sábado, 17 de janeiro de 2009


Hoje voltei pra casa. Eu vi coisas muito bonitas, parece que quando estou com minha família, com a minha raiz, eu me recordo de fatos que estavam bloquados na minha memória. Me encontrei em situações que me fizeram recordar, me trouxeram lembranças de acontecimentos doces que eu queria dividir com vocês, pelo fato de que todas estas lembranças automaticamente colocaram o grupo na minha mente. São textos simples que eu acho que tem relação com nossa pesquisa.
Eu acho que, eu descobri que para mim, o caminho mais fácil de chegar perto da minha infância e relembrar, tanto sensações como imagens e palavras é: quando eu estou com minha família... e quando eu estou com o torneado. O texto que o Bruno postou anterior a este, comentando sobre os diálogos com os seus primos, tambem me incentivou a postar estes textos.



"Eu queria ter o tamanho de não alcançar o tamanho de nada"

1
Quando eu era criança, a tia Bebel as vezes estava no Brasil.
Ela morava na Inglaterra, e eu sabia que ela ja tinha morado na índia graças aos elefantes indianos que eu encontrava pelos cantos do quarto da minha mãe, eles eram deuses para mim, eu sempre achava que a minha mãe ia me matar quando me pegasse brincando com eles. Pequeninos e de madeira, eram do tamanho da palma da minha mão, e eu queria leva-los comigo e esconde-los. Eu achava a minha tia uma figura mística, e não vou mentir que ainda acho um pouco, eu sempre sentia um desejo incontrolável de busca quando entrava em sua casa, uma curiosidade maior que qualquer empurrão dentro de um buraco escuro desconhecido. Certo dia, em uma destas vindas ao Brasil, eu me lembro de ter ido para Teresópolis com ela. Estavamos as duas sentadas no banco de trás do carro, quando ela quebrou o silêncio me perguntando:

- Gosta das montanhas Beatriz?

- Eu gosto - Disse rápida e surpresa.

- E o que você mais pensa sobre elas?

Eu hesitei por um momento, e me perguntei o que penso quando vejo uma montanha. E então respondi:

- Eu sempre olho para a mais distante e me pergunto "o que dá pra vê de lá?". Com certeza, desta montanha mais distante eu consiga ver outra, ainda mais distante, então eu iria correndo até aquela segunda mais distante, até fazer isso diversas vezes e chegar no oceano.

Minha tia ficou em silêncio, observando as montanhas, e então, depois de um longo espaço de tempo, ela disse:

- Eu gosto de ficar observando qual é a montanha mais azul entre todas que eu possa ver. Esta, que eu encontrar com o tom mais escuro de azul, é a mais distante.

- Então a gente sempre busca o azul neh?

E então, ela olhou nos fundos dos meus olhos, e sorriu pra mim. Até hoje, quando eu viajo e vejo montanhas distantes, eu lembro da minha tia, e da minha vontade de sair correndo montanha abaixo para chegar no oceano mais próximo, e buscar o meu azul.


2
Nesta viagem, eu conheçi o Joãozinho: meu primo de 4º grau. Ele tem 4 anos, é um menino magrelo loirinho de cabelo liso, todo meloso e saltitante. Tava no jardim, tirando foto dele, quando ele pegou uma pedra, virou para mim, e disse:

- Guarda para mim?
E eu assustada, perguntei:
- Pra que João?

- Pra colocar na ponta do meu castelo! - Ele gritou com um sorriso imenso por ter a sabedoria de construir um castelo de areia.

Obivo que eu guardei a pedra, e levei para a praia junto comigo. Chegando lá, o João se esqueceu dela quando viu o tamanho do mar cheio de pedras que tava na frente dele.

No começo, ele ficou com vergonha de entrar, tava com medo da maré puxar ele lá pro fundão. Mas aí, o meu tio pegou ele no colo, e ele entrou. Depois disso, o João saia correndo do mar até onde eu e o restante da minha família estavamos sentados. E ele gritava "EU MERGULHEI E BEBI ÁGUA DOCE! EU MERGULHEI E BEBI ÁGUA DOCE!"

Voltando para casa, eu perguntei:

- Quer dizer então que você bebeu água doce João?

- É sim! - Com o maior sorriso de dentes de leite que eu já vi.

- Mas ué, a água do mar não é salgada?

E aí, ele parou de andar, puxou a minha mão, e disse:
- É claro que não, se eu pegar um saco de açúcar que tem lá em casa e abrir no mar, ele vai ficar docinho, mais doce que qualquer doce que tu já comeu! Com certeza alguem abriu um saco de açúcar antes de eu entrar no mar e jogo para mim!


3
Quando eu era pequena, eu sempre pensava: vou cortar um pedaço da estrada que me separa da minha família que mora longe, e vou jogar no mar este pedaço. E a terra em que eles estão eu empurraria com muita força pra se juntar com a outra terra, e aí, tudo se encaixava. Juntava e formava uma cidade só, com todo mundo morando na mesma rua. Minha família do Rio de Janeiro com meus amigos de São Paulo.


4
Eu vou ser sincera.
Essa é uma confição meio que, engraçada até para alguns, mas aa.. porque não dividir agora?

Eu tenho um sonho, desde quando eu morava em Recife. Uma vez, eu fui no circo de lá. Todo mundo tem vontade de ser equilibrista, ou bailarina, ou domador de animais, ou até o palhaço alguem quer ser. Bom, eu tinha vontade, não de ser pipoqueiro ou vendedor de ingresso, mas eu tinha vontade de ser apresentadora do circo.

Sabe, eu sempre quis, chegar lá na frente e gritar, com um paletó vermelho, uma cartola dourada e um bigodão preto "SENHOOOOOOOOOOOOOOOOOOORAAAAAAAAAAAAAAAAAAS E SENHOOOOOOOREEEEEEEEEES!!",





e os tambores tocam.

Eu não queria crescer e ser médica, ou ser veterinária, eu queria apresentar um circo. Queria subir em um elefante branco e ir viajando, de cidade em cidade, gritando e berrando e chamando todos para assistir o espetáculo de hoje a noite. Eu queria dar gargalhadas e gargalhadas daquelas de botar medo na platéia e logo depois derramar lágrimas de felicidade saídas de uma flor, graças ao palhaço ter feito o público rir e do mágico ter feito um coelho nascer de seu chapéu. Queria me emocionar todo dia com o amor do equilibrista e da bailarina atrás do picadeiro, e soltar os animais das gaiolas antes do domador sentir que este pode ser o último momento da sua vida. Eu queria coordenar aquela brincadeira, aquele jogo de aplausos e risadas e emoções escancaradas, cheias de cores e brilhantes que o circo me disponibilizava. Eu queria uma duas três cambalhotas todos os dias do ano, todos os dias da vida, e que eu pudesse morrer dando uma cambalhota! Que eu pudesse morrer abraçando tudo isso, todas as crianças que eu encantava e que me encantavam.

Mas eu só tinha 7 anos.





*a foto que eu postei fui eu mesma que tirei! É o João, correndo na praia.
um beijo para todos,

Beatriz Barros.

2 comentários:

Roseane Castilho disse...

Na virada do ano eu conheci um menininho chamado Lucas. Ele tem 6 anos e a coisinha mais inteligente que eu já vi na vida! Até me assustei.

Em determinada hora da madrugada o pai dele aponta para os meus piercings e fala:
- Olha Lucas quantos parafusos que ela tem!

A resposta/pergunta, direcionada a mim, foi muito mais complexa do que o próprio Lucas imagina:
- Você gosta de se furar?

Projeto Meu Olho-Meu Mundo disse...

Bia, Bruno e Roseane...

Queria ouvir um pouco da lembrança de vcs sobre o corpo e movimento de vcs...

Belos Textos... Vou postar um texto em resposta...

Irá se chamar:

"A Roupa de passeio"

BJUS nas crianças do mundo!

Sobre o sentir e o dançar de um corpo gordo

Sempre achei estranha a vontade que eu tinha de dançar. Durante muito tempo, meu corpo ficou inerte. Fugia das aulas de educação física, ...