sábado, 28 de fevereiro de 2009

Sobre a inconstância dos amores

O onibus vai passando pela avenida e eu vou dando 'Adeus' ao carnaval que passou.
Anjos e Diabos se encontram, se colocam duelando em diferentes pratos de uma mesma balança
Um ano não é feito de carnavais. É feito de feriados para a devoção religiosa, de 'dias do carteiros', de "Aulas normais na segunda-feira".
Criamos sonhos e ilusões durante 361 dias. Nossos sonhos viram metas, e nossas metas viram sucesso. Ou pior, viram utopia.
Mas nesses 4 dias que sobram tudo se converte. Não em menos pureza, mas é como se uma fadinha malvada viesse, é como se o Puck chegasse e fizesse 'plim', tudo que é cabeça vira corpo, e tudo que é corpo vira cabeça.
Daí os amores somem, se transformam, se renovam. Viram outros, deixam de existir... mas fica tudo lá em casa.
"Não tem problema por que essa marchinha já canta tudo que eu quero dizer."
"Não tem problema por que o maracatu grita o tambor do meu coração."
Então, quando tudo parece ser o mais tranquilo caos, minha cabeça quer voltar pro meu corpo e meu corpo pra minha cabeça. Desejos pra um lado, de um lado pra outro. Mas aquele pózinho da fadinha malvada não deixa. Agora minha cabeça é corpo e meu corpo é cabeça. Eu sou o dobro de mim e muito mais eu.
Perco todos os amores. E eles viram pó na quarta-feira de cinzas.
Mas com a chuva, que sempre acompanha o fim das festas, a cinza vira terra, a terra vira barro, o barro vira argila e a argila vira pote, vira jarro... Vira amor.
E eu sobrevivo à inconstância dos amores.

Bruno Lourenço

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Herói!

Há mais ou menos um mês atrás fui trabalhar numa loja. Era um lugar frio, meio monótono. Tinha um ar condicionado tipo daqueles do shopping, sabe? Aqueles que dão um friozinho na espinha?
Essa loja ficava quase todos os dias cheia de gente. Comprando, gastando dinheiro como loucos. E eu gostava de ver a variedade de pessoas que passavam por ali, era interessante. Advogados, médicos, donas de casa, servidores públicos, adolescentes, músicos... Muita gente. Mas eu só gostava quando a loja fechava. Aí sim, eu achava legal. O ar condicionado que dava um frio era desligado, podia-se ouvir música na sala da gerência e o salão de compras estava vazio. Um salão inteiro, vazio. E quando eu não tinha compromissos posteriores eu ficava lá, sentado num banco e observando aquele imenso salão. Ouvindo Alcione no rádio do chefe. Com calor. E foi durante um desses dias que apareceu o Victor. Ele era o filho do gerente, tinha cinco anos, e ficava o dia todo dentro do escritório jogando Homem-Aranha no Playstation 2 dele. Eu nunca havia falado com ele.
Ele se aproximou com um pouco de vergonha, sentou do meu lado e ficou olhando para onde eu estava olhando. Procurando por alguma coisa. Então, ele apontou para o próprio peito e perguntou:
- Você conhece?
Olhei para a camisa dele, e vi que ele estava apontando para o Homem-Aranha. Eu acho que sorri no momento, mas não me lembro de ter sorrido. Mas acho que sorri, e respondi que sim. E ele novamente continuou olhando o salão.
E assim passou um dois minutos. Então, ele se levantou e disse:
- Você é muito chato!
Tomei um susto. Sim, eu sou meio chato mesmo, mas ouvir isso de uma criança de cinco anos foi meio forte.
- Porque? - perguntei.
- Porque você não brinca comigo.
E continuou andando, sem me dar atenção. E parou no meio do salão, onde começou a brincar de Homem-Aranha, salvando as pessoas que existiam apenas em sua imaginação. Ele pulava, soltava teia, gritava e quando estava quase acabando com o inimigo, dizia: "Chegou seu fim, Fulano-de-Tal". Toda vez. Repetiu isso umas três vezes, até que me cansei e me levantei. Fui até o meio do salão e disse:
- Tudo bem, Homem-Aranha. Você nunca será páreo para mim. Sou o Dr. Octopus!
Nunca havia visto o olhar de uma criança brilhar tanto. E aquele brilho durou. Durou uns dois segundos, vai... pois no instante seguinte o olhar dele se transformou em justiça. Ele já havia voltado a se transformar no Homem-Aranha e agora estava lutando contra mim. Brincamos durante meia hora, e então, depois de ele ter dito umas seis vezes a frase "Chegou seu fim, Dr. Octopus", sentamos novamente no banco. Rindo. E cansados. Havia gostado muito de brincar dessa forma com o Victor. Ele era uma criança bem divertida. Me fazia rir.
- Victor, eu tenho que ir. - Eu disse e ele tomou um susto, olhando pra mim.
- Não. - ele disse.
- Tenho que ir, já está tarde e...
- Sua mãe vai brigar com você?
- Não... Talvez meu pai. - Desta vez eu lembro de ter sorrido.
Ele confirmou com a cabeça, e disse para eu esperar um pouco. Correu até o escritório, e voltou com uma folha de papel e uma caneta. Colocou a folha no banco, e rabiscou várias vezes a folha. E no final dela, com muita dificuldade, escreveu "Victor."
Me entregou a folha e disse:
- Tá escrito... Você agora é meu amigo. Você tem que ir embora, mas amanhã vai brincar de novo comigo. Não me decepcione. Victor.
Peguei a folha, dobrei e guardei dentro de minha carteira. A tenho até hoje.

Depois desse dia começamos a brincar sempre. Até o meu último dia na loja. Lutas árduas.
Mas o Homem-Aranha sempre vencia.


Renan Almeida.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Rafaela Rocha, um pouco mais Rafaela Rocha agora. Sem medo e morrendo de curiosidade.
Nossa vida começa quando não negamos mais nossos gostos, sonhos e cultura.
Olho para o passado e reconheço que nada foi tempo perdido ou saudade mal sentida, tendo em vista que cada partícula de mim é um fenótipo modificado pelo ambiente em que vivo ou vivi, ambiente esse formado por pessoas amadas e que amam, jasmins, sorrisos, abraços, calçadas apagadas, ônibus atrasados, metrôs que entram nos buracos, crianças sem pais, família felizes, cotonetes sujos. Toda pequena coisa se torna única, pela cera que saiu da minha orelha, pelas famílias que me fizeram pensar e repensar nas relações que construí ou devo reconstruir, pelo abandono injusto que não me deixa acomodar, os atrasos por conta do trânsito ou de um objeto não identificado na linha do metrô, atrasos fundamentais para que eu tivesse idéias mirabolantes sobre quando e como, pelos tropeções que provocaram o riso de mim sobre mim ao correr dos carros, os carros que passam por essas ruas de faixas gastas, cheias de carros e pessoas. Pessoas que amam e por isso me fizeram entender o que é ser amada e que melhor do que isso, só aprender a amar sem esperar a reciprocidade. Pessoas da rua, que me sorriram de graça, que me abraçaram de graça, que me fizeram entender a simplicidade que existe na beleza de uma jasmim, jasmim que acaba de cair na calçada, calçada que as pessoas pisam, calçada que testemunha o barulho dos carros, que forma meu ambiente e que acolhe a bela jasmim. Jasmim, que não perde suas cores NUNCA, mas as transforma com o tempo.

Que as cores que aprendi a enxergam nunca se percam, mas se transformem e procurem cada vez mais simplicidade em sua beleza dentro do seu tempo de existência infinita.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Vestibular.
Desço a rua para ir à casa do meu vizinho pegar os livros dele para estudar.
Ele passou na USP..
Eu preciso passar, eu quero passar.
Só que na UNESP.
Desço, desço, desço a rua correndo.
Chego lá, ele não tem como sair de casa.
Eu grito.
"IAN! JOGA OS LIVROS PELA JANELA!"
E então ele joga.

Os livros caem, um por um, eu vou pegando, e colocando eles no chão.
As pessoas na rua param, olham todos aqueles livros sendo jogados, de mão em mão, enquanto eu desejava que eles caíssem com todo o seu conteúdo em minha cabeça, direto em minha cabeça: ou para me matar e acabar logo com isso ou para eles se introduzirem de modo mais fácil, prático e rápido dentro de mim.
O Ian termina de jogar, e eu grito:
"Só vindo uma ajuda do céu para eu passar nisso!"

Um livro nunca pensou em voar, um livro nunca teve a ambição de voar. Mas eu, eu nunca quis tanto ser um livro como hoje de tarde. Eu nunca quis tanto saber tudo o que ele sabe e ser jogado no ar, flutuar em míseros segundos e depois relembrar da lei da gravidade e, cair. Que o oxigênio invadisse entre as minhas folhas, com liberdade total para circular dentro de mim, com total intimidade para tudo. Eu sinto tudo, sinto o ar, a força que me move, o meu corpo se queixando do frio da ventania que eu provoquei.

Corre, corre!
Desce a rua correndo, da um pulo e.. De repente. De repente o que era grande vira pequeno, e o que era pequeno vira nada. De repente você mergulha em um oceano onde só existe você e nuvens para flutuar.
Eu já estou lá em cima, e ver que liberdade é uma das palavras mais clichês do universo quando você sente que, abrir os braços não é o suficiente para se expandir o quanto você quer. Eu me sinto limitada por ser um ser humano. Eu vivo buscando o vôo, a minha expansão, até a hora que eu apagar, sumir do céu, do universo, cair.

Cair sem fim, cair dentro de um buraco negro pra não ouvir meu corpo se estatelando no chão e meu cérebro apagando. Mas aí eu penso, e desejo que o fim demorasse muito para chegar, pois ultimamente... Eu tenho tanto medo dele.
Eu tenho medo do que vai ser, a preparação me deixa nervosa, ansiosa. Eu penso tanta coisa, eu sinto falta de tanta coisa. Sinto falta de voar por outros meios, de voar com o torneado, de voar pra Recife.

A minha histeria é como um vício para mim, uma droga que se eu não consumi-la eu vou triturando a mim mesma bem devagar. Eu sinto a necessidade de gritar, para aliviar tudo isso.



Prazer, este é o meu grito.

Beatriz Barros