A mulher se desmembra ao longo da sua vida.

Nascemos com a postura de um membro extravassado de seu conforto, de sua casa. Este membro que, logo após sua saída, da um berro de desconforto pela sua primeira parcela de oxigênio que invade os seus pequeninos membros e, logo depois, chora pelo conforto perdido, pela falta de um mundo que nunca mais verá: a partir de agora será apenas externo, não pode mais voltar.
Uma dor agonizante nos invade, e para amenizar esta dor, alguem nos pega no colo e canta uma canção de ninar. E aí, o toque é descoberto como toque, a lágrima é descoberta como o líquido aminótico, a mão é descoberta como mãozinha, e a mulher é descoberta como o externo da minha casinha. E então você pensa "eu fui feito aí", o meu sangue é o teu sangue e a minha pele é a tua pele. E você ve a sua origem, a sua raíz.
É uma relação de acordo, de relembrar o seu conforto perdido, o seu útero despedaçado agora se transforma em braços que te envolvem e te acolhem, são nove meses para uma vida sem garantia de tempo, e é necessário os braços para nos levantar, para nos ensinar, para nos aconchegar da perda.
Nós crescemos, anos se passam e o nosso corpo se expande, abrange lugares e nosso olhar e nossa mente abrangem distâncias, conhecimento do externo desconhecido. E depois, descobrirmos que podemos gerar alguem, mas aí que começa a essência: passamos por um processo de perda. Todo mês, a mulher perde uma parte de si, se renova para a preparação de sua criação. Durante anos, ela se prepara para o maior desmembramento de sua vida, a maior perda e o maior ganho. A junção de duas partes que se encaixam, gera o caminho mais híbrido da sua vida. A partir desta junção a mulher deverá amar e odiar, sorrir e chorar, sofrer e amar. Pois um ser humano necessita dos dois lados dispostos em sua formação, para se descobrir e descobrir o mundo em que ele foi posto.
E então, durante a preparação, nós descobrimos o que é amor, e a sua necessidade para a criação de outro alguem. E tudo se coloca na frente, tudo é transmitido com a mesma fórmula inicial, com a mesma origem. Você descobre que um "como foi seu dia?", ou "você está com frio?" ou mesmo um "machucou?" saíram do mesmo lugar. Que o seu útero se manifesta com palavras que não sabem se organizar direito, que se perdem de tão carregadas que são.
Depois de um "eu te amo", depois de noites, dias, tardes vivenciando este amor, depois do seu homem descansar dentro de você durante diversos momentos, depois de ser preenchida, completada, de ser renovada nos seus desejos e renovar os desejos de alguem, nasce outro alguem. O nascimento não é apenas a saída de sua casa, mas é o nascimento de uma ídeia, da existência de um novo indivíduo em nossas vidas. O amor de um ser humano nunca foi tão grande e direcionado para algo tão minúsculo, tão microscópico. Meses se passam, e o tamanho do seu amor, cresce assim como o seu indivíduo dono do seu amor. A consumação do seu corpo se torna algo disponível para ele, pois ele é seu e você é dele, e uma troca mais justa não existe. Você vive para ele.
Nove, nove meses. Nove meses de novos movimentos dentro de você, de novas células sendo criadas, novas dores, e nove meses para se preparar para desmembrar aquilo que você ama, tira-lo de sua casa e dar-lhe uma nova casa. E aí, quando nasce, você percebe que agora, você é o útero.
E se desmembrar, é mais do que um motivo de existência.


Beijobeijo, Beatriz Barros.

Comentários

Bruno disse…
É o embrião de um novo pensamento.
De uma nova forma de se refletir.
De se criar...

Vamos consumar esse fato em comunhão!

Que seja doce!

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