Herói!

Há mais ou menos um mês atrás fui trabalhar numa loja. Era um lugar frio, meio monótono. Tinha um ar condicionado tipo daqueles do shopping, sabe? Aqueles que dão um friozinho na espinha?
Essa loja ficava quase todos os dias cheia de gente. Comprando, gastando dinheiro como loucos. E eu gostava de ver a variedade de pessoas que passavam por ali, era interessante. Advogados, médicos, donas de casa, servidores públicos, adolescentes, músicos... Muita gente. Mas eu só gostava quando a loja fechava. Aí sim, eu achava legal. O ar condicionado que dava um frio era desligado, podia-se ouvir música na sala da gerência e o salão de compras estava vazio. Um salão inteiro, vazio. E quando eu não tinha compromissos posteriores eu ficava lá, sentado num banco e observando aquele imenso salão. Ouvindo Alcione no rádio do chefe. Com calor. E foi durante um desses dias que apareceu o Victor. Ele era o filho do gerente, tinha cinco anos, e ficava o dia todo dentro do escritório jogando Homem-Aranha no Playstation 2 dele. Eu nunca havia falado com ele.
Ele se aproximou com um pouco de vergonha, sentou do meu lado e ficou olhando para onde eu estava olhando. Procurando por alguma coisa. Então, ele apontou para o próprio peito e perguntou:
- Você conhece?
Olhei para a camisa dele, e vi que ele estava apontando para o Homem-Aranha. Eu acho que sorri no momento, mas não me lembro de ter sorrido. Mas acho que sorri, e respondi que sim. E ele novamente continuou olhando o salão.
E assim passou um dois minutos. Então, ele se levantou e disse:
- Você é muito chato!
Tomei um susto. Sim, eu sou meio chato mesmo, mas ouvir isso de uma criança de cinco anos foi meio forte.
- Porque? - perguntei.
- Porque você não brinca comigo.
E continuou andando, sem me dar atenção. E parou no meio do salão, onde começou a brincar de Homem-Aranha, salvando as pessoas que existiam apenas em sua imaginação. Ele pulava, soltava teia, gritava e quando estava quase acabando com o inimigo, dizia: "Chegou seu fim, Fulano-de-Tal". Toda vez. Repetiu isso umas três vezes, até que me cansei e me levantei. Fui até o meio do salão e disse:
- Tudo bem, Homem-Aranha. Você nunca será páreo para mim. Sou o Dr. Octopus!
Nunca havia visto o olhar de uma criança brilhar tanto. E aquele brilho durou. Durou uns dois segundos, vai... pois no instante seguinte o olhar dele se transformou em justiça. Ele já havia voltado a se transformar no Homem-Aranha e agora estava lutando contra mim. Brincamos durante meia hora, e então, depois de ele ter dito umas seis vezes a frase "Chegou seu fim, Dr. Octopus", sentamos novamente no banco. Rindo. E cansados. Havia gostado muito de brincar dessa forma com o Victor. Ele era uma criança bem divertida. Me fazia rir.
- Victor, eu tenho que ir. - Eu disse e ele tomou um susto, olhando pra mim.
- Não. - ele disse.
- Tenho que ir, já está tarde e...
- Sua mãe vai brigar com você?
- Não... Talvez meu pai. - Desta vez eu lembro de ter sorrido.
Ele confirmou com a cabeça, e disse para eu esperar um pouco. Correu até o escritório, e voltou com uma folha de papel e uma caneta. Colocou a folha no banco, e rabiscou várias vezes a folha. E no final dela, com muita dificuldade, escreveu "Victor."
Me entregou a folha e disse:
- Tá escrito... Você agora é meu amigo. Você tem que ir embora, mas amanhã vai brincar de novo comigo. Não me decepcione. Victor.
Peguei a folha, dobrei e guardei dentro de minha carteira. A tenho até hoje.

Depois desse dia começamos a brincar sempre. Até o meu último dia na loja. Lutas árduas.
Mas o Homem-Aranha sempre vencia.


Renan Almeida.

Comentários

Nat disse…
Lindo, lindo... tão sensível.

Postagens mais visitadas deste blog

Verão de 2005.

Curtíssima temporada do espetáculo "O Girador" no Teatro Pequeno Ato

2014: um primeiro balanço e o nosso fim de ano