Afinal de contas eu só tenho sete anos, e quando acontecer a próxima eleição eu vou ta com onze e...( É cutucada por Valdirézia). Podem ir.

Leinha: O mininas, ces não sabe da importância que vocês vão ter na minha vida!

Valdirézia: E você Não tem idéia do quanto é querida, dê me cá um abraço.

Motorista: Chega de chororó minha gente, Cês tem um prazinho de trinta minuto pra arrumar suas coisa. Simbora meu Povo! Vamo com fé que tudo vai dar certo!

Prefeito: Simbora meu Povo! (Todos Vibram, em seguida correm para pegarem as suas malas, se despedem e partem com o povo).

Magda: Aquele dia, vai fica matutano na cabeça desse povo. Era abraço pra lá, abraço pra cá. Um chororó que nunca se viu. Inté Deus fico confuzo, fulano dizia:

Leinha: Fique cum Deus.

Magda: Ciclano respondia:

Vizinha 2: Vai cum Deus!

Magda: E por fim, até Deus perdeu o rumo! A única certeza que ficou, era a poeira que subia escondendo pra que banda aquele povo se jogava.(O povo vai embora). E eu, minina de tudo, olhei pro céu e não vi é nada. Mas eu decidi, até onde minhas perna agüentasse, eu ia de correr. Volte aqui! Eu também quero ir. Eu também quero ir! (A menina sai correndo em direção ao ônibus, aos poucos o Prefeito que apenas observava o ônibus partir, começa a gargalhar, tira suas roupas de Prefeito e começa a se transformar no Diabo).

Diabo: Oxalá meu pai, que é claro que o Diabo só haveria de ser Mulher! Quer coisa pior que isso?! Vai meu povo, vai por essa estrada desgraçada, que em qualquer encruzilhada eu estarei lá esperando, por vocês pronta para contar os corpos. (Roda, gargalha, e sai de cena permanecem apenas as três vizinhas olhando para o público e o espantam dalí).

Vizinha1: Ochê! Ta olhando é o que?

Vizinha 2: Chispa! Cabo! Quer dizer por aqui cabo!

Vizinha 3: Mais ali continua ó! Vamo, levanta esses bundão daí!

Vizimha 1: Eta povo preguiçoso!

Vizinha 2: Agora ces pode ir, viu cabo memo. Aqui não tem mai texto.

Vizinha 3: Essa fala aqui, que eu vou falar, por exemplo é a última. Depois só ali! Não é gente?
Povo que foi: É isso aí!

Vizinha 3: Ces não vieram acompanhar a história dos que se foram? Então vá! Vá! Vá!(As vizinhas saem expulsando o público para o espaço onde irá acontecer a segunda parte da trama).

sábado, 31 de outubro de 2009

Estamos nesse estado precário

Decidimos ensaiar menos durante esse mês de novembro, para que as pessoas pudessem se organiza para esse fim de ano. Tanto com grana, quanto com estudos, tempo... etc. Recentemente passamos por mudanças bruscas com relação a horários, relações e algumas pessoas saíram do grupo. Tiramos esse tempo para nos organizar individualmente, por que isso parecia ser o principal fator da nossa organização. Alguns, como eu, se sentiram um pouco deslocados com essa diminuição de encontros, mas depois foi bom perceber que, pra esse momento, era necessário. Penso que a nossa relação estava ficando super-saturada. Nos encontrávamos demais para fazer coisas que deveríamos conseguir fazer em menos tempo, menos energia e mais concentração.
Costumamos levar nossas incertezas da vida para o teatro. Esse tempo foi o tempo de descobrirmos as incertezas da vida e o tempo de tentar encontrar uma solução para elas. Esse tempo, esse respiro, ainda continuará por um tempo. Todos precisamos nos organizar... Pagar nossas contas, prestar nossos vestibulares, ter o nosso dinheir para viajar. E além disso, conseguir fazer nossas substituições, negociar uma temporada...

Aonde chegamos com o que somos não é tão diferente do que temos. Daqui pra frente, precisamos nos modificar para modificar aquilo que nos rodeia.
Conquistar um espaço, uma profissionalização, um comprometimento.

Bruno Lourenço

sábado, 17 de outubro de 2009

Estudo Musical 1

ESTUDO MUSICAL 1:


(Olhe em volta...Puxe batidas ritmicas no que estiver mais próximo e seja passível de bater...E comece a cantar).


Sociedade adormecida,
Amortecida.
Existência ilesa
Desde feto, só no aplique
Aplica aqui, aplica ali
Eterna anestesia.

Tampa a visão
Chapa a audição
Educa o olfato
Doma o tato
Enlaça o paladar.

Mascara-se diversas injeções:
Televisões, livros, educações.
DI-TA-DÔ
Vou te ditar o que você deve usar
DI-TA-DÔ
Amor a dois, o resto deixa pra depois.

Amor configurado, tudo formatado
Amor configurado, tudo formatado
Amor configurado, tudo formatado
Amor configurado, tudo formatado.
Amorconfiguradotudoformatadoamorconfiguradotudoformata..................(EXPLOSÃO)


FERNANDO MELO
A onda é não se sentir culpado quando expor as suas fragilidades.
Mesmo que você fale sem sentir ou sem pensar aquilo saiu pra você se estabilizar.

A onda é lutar contra a corrente e saber que isso é natural.

Nós nos cobramos para nos conhecer e, a partir daí, para conhecer o próximo que vai nos ajudar com as dores. Aliviando-as ou trazendo-as, mas ajudando.
É só uma forma de abraçar o mundo, por mais piegas que seja.

Do outro, só podemos esperar. E quando a espera vem em forma de projeção, de cobrança, a melhor maneira é desviá-la e pensar no agora. No que é efêmero.
(Mesmo que ele seja triste... Pelo menos pra mim)

Que Roberto Carlos diga o que não consegui dizer:

Eu quero apenas olhar os campos,
Eu quero apenas cantar meu canto,
Eu só não quero cantar sozinho,
Eu quero um coro de passarinho,
Quero levar o meu canto amigo,
A qualquer amigo que precisar.

(Refrão)
Eu quero ter um milhão de amigos
E bem mais forte poder cantar
Eu quero ter um milhão de amigos
E bem mais forte poder cantar

Eu quero apenas um vento forte,
Levar meu barco no rumo norte
E no caminho o que eu pescar
Quero dividir quando lá chegar
Quero levar o meu canto amigo
A qualquer amigo que precisar

(Refrão)

Eu quero crer na paz do futuro,
Eu quero ter um quintal sem muro
Quero meu filho pisando firme,
Cantando alto, sorrindo livre
Quero levar o meu canto amigo
A qualquer amigo que precisar

(Refrão)

Eu quero amor decidindo a vida,
Sentir a força da mão amiga
O meu irmão com sorriso aberto,
Se ele chorar quero estar por perto
Quero levar o meu canto amigo
A qualquer amigo que precisar

(Refrão)

Venha comigo olhar os campos,
Cante comigo também meu canto
Eu só não quero cantar sozinho,
Eu quero um coro de passarinhos
Quero levar o meu canto amigo
A qualquer amigo que precisar

Bruno Lourenço - Dividindo a angústia de não querer se sentir só

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Quando me vejo dentro de uma sala vazia, a primeira coisa que penso é rodar, dançar. Não pra preencher aquela sala, mas sim para me preencher. Preencher aquele espaço vazio externo, que existe dentro de mim.
Me acomodo nas pontas dos meus pés para alcançar planos que eu nunca alcançei, visões que eu nunca vi.
Dilato os movimentos, dilato minha respiração, dilato o tempo buscando um espaço dentro/fora de mim que eu nunca alcançei. Busco o equilíbrio e o desequilíbrio, e busco a junção deles dois no mesmo movimento. Busco os meus braços em contato com as minhas pernas, em contato com partes que normalmente ele não está em contato. Busco o impulso vindo dos meus dedos, do meu joelho, da minha cabeça para o restante do meu corpo. Então eu percebo que a sala vazia é uma continuação do meu corpo. Que por algum momento, eu apenas fiz do seu chão o meu apoio, fiz do seu teto a minha proteção, fiz das suas janelas a minha conexão com o que está por fora, fiz das paredes brancas o início para algo novo, um passo para as cores. Expressar o humano através do seu próprio corpo, se expressar com o seu material, talvez seja por isso que a sala vazia me chama. Me vejo só em alguns momentos, e em outros me vejo junto com ela, em conjunto.

Tambem me questiono quantas salas vazias existem dentro de mim.


Beatriz Barros

domingo, 4 de outubro de 2009

Voa, voa, passarinhos.

“Com seus pássaros
Ou a lembrança de seus pássaros
Com seus filhos
Ou a lembrança de seus filhos
Com seu povo
Ou a lembrança de seu povo
Todos emigram”

E a passarinha vôo.Em seus vôos longos e desajustados com as asas escancaradas, pousa de estações em estações para cumprir com o pacto de sua natureza: voar.Seu vôo com um trajeto certo cheio de inseguranças não a permiti parar para pensar. Mais uma vez, segue contando com a sua natureza, a de um pássaro que não sabe pensar, mas que organiza seu trajeto no caos do vento que faz abrir ainda mais as suas asas.Sorte da ocasião, se vez ou outra, topar com admiráveis bandos de desconhecidas espécies. Não, não deve mudar seu rumo, mas entender que não há só um caminho possível de se seguir.Vendo de perto, pode-se perceber que até os pássaros da mesma espécie voam diferente, deve ser o numero de penas que cada um possui ou o modo como seus pais o ensinaram a voar.Podemos dizer então que se unir a um bando de outra espécie é estudar as imperfeições de seu próprio vôo e tentar se adequar a nova forma de voar para não se perder dos de mais, afinal, depois de tanto tempo longe do ninho, é natural, também, que a vontade de voar junto é maior do que a de voltar pra casa. Emigramos, em busca de um novo jeito de voar, nos perdemos, em busca de um novo jeito de voar, aprendemos a voar, quando não buscamos um novo jeito de voar.Aprender a voar diferente é essencial para que o passarinho perceba que a sua anatomia é única, que seu vôo só cabe a sua própria anatomia, que o vôo de outra espécie nunca lhe caberá.O passarinho cria admiração ao admitir a anatomia do outro.A admiração surge ao perceber as diferenças de cada passarinho e respeitar seu vôo.E sem perceber, aquele vôo longo e desajustado, é na verdade um pouco do vôo que o passarinho admirou transfigurado em sua anatomia. O passarinho segue seu rumo de volta para casa afim de descansar as asas na calmaria do vento. Seu vôo sempre será o mesmo para quem vê, por que é só dele, mas pra ele, seu vôo é soma, subtração, divisão, multiplicação, das espécies, dos bandos, dos ninhos que passou, de seus pais, da vontade de voar junto, da vontade de voltar, e mesmo na calmaria do vento, seu vôo é puro caos, caos leve, caos criativo, caos de amor.Quem sonha voa longe, quem voa longe ama, quem ama sempre esta mesmo aprendendo a voar.

Da passarinha Rafaela Cuchinir Torneado Rocha Nazzari.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

1- menino
2- menina

1 - O que é rosa para você?
2 – O nome da minha boneca!
1 - Você tem uma boneca?
2 – Toda menina tem.
1 – Você parece uma boneca.
2 – E você, parece um cravo!
1 – E bonecas e cravos?
2 – Sei das rosas, e não de bonecas com cravos.
1 – Então seja uma rosa.
2 – Mas o cravo brigou com a rosa debaixo de uma sacada.
1 – Estamos em cima de uma!
2 – Construiremos a nossa.
1 – Então não brigaremos antes de termos uma.
2 – Teremos uma nossa?
1 – Eu já tenho a rosa, isso não é o que importa?
2 – E o que é a rosa para você?
1 – Não consigo dizer.
2 – E te machuca não saber dizer?
1 – E você, te machuca ao me chamar de cravo?
2 – Me machuco por não conseguir dizer.
1 – Dizer o que?
2 – Tudo o que eu queria.
1 – Então o cravo sai ferido e a rosa despedaçada.
2 – É normal não saber dizer?
1 – Acho que sim. E gostaria de dizer tudo?
2 – Por enquanto não.
1 – Por que não?
2 – Porque nunca disse. Quando eu disse “eu te amo”, acabei perdendo essa frase nas pessoas, de modo que, por enquanto, procuro ela dentro dos outros ou até mesmo dentro de mim.
1 – Só por enquanto?
2 – Eu não sei. Sei que o destino me traiu, e me colocou junto a você sobre uma sacada. Pois assim que seja.

Sendo assim, um Romeu e uma Julieta.
Beatriz Barros

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O meu amor morreu em um texto sem título.

Não tive tempo de cultivar os meus sonhos, por que eles foram - rapido demais - se tornando em realidade. Minhas metas se tornaram possíveis, minhas vontades se tornaram costumes e eu comecei a criar situações imaginárias, metafóricas... para poder sobreviver. Meus amores só podem ser chamados de amores quando são impossíveis. Caso contrário, são mágoas alheias que acumulo no meu peito e me torno, cada vez mais, uma pedra ambulante.
As vezes me questiono sobre a minha incapacidade de me apaixonar, e cada vez descubro mais que sou uma pessoa que se apaixona loucamente de forma errada, e que isso me machuca ao ponto de eu conseguir machucar o outro para apartar a minha chaga.

Esses dias, pensei que houvesse me apaixonado novamente. Esses tipos de amores impossíveis que quando se tornam reais não podem perder o gosto da impossibilidade. Mas tudo se esvai no momento em que essa 'complexidade' é domada. E tudo parece plástico, sintético.
Vai-se embora o meu amor! E me deixa, mais uma vez, com um coração de pedra. Porque só assim, eu aprendo o que é sofrer para não temer a morte. Mas, talvez, eu caminhe cada vez mais para uma morte solitária. Talvez eu morra sorrindo, mas temeroso demais para deixar alguém me segurar e me beijar antes de morrer.

Vai-se embora meu amor sem ao menos eu tê-lo vivido! Sem ao menos eu escrever sobre o inicio desse sentimento, mesmo havendo um texto sobre seu fim.

Bruno Lourenço

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Sobre as Temporadas

Tudo foi - e nem por isso vai deixar de ser.
Quando eu olho para trás, eu tenho noção da quantidade de ruas, avenidas, becos, vielas, largos, praças e parques que passei para estar aqui. E quando olho para frente, tudo o que vejo, são mais logradouros que me esperam, sempre pedindo que eu tenha a disposição de deixar um pouco de mim por lá, para que eu leve um pouco deles também.

Os espetáculos do Torneado ainda conhecem poucas ruas, poucas praças e cidades, mas começam a carregar a curiosidade de instigar alguém. No ano de 2009, o nosso grupo fez coisas como viajar para fora do estado, apresentar mostras de repertório, ocupar artisticamente um espaço público, até cumprimos temporadas, até marcamos apresentações únicas, leituras de texto, projetos paralelos, oficinas, parcerias...
E hoje, num domingo que tinha tudo para ser triste nossa vara de luz não ficou de pé. Descobrimos que, enfim, estreamos por último o nosso primeiro espetáculo. E foi feliz. E foi lindo.

Depois de todo um fim de semana apresentando "Refugo" e "Dias de Campo Belo", o domingo de "Primavera" começou preocupante. Era a estréia do espetáculo em 2009 e com 4 substituições (metade do elenco). Apresentamos numa lona de circo - que ao meio dia era transformada numa sauna mambembe - e tivemos que rebolar para conseguirmos montar a estrutura do espetáculo. Mas a vara de iluminação não ficava pronta. As luzes não funcionavam e ela ficava feia, esticada daquele jeito. Toda desengonçada em cima de nossas frutas, malas, vinhos e folhas. Quando tudo parecia perdido e - perdoem-me a rima - fudido, as nossas luminárias ficaram como unica opção de luz, então fizemos o nosso espetáculo com aquilo que tinhamos: insegurança, medo, desamparo, mas muito (e bota muito) amor.

Me faltam palavras sensíveis para descrever tudo que sinto, mas se pudesse transformar meu sentimento e sensação em metáfora, seria algo como uma mistura de Bruno Lourenço, Fernando Pessoa e Galvão Bueno, em homenagem ao clássico "Corinthians" x "São Paulo", que os fanáticos por futebol do Torneado não puderam ver que terminou em 1x1. Ainda bem, por que o que menos precisávamos era de fogos de artificio durante a apresentação.

Antes de tudo, fizemos uma roda e eu percebi que o Torneado não é mais aquele grupinho de oito pessoas aonde um ou outro se destacavam. É um coletivo cada vez maior, com maior vontade de fazer e aonde cresceremos juntos, até onde der, para que possamos brincar de felicidade. Quando demos as mãos e senti isso, me veio uma vontade louca de chorar de alegria e medo, mas o público logo entraria, então chorei algumas poucas lágrimas para ficar mais fácil de limpar e começamos o espetáculo. E dessa vez foi mais dificil, por que nós oito precisávamos contar a história de 15, 30, 80... Não éramos mais oito jovens.
No orkut de uma amiga que passou pelo grupo eu li a frase "Porque há o direito ao grito. Então eu grito." da Clarice Lispector, daí eu tomei a liberdade de acrescentar um adendo que a nossa amiga escritora esqueceu de mencionar para o grito no coletivo. "Não que eu queira gritar sozinho. Mas há o direito ao grito. Então eu grito. Grito por mim e por alguém que também queira gritar...".

Para mim, o nosso cavalo tá voando, tá voando, tá voando... e ele vai despencar junto comigo no momento em que eu cair na cama.

Boa noite pessoal, e desculpem um texto mal-escrito pelo sono, mas esse momento precisava entrar para a história - nem que fosse em forma de post de blog.

Bruno Lourenço
Morrendo de sono, com bolhas no pé e folhas secas no cabelo

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

E as minhas mãos parecem facas escondidas em teu pescoço
E as palavras feitas somente pra ti parecem desaparecer agora
Nada do que eu um dia falar parece fazer sentido
Eu só queria ter a voz de um homem escondido em tuas mãos.

Caroline Cavallo

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Seja, cultive, cresça, transpareça, nunca esqueça.
Apague tudo que eu disse e reescreva assim :
talvez alguém aprenda, o sorriso do palhaço
quando vê o sorriso da criança,
a mágica tumba do silêncio, é também a misera esperança.

Bruna Tavares
Eu olho pro céu e vejo as nuvens embassando meus olhos, qual é a sensação de se sentir em cima de uma arvore encostando no céu ? Eu adoro sentir sua voz suavizando os meus ouvidos. - E qual nosso programa pra amanha ? - a cada palavra que sai da sua boca. As pedrinhas da construção em frente a minha varanda estão entrando entre os meus pés, que droga. seria tão simples se somente ficasse do outro lado da rua, como deveriam estar, elas então invadem minha casa e a poeira aumenta num tom onde eu nem consigo mais me olhar no espelho, eu abro então minha casa ao meio, e subo na arvore novamente, e faço um pedido. - faça chover, enquanto eu lavo meus pensamentos em cima de sua constante agua pura. - as nuvens lavaram minha casa, está sem pedras, está sem poeira, e a construção acabou, enquanto eu durmo, acordada permanecerei o resto inteiro da semana, - Proibido construções nessa cidade. eu quero apenas evitar.

Caroline Cavallo

domingo, 20 de setembro de 2009

Não importa a forma oportuna que se forma diante de mim.
Já não se nota o tom da nota que desce pela minha garganta arranha gato. A porta se fechou pela brecha que me fez se perder por ai. A madrugadas dos embriagados da esquina é a vida se formando por uma metafórica teoria. A vida não é justa e nem se faz jus ao que lhe convém. Não tem por onde voltar, gire a corda que te corta pelo movimento, criando conceitos até já não saber mais quem eu sou, hoje eu me perdi, perdi o movimento robótico que transforma algo que te libera em opressão. Irreal. A corda bamba de alguém sem equilíbrio e a ansiedade que satisfaz o morto vivo. Certas vezes se ama, ama essa vida cruel e desesperada de lutos e anseios que nos rodeia a cada suspiro.
Na imagem deformada de minha memória eu fui única, apenas para mim.
A multidão de claustrofobicos enfurecidos perseguindo um misero pensar. Agora estamos pensando com o coração, amando apenas com um leve desespero dentro de si.
Decadências não assustam, elas multiplicam a abertura em série dos cabimentos sem anseio. Eu fui a luta para descobrir algo que jamais vi, a luz que não funciona de noite, a sim, a noite, ela mostra em quem você realmente se transforma, ela habita sua mente inalando suas idéias igualadas. Hoje eu já não me arrependo do que eu fiz e se fiz algo que me arrependo eu apenas aceito a vaga idéia transformista de explicação, não a caminhos para lugar nenhum e sim lugares nenhuns que te levam para caminhos.
Pouco me importa, que música a vida me propõe, eu apenas danço, girando, girando, sem parar. No meu corpo tem duas mil vozes berrando e só agora eu consigo ouvir mais de uma claramente, eu não sei para onde elas me levam, mas até agora eu as desejo até o fim.


Bruna Tavares.

Diálogo entre dois amigos

1 menino
2 menina

2. E você, lembra dessa?
1. NOSSA!
2. Sabia que você ia se assustar!
1. Olha a sua cara olhando para o Benjamim! Seu sorriso era lindo!
2. E continua!
1. Eu sei! eu só to enxendo o seu saco.
2. Tá com fome? Tem fruta aí, comprei um saco de laranjas, sempre me lembro que é sua fruta favorita. Vejo uma laranja e lembro de você acredita!
1. Obrigada, mas já escovei os dentes.
2. Aceita cara!
1. Tá vai, tudo bem. Tem faca aí?
2. Naquele copo.
1. E agora, consegue me ver? Eu comendo eu mesmo?
2. Ok, você continuará me lembrando uma laranja. Agora muito mais! Não, já sei, melhor você me lembrar uma maçã.
1. E porque?
2. É que eu esqueci da sua voz, durante muitos anos.
1. Não me ligou?
2. Maçã faz bem pra voz.
1. Porque não me ligou?
2. Perdi seu telefone, aí você tocou aqui e eu abri a porta pra você.
1. Deveria ter ido até em casa, não acha? Você e essa sua lógica que eu não entendo.
2. É que eu esqueci da sua voz, não me lembro onde ela se meteu. Da voz e das palavras que ela dizia. Logo me esqueci do endereço!
1. Eu to aqui pow!
2. É eu sei! Com essa cara de quem já viveu mais tempo!
1. Acredita que meu cabelo não cresce faz tanto tempo?
2. E isso é ruim?
1. Sei lá, to com medo de ficar a cara do meu pai, totalmente careca.
2. Se fosse assim você já teria entradas na sua cabeça, ou talvez seu cabelo fosse caindo com o tempo.
1. Ou pararia de crescer!
2. Nada para de crescer de um dia para noite ô mané!
1. Talvez quase nada!
2. É, voce deveria parar com essa mania de ser besta!
1. Acostumar-me-ei com a idéia.
2. Eu posso ser sincera?
1. Não!
2. Então serei sincera!
1. Então fala logo!
2. Eu adorava quando você usava esses verbos, tipo "acostumar-me-ei".
1. É mania.
2. De ser correto?
1. Não, de utilizar esses verbos. É que eu sou travado na regularidade do portugues.
2. Mania de ser correto.
1. Mania de tá certo, isso sim.
2. Deus que me livre e guarde!
1. Aaaa, nem vem que você gosta da forma que eu escrevo!
2. É, eu acho doce.
1. E que continue sendo doce.
2. Que seja, mais do que ja é.
1. Pois se já é, eu digo que continue.
2. Só não pode ficar enjoativo!
1. Agora sim!
2. Eu completei! Mandei bem!
1. Não, aproveitou a oportunidade para não mandar mal!
2. Filho da puta! Acaba de perder estrelinhas douradas!
1. AAAAAAAA VOCE E ESSA MANIA DE ESTRELINHAS!
2. Cada mania que me agrada eu dou uma estrelinha, é simples a regra. E não vem me enxer o saco que você tem manias horríveis, que nao mereciam nem uma tentativa de porpurina!
1. Eu adoro a história daquela vez, que você deu uma caixa de estrelinhas douradas para um amigo seu, e ele odiava essa mania das estrelinhas.
2. EU LEMBRO! ahahah, ele ficou puto com o presente!
1. É, eu tambem ficaria
2. É?
1. Sim
2. Filho da puta.
1. Eu ganhei isso?
2. É, você prefere um filho da puta do que uma estrela.
1. Nossa, ganhei um filho, só preciso achar a puta, a mãe.
2. No seu aniversário, te darei então uma caixa cheia de filhos da puta.
1. Ou uma mãe, uma puta.
2. Ou vários bebes.
1.Prefiro só a caixa.
2. A, tanto faz.
1. O que?
2. Sei lá, nós, mulheres. Uma hora uma dessas aparece e vira a mãe dos seus filhos.
1. Uma dessas? Po cara, não fala assim! Essa "uma dessas" será a mãe dos meus filhos.
2. É, engraçado é não conhecer. Ou já, sei lá.
1. Pouco tempo juntos e você já me deu tanto presente.
2. Maçãs, laranjas, bebes, putas, estrelas, fotos, e lembranças.
1. Eu vou embora.
2. Fica aí.
1. Tenho que pegar uns documentos no cartório.
2. E tudo bem?
1. Tá, ela levou um vaso que eu gostava muito, com umas flores. Sei lá, é dificil escutar o silencio do apartamento. Não ouvir uma pisada no chão a mais.
2. Já já passa.
1. Foi facil para você?
2. O que?
1. Se acostumar..
1. Sim, foi dificil aceitar a condição.
2. De estar só?
1. Tambem, é que a minha solidão não tem volta.
2. Entendo..
1. Eu to bem.
2. É, é perceptível. Me lembro que foi a última vez que te vi foi no dia que aconteceu. Eu fui correndo pro hospital, fiquei preocupado com você.
1. Eu me lembro de você lá. Foi a última vez que eu te vi.
2. Você está melhor.
1. Obrigada, eu tambem me sinto assim. Bom, eu tenho um vaso aí, só não tenho as flores! Se você quiser..
1. Para com essa mania de me dar tudo.
2. E você deveria parar com essa mania de sumir.
1. Jajá eu volto.
2. Tá.
1. Eu to indo!
2. Leva as laranjas!
1. Prefiro a fotografia.
2. Tudo bem, pega o que você quiser.
1. Sem problema?
2. Poxa, você já entrou neh?
1. Tá, eu to indo.
2. Um beijo, me liga, promete?
1. Um beijo, eu ligo sim.

beatriz barros

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Monta, re-monta, desmonta, constrói, re-constrói, e por aí vamos.
Tenho percebido as mudanças que a minha casa faz ao longo dos anos. As mudanças que as pessoas, os móveis, o oxigênio, os animais, o externo faz sobre o interno. Existe um ciclo que as coisas seguem ao longo de um tempo. As mesmas coisas se repetem, acontece na mesma época. Existe também a possibilidade de um fator novo entrar neste ciclo, e assim ter seu ciclo próprio, seu tempo próprio dentro deste tempo.
Antigamente tinha um armário no meu banheiro. Esse armário, em certa época do ano (normalmente no final, nos meses de setembro e outubro) ficava cheio de cupim. Os cupins invadiam meu banheiro, e a prova concreta disto eram asas de cupim pelo chão do meu banheiro. Aquelas asinhas transparentes e finas, que em grande quantidade elas parecem pequenas folinhas de uma árvore minúscula. Eu gostava de girar no meu banheiro, porque assim, as asas seguiam a direção que o ar que o meu corpo mexia determinava, eu fazia as asas voarem. Depois de um tempo minha mãe tirou o armário do banheiro.
Antigamente minha mãe ficava olhando pela janela quando eu saia de casa, ela ficava observando se eu atravessava a rua corretamente, se nenhum carro iria me atropelar. Hoje em dia, minha mãe não fica mais me olhando pela janela. Quem fica é a minha cadela. Ela sobe no sofá que está encostado na parede e fica observando a rua, aquela movimentação toda, sendo que o vidro da janela já está formando marcas de respiração, na altura que a cadela alcança.
Antigamente os móveis eram distribuídos de outras formas pela minha casa. E mesmo sendo os mesmos móveis eu vejo eles em lugares novos e penso como eles são novos.
Percebo essas mudanças nos nossos espetáculos. Principalmente no "Primavera", com o passar do tempo percebemos como o "Primavera" é uma peça nova. Uma nova montagem. Novas pessoas (mesmo sabendo que pessoas antigas sempre estão presentes em diversos aspectos) sempre trazem o novo. Trazem a visão de um móvel de outro ponto de vista. Trazem outros olhares pelas janelas. Até mesmo quem ficou absorve mudanças. E são tantos fatores novos, antigos, transformados, reconstruídos e modificamos, que sim: a peça é outra.
"Três anos, como o tempo passa". O tempo passou. Fui me acostumando com minha cadela andando pela casa, a ponto de que hoje em dia, vou à casa de pessoas que eu não conheço e escuto o andar de quatro patas sobre um piso de madeira. E é uma junção de passado, presente e futuro no mesmo ritual, que somos capazes de nos encontrar quando tínhamos cinco anos e, ao mesmo tempo, quando eu tenho dezessete anos. Pois sendo um ciclo, de tudo fica um pouco.
Um dos assuntos que "O despertar da Primavera" fala é sobre os ciclos internos e ciclos externos, e como esses ciclos se juntam e se separam ao longo da vida. O meu começo pode ser o meio de um coletivo, e assim o meu fim definido pode ser o início de um fim para alguém (por exemplo, a última cena da peça). As personagens morrem, vivem, nascem e renascem ao longo disso tudo. E seguem caminhos dúbios, híbridos.
Fizemos pesquisas novas. Questões como gênero, escolas internas, a relação com o pai, a relação com a mãe, o toque humano na sociedade de hoje, e diversas outras coisas foram presentes nessas pesquisas. Imagens, sons, músicas, músicas internas e externas, objetos, vinhos, copos, mapas, energia. E eu me encontro perguntando sobre diversas questões como "até que ponto eu não sirvo de estímulo para o outro quando estou em cena? Até que ponto o meu masculino não é o masculino de outro? E o meu feminino não é estímulo de outro?". Analisamos não apenas os jovens de hoje em dia, mas o ser humano de hoje em dia. O que é a educação de hoje em dia? Não apenas para o adolescente, mas para a criança, para o velho, para nós. Educamos-nos cada dia que passa. Educamos nosso corpo, nossas mentes, nossos movimentos, cada segundo nos controlamos e nos mostramos coisas, também sofremos a educação dos outros. E o que é esse outro? O dever, o querer? O que é tudo isso, tanto para mim, para você, para nós?
Hibridez. É essa a palavra que eu vejo a peça que montamos. Vejo que o grupo não está mais buscando uma definição concreta. Somos movidos por perguntas, por estímulos. Queremos a complementação do outro por viés da troca. Trocamos entre nós mesmos e queremos trocar com o próximo. Trocamos textos, trocamos histórias, trocamos pactos. Trocamos a ponto de nos complementar, complementar um e complementar outro. E não se complementar também acaba sendo uma complementação.
Paramos,
Respiramos,
Olhamos nos olhos de uns,
Nos olhos dos outros,
E então falamos: vamos,
Que seja doce.

Tocamos no nosso pacto. "Eu seguro..". Acabamos sendo nove portos-seguros ambulantes em um palco. Pisamos no mesmo chão e sentimos que não estamos sozinhos no meio de tantas folhas secas. Porque tudo mudou e mesmo assim, continuo não me sentindo sozinha em casa. Porque eu vejo que não é só a minha casa que está presente. Aprendi a olhar pela janela, aprendi a mover um móvel, aprendi nesses últimos meses, que não estou sozinha. E mesmo algumas coisas machucando. Mesmo tocando em mim por dentro e sentindo algumas dores, “eu senti dor interna”, aprendi que a dor é um viés. A provocação interna, corporal, mental, é uma retirada da segurança. Mas mesmo assim: não estou sozinha.
Eu repito: de tudo fica um pouco.

Beatriz Barros

Pessoal! Eu Fernando Melo faço parte como aprendiz da comunidade da Escola Livre de Teatro de Santo André! E venho aqui para divulgar o que está acontecendo na nossa Escola:

A Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT), projeto artístico-pedagógico que se firmou como referência para a formação de atores no Brasil e que se aproxima agora dos seus 20 anos de enraizamento na cidade, acaba de ter seu coordenador, o ator Edgar Castro, sumariamente demitido.

Nesta sexta-feira, onze de setembro, artistas representantes dos principais coletivos de artes cênicas das cidades de Santo André e São Paulo - entre os confirmados as atrizes Maria Alice Vergueiro e Leona Cavalli, o ator Antônio Petrim, os diretores Francisco Medeiros e Cibele Forjaz - farão um ato público em prol da manutenção do projeto artístico-pedagógico original, que se encontra ameaçado.

Internacionalmente conhecida por seu projeto inovador desde sua fundação, em 1990, a ELT foi idealizada pela artista-pedagoga Maria Thaís Lima Santos, (hoje professora doutora da USP e coordenadora do TUSP), e coerentemente transformada pela experiência e pelos diversos mestres que passaram por ela tais como: Luis Alberto de Abreu Antonio Araújo, Tiche Vianna, Francisco Medeiros, Cacá Carvalho, Renata Zhaneta, Cibele Forjaz, Cláudia Schapira, Denise Weinberg, Sergio de Carvalho.

Da palavra "Livre" - presente no nome da Escola - emerge um campo pedagógico próprio, que pressupõe o conceito de deliberação coletiva, derivado do contínuo diálogo entre mestres, aprendizes e funcionários (constituintes legítimos da comunidade ELT), num processo de não-hierarquização, radicalmente contrário a imposições.

Desde o final do ano passado, após a eleição do atual prefeito Dr. Aidan Ravin, a comunidade da Escola Livre de Teatro tem se reunido para conhecer o projeto cultural para a cidade de Santo André. Em 28 de novembro, organizou um ato público, o Encontro Cultural da Cidade, quando se esperava como convidado principal Dr. Aidan Ravin. O então futuro prefeito não compareceu, mas fez-se presente através de seus assessores e do vereador recém eleito Gilberto do Primavera, que firmou publicamente seu compromisso com a cultura da cidade e com a manutenção do projeto original da ELT.

No entanto, como primeira medida, designaram para escola uma nova coordenadora não pertencente ao quadro de mestres e desconhecedora do projeto em curso. Em assembléia geral da escola, em 3 de fevereiro de 2009, com a presença de toda comunidade ELT e da coordenadora, o atual Secretário de Cultura, sr. Edson Salvo Melo, não só reiterou a continuidade do projeto artístico-pedagógico como também acenou a reforma física do prédio da ELT, readequando o espaço para as atuais necessidades da escola.

Passados oito meses da nova gestão, de contínuas tentativas de diálogo entre a comunidade, a coordenadora sra. Eliana Gonçalves e os funcionários também recém transferidos para a escola, encontros mediados pelo coordenador Edgar Castro (mestre da escola há 11 anos), fomos surpreendidos por esta repentina demissão feita pelo diretor de cultura Sr. Pedro Botaro no dia oito de setembro.

No ato público os artistas entregarão uma carta ao Secretário de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo, sr. Edson Salvo Melo. A idéia é pedir que se reveja a demissão de Edgar Castro - escolhido democraticamente pela comunidade escolar e com ampla aderência de todos - e a que se possa dialogar sobre a presença da sra. Eliana Gonçalves.

A concentração para o ato será às 14h em frente à ELT:

Praça Rui Barbosa s/ nº, bairro Santa Terezinha, Santo André.

Segue em passeata até o Paço Municipal de Santo André.

Os interessados também poderão participar do movimento que reivindica a manutenção do projeto pelo blog: www.movimentolivre-sa.blogspot.com

terça-feira, 8 de setembro de 2009

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sobre o ator-criador - Uma visão particular

Imagine-se na posição de alguém que espera, observa e guarda. Alguém que não tem controle de nada daquilo que lhe rodeia. Que sente uma falta de interesse absurdo por algo que, outro dia, lhe havia sido uma proposta de distração. Imagine-se extremamente rodeado de movimento e você ali, inerte, olhando as mochilas. É como se a mente implorasse algum tipo de distração. Mas aquilo tudo te sufoca de forma tão suprema que você não consegue, sequer, se ensimesmar. Uma espécie de tranqüilidade artificial.
Então você entende o que você precisa fazer para girar a chave.

Eu me coloco à margem de tudo aquilo que não me interessa por que é daí que eu me provoco. Eu falo daquilo que me dói, por que eu transformo a dor em brincadeira.
Nunca foi fácil ser provocado. Ainda mais sentir a provocação reverberar em você até que se manifestar numa mão que escreva ou numa boca que grite. O caminho pra fora é dolorido.

Sento-me num cantinho de grama e é como se eu colocasse minha mente e meu olhar num lugar obsoleto. E, ao mesmo tempo, eu tenho a consciência de minha inércia e se insisto em não pensar, não me mover e só criar aquilo que é filtrado por algo, ou por mim, é por que sei que estou no olho do furacão.

Bruno Lourenço
(Viajando no olho do furacão)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Hoje foi um dia muito triste.

No final do ano passado, eu estava em uma cantina italiana com o pessoal do núcleo de direção.
Havia um moço bonito ao meu lado mas eu o conhecia só por nome. Ele era professor de matemática e ator. Lembro dele fazendo um paralelo sobre o teatro e triângulos. Agora não lembro a relação entre os dois, mas naquele dia eu achei aquilo tão genial, que passei um tempo relacionando tudo que tinha a minha volta com triângulos.
Hoje eu fiquei sabendo que ele foi embora. O teatro perdeu alguém muito especial.
Mesmo sem o conhecer tão bem, eu me senti triste. Creio que todos que ficaram aqui se sentiram tristes. E hoje deve ser um dia de festa lá no céu, com a chegada de alguém tão especial para brilhar lá em cima.

Mayra

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A história de dois narizes

Acalma teu coração, chorar não faz mal não, chora toda dor e insegurança, toda saudades que sem sentir te faz ter medo de não voltar. E se acha que teu abrigo voo, abre os olhos pequena, ele está a uma ligaçao de distancia.
Somos fortes, somos um, nos descobrindo em meio a narizes entupidos e poças de lágrimas.
Tudo vai ficar bem, voa e voa pra dançar, dança, dança pra voltar.
Se sina de mulher já é esperar, estarei de braços abertos, e o convite eu deixo, volte que nós também vamos bailar.
E que nosso bailado seja eterno para que se um dia se desmembrar seja pra representar o solo do que nunca foi sozinho mais sozinho sempre estará.
As pessoas e os lugares nunca são os mesmo, mas nós somos pois tudo depende de um ponto de vista, e o bom é que nosso ponto de vista a gente que escolhe.

Voe, cure, dance, chore, gire, brilhe, entope, ligue, voe, pouse, abrace, chore!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Mulheres Mangas

E o coração saiu pela boca. Esperei, esperei, esperei... pra isso. Ver parte de mim dividir-se, ver o fruto cair da árvore maduro, pronto para apodrecer.
E as leis da natureza fizeram com que minhas mãos ternas de amor colhesse o fruto que caiu de minha árvore, como roubar manga com os moleques no quintal, como se já tivesse passado por aquilo antes, só que agora de uma maneira inversa.
Minha avó compra manga só pra deixar o cheiro na cozinha.
Talvez minhas mãos estivessem ternas de amor próprio que apodreceriam lentamente o fruto que se soltou de mim, amor demais, amor cego, amor doido, amor de árvore, amor de mãe.
Se precisar, corra de minhas mãos e faça-se alimento para quem precisa do amor que quase te apodreceu.
Ou espere virar lixo pra ter a chance de renascer, mesmo que sem querer.

por Rafaela Rocha

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Me acomodo no desejo de esperar
Vem flamaria, vem vidente
É clara a condição de se rasgar
É iminente a chegada do amor

Se subo ao topo... Desespero a me ver sorrir para vertigem
Sempre que posso me alerto algo sobre o perigo de cair
Assim que escuto dou indícios de uma surdez
É necessário romper o vício de uma voz

Do que me deu a distância além da vontade de medir?

Forte as pernas da mesa
Elegante o polar do sofá
Extremo o fundo da geladeira
E tudo delicadamente sobreposto a um piso docilmente apelidado de “Béginho”.

Aprisionado a fotos em movimento
E ainda sim, tudo se faz de tão sépia que parece me enganar
Eu sei de mim
Eu sempre sei algo sobre mim
Eu sempre acompanho novelas e seriados de época
Sei do o quão é vão e valente o risco de friccionar-se sobre um corpo
Sei que procurar a solidão também é serviço nulo e fugas

Ainda sei um pouco mais
E procurar entreter meu coração não me cabe a mim
Serviço sujo e vulgar é esse de tentar fazer arte da vida sem antes vivê-la
Não lhe prometo uma obra sem antes prometer uma desconstrução

Não farei um filme
Dispensarei vanguardas de possibilidades de cordéis
Nada que discuta a verossimilhança das mãos e das pegadas que possam causar
O estrangulo será real e possível
E ainda assim eu peço para realmente não se aproximar
Por favor, permaneça ao longe de qualquer abertura intangível de seu pequeno e sempre seu universo... para sempre seu universo...
Aprendi a me reconhecer na espera de coisas que nunca se alarmam
E por isso procuro amigavelmente me aproximar e dizê-las que nunca virão

Porque desde que me conheço por gente passei a conhecer também a iminente condição de se esperar para sempre e só

domingo, 26 de julho de 2009

Painho

Hoje passei na frente de um barbeiro.
Um daqueles que os homens vão fazer a barba.
É engraçado isso pra mim, na minha família, os homens se reúnem e vão juntos ao barbeiro em alguma data especial. Casamento, natal, aniversário, esse tipo de coisa.
E aí eles ficam felizes. Eu tenho uma dificuldade incrível de conceber o porquê dessa felicidade. Fui criada pela minha mãe, meu pai não foi muito presente na minha criação. Hoje em dia consigo olhar para ele com mais clareza, ver as suas atitudes com certo distanciamento consigo analisar o porquê de certos fatos, mas ainda com uma visão muito obscura.
O Torneado faz uma peça chamada "Dias de Campo Belo", é uma peça que fala sobre o universo masculino, as relações que os homens criam entre si. Pai, filho, irmão, primo, amigos. O mais engraçado é que, eu não consigo entrar em contato com o masculino de forma clara, parece que as coisas são sempre obscuras. Sinto uma dúvida, incontrolável. Eu tenho vontade de perguntar para o meu pai o porquê que ele machucou tanto as mulheres que estavam ao seu redor. Vontade de perguntar o porquê de tanta frieza junta, se ele me ama, porque ele sumiu durante tanto tempo, se ta tudo bem com ele, se ele não quer saber sobre minha vida, sobre meus namorados, sobre as músicas que eu estou cantando, será que meu pai tem vontade de me ver com mais freqüência? Ele tem raiva de mim? Eu também não sei se essas perguntas todo ser humano tem vontade de saber sobre as pessoas mais velhas, mas eu não paro de me perguntar: Porque ele não grita?
Eu não sei até que ponto passar uma navalha sobre sua carne para um homem, durante toda a sua vida, tira mais essa dor, essa vontade do berro. Parece que quanto mais passam uma navalha, menos a voz sai. E vai tudo ficando interno, e interno e interno. Eu sinto que quando eu me arrumo para esperar, eu, na minha condição de mulher que espera, tenho mais facilidade com esse estado de esperar. Mas meu pai ele parece não querer gritar, porque o grito dói mais do que sentir ele dentro de si. O alívio dói mais do que essa coisa de guardar.
Então ele vai guardando, e dentro dele cheios de gritos, ele vai ficando assim.
Uma vez o William perguntou para nós "Se você fosse fazer uma pergunta, pra quem você realmente a faria? algo que você deseja muito saber?". Eu digo que o mistério da minha vida é o meu pai. Eu não entendo. A minha vontade é sentar em uma mesa e perguntar diversas coisas. Esses dias encontrei uma foto dele, sentado, olhando a banda do irmão dele tocando. Eu comecei a chorar quando encontrei essa foto.
Meu pai com uma cara de apreciação, de quem gostava do estado que estava. Eu queria gostar do meu pai naquele estado, sereno, leve. Parece que sua angústia passou, e ele apreciava parado. Continuo tendo uma visão obscura, danificada pela falta de vivência e compreensão. Mas eu preciso dizer, o Dias de Campo Belo foi um estímulo para eu quebrar essa dor que eu sentia, essa mágoa, e tentar compreender, o porquê das coisas serem como são. Eu tenho uma carga histórica no meu corpo que eu não posso negá-la. Eu preciso entender, e com o tempo que passamos na terra, coisas vão acontecendo para você ter essa compreensão. Com certeza, O "Dias" foi o principal estímulo. Hoje consigo ver uma foto dele e chorar, e encarar de verdade suas feições e me perguntar o que estava acontecendo naquela época. E aí eu consigo pendurar o quadro dele na minha parede e olhar, apreciar, e sentir não apenas dor, mas que esse mistério seja encarado de forma verdadeira, que seja doce. Hoje consigo dizer isso para ele, um termo que eu aprendi com o Torneado, que eu só uso quando quero me referir ao meu sagrado ou falar sobre o sagrado de alguém, “Que seja doce”. Agora tenho calma, consigo ver um carnaval passando, ver dois amigos conversando sobre um rio, ver um pai ensinando o filho a trocar a fiação. Hoje vejo essas cenas e consigo me ver, lembro do meu pai me ensinando a dançar na sala, no ano novo de algum ano. Ele colocou um disco do Chico Buarque, me pegou no colo, e fico girando comigo, cantarolando Beatriz, eu prefiro me lembrar daquela dança hoje em dia, antes eu negava ela, mas agora é prazeroso pensar que eu tive momentos bons com ele, que eu tive algo mais concreto, melhor eu diria. Meu pai é um mistério para mim. E com o tempo deixa de ser, assim como é um mistério os homens da minha família juntos, irem fazer a barba.

Beatriz Barros

domingo, 19 de julho de 2009

Partindo ainda, daquela última improvisação.

Eu não estou aberta para negociações. Aqui dentro está sendo montado o espetáculo do meu coração e eu não vou trocar o protagonista. Não vou, por mais complicado, mais louco, mais insano, mais insólito que seja, não vou. Não se fazem mais artistas assim, em lugar nenhum. E eu demorei pra conseguir selecionar, foi um rigoroso teste de seleção e ele passou em todas as milhares de fases com boas notas. E hoje a nota de corte já está muito alta, ninguém é capaz de alcançá-lo. Até parece que tenho que subir montanhas para conseguir um beijo, fazer cara de doce para conseguir um abraço, mover mil neorônios para conseguir uma resposta. Pois é, eu faço escolhas dificeis e esse é mais um dia de ensaio do espetáculo do meu coração. É lindo, tudo lindo. Sei que ele vai chegar com uma cena linda, amarrada numa música que ele mesmo criou. Sei que haverão imagens lindas do começo ao fim, todas executadas com tranquilidade e segurança de mestre. Ao final de cada ensaio, beberemos Brahma, com a conta dividida. Não dá mais, daqui a pouco estamos estreando. Não vamos nos apegar em nomenclaturas, exercícios rasos. O tempo passa rápido né? Se as coisas fossem fáceis não teriam a menor graça. Eu aprendi a transformar. Se não dá pra ser, eu transformo. Só não quero ter que trocar o protagonista agora. Foram alguns anos trabalhando nisso. Sabe, como é. Ele chegou tomando conta do espaço, roubou a cena. Talvez tenha sido só mais alguma coisa que ele andou levando consigo sorrateiramente, como aquele livro. E quando é assim, desculpa, não dá. Não dou, não empresto, não troco o meu protagonista. Não desisto. E não adianta insistir. Eu não estou aberta para negociações.

Mayra

sábado, 18 de julho de 2009

Sobre a oficina do Pequeno Teatro de Torneado.

Estou há algum tempo para escrever sobre o que foi essa experiência no grupo.Pois bem. Estou no Torneado há três anos. E uma das coisas que lembro de ter planejado mais com o grupo era a ocupação de uma escola pública.Não é de hoje que temos o objetivo de ocupar um lugar e fazer desse lugar um espaço para a formação de público.Um espaço para que as pessoas conheçam o nosso trabalho e acima de tudo, se interessem por movimentos artísticos.Um espaço que sirva de ponte, onde o teatro finalmente, está ao alcance de todos.A ocupação no colégio Alves Cruz, no bairro do Sumaré, apareceu num momento em que estavámos saindo de várias crises.E ao adentrar aquele lugar, uma energia nova pareceu se incorporar ao grupo, uma energia que nos ajudou a continuar caminhando, com mais força.
Junto com a ocupação do grupo (Passamos a ensaiar na escola) veio a oficina. A príncipio era uma oficina apenas para os alunos da escola.Alunos estes que, já haviam iniciado um movimento teatral por lá.Sempre falamos de como o nosso grupo acolhe as pessoas. E dessa vez, eu me senti acolhida.E depois essas pessoas dessa escola, acolheram também outras pessoas que nós levamos para fazer a oficina.Eu queria falar do encontro. De pessoas tão diferentes. O torneado é um grupo onde todos são diferentes. Cada um veio de um lugar com uma essência.Sinto que naquela escola também é assim. E no último encontro antes das férias, estavámos em mais de dez pessoas. Todos com o mesmo objetivo, o teatro.
Eu queria dizer que foi fantástico esse tempo em que estivemos juntos. Muito do aprendizado do Torneado veio a partir da troca.E hoje eu vejo essa troca reverberando em outras trocas. E nada me deixa mais feliz.Saber que mesmo que demore, algumas portas se abrem para nós. Saber que nós abrimos a porta para o caos e conseguimos fazer dele, arte.Saber que tem pessoas incríveis ao nosso redor.E a essas pessoas eu só quero dizer, muito obrigada.
Que seja doce.

Mayra

Sobre o sentir e o dançar de um corpo gordo

Sempre achei estranha a vontade que eu tinha de dançar. Durante muito tempo, meu corpo ficou inerte. Fugia das aulas de educação física, ...