Sobre a inconstância dos amores

O onibus vai passando pela avenida e eu vou dando 'Adeus' ao carnaval que passou.
Anjos e Diabos se encontram, se colocam duelando em diferentes pratos de uma mesma balança
Um ano não é feito de carnavais. É feito de feriados para a devoção religiosa, de 'dias do carteiros', de "Aulas normais na segunda-feira".
Criamos sonhos e ilusões durante 361 dias. Nossos sonhos viram metas, e nossas metas viram sucesso. Ou pior, viram utopia.
Mas nesses 4 dias que sobram tudo se converte. Não em menos pureza, mas é como se uma fadinha malvada viesse, é como se o Puck chegasse e fizesse 'plim', tudo que é cabeça vira corpo, e tudo que é corpo vira cabeça.
Daí os amores somem, se transformam, se renovam. Viram outros, deixam de existir... mas fica tudo lá em casa.
"Não tem problema por que essa marchinha já canta tudo que eu quero dizer."
"Não tem problema por que o maracatu grita o tambor do meu coração."
Então, quando tudo parece ser o mais tranquilo caos, minha cabeça quer voltar pro meu corpo e meu corpo pra minha cabeça. Desejos pra um lado, de um lado pra outro. Mas aquele pózinho da fadinha malvada não deixa. Agora minha cabeça é corpo e meu corpo é cabeça. Eu sou o dobro de mim e muito mais eu.
Perco todos os amores. E eles viram pó na quarta-feira de cinzas.
Mas com a chuva, que sempre acompanha o fim das festas, a cinza vira terra, a terra vira barro, o barro vira argila e a argila vira pote, vira jarro... Vira amor.
E eu sobrevivo à inconstância dos amores.

Bruno Lourenço

Comentários

Larissa Costa disse…
Adorei o texto!!

Nesses dias tudo se pode, tudo se permite...
Pena que a vida não é feita de momentos assim...

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