sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Vestibular.
Desço a rua para ir à casa do meu vizinho pegar os livros dele para estudar.
Ele passou na USP..
Eu preciso passar, eu quero passar.
Só que na UNESP.
Desço, desço, desço a rua correndo.
Chego lá, ele não tem como sair de casa.
Eu grito.
"IAN! JOGA OS LIVROS PELA JANELA!"
E então ele joga.

Os livros caem, um por um, eu vou pegando, e colocando eles no chão.
As pessoas na rua param, olham todos aqueles livros sendo jogados, de mão em mão, enquanto eu desejava que eles caíssem com todo o seu conteúdo em minha cabeça, direto em minha cabeça: ou para me matar e acabar logo com isso ou para eles se introduzirem de modo mais fácil, prático e rápido dentro de mim.
O Ian termina de jogar, e eu grito:
"Só vindo uma ajuda do céu para eu passar nisso!"

Um livro nunca pensou em voar, um livro nunca teve a ambição de voar. Mas eu, eu nunca quis tanto ser um livro como hoje de tarde. Eu nunca quis tanto saber tudo o que ele sabe e ser jogado no ar, flutuar em míseros segundos e depois relembrar da lei da gravidade e, cair. Que o oxigênio invadisse entre as minhas folhas, com liberdade total para circular dentro de mim, com total intimidade para tudo. Eu sinto tudo, sinto o ar, a força que me move, o meu corpo se queixando do frio da ventania que eu provoquei.

Corre, corre!
Desce a rua correndo, da um pulo e.. De repente. De repente o que era grande vira pequeno, e o que era pequeno vira nada. De repente você mergulha em um oceano onde só existe você e nuvens para flutuar.
Eu já estou lá em cima, e ver que liberdade é uma das palavras mais clichês do universo quando você sente que, abrir os braços não é o suficiente para se expandir o quanto você quer. Eu me sinto limitada por ser um ser humano. Eu vivo buscando o vôo, a minha expansão, até a hora que eu apagar, sumir do céu, do universo, cair.

Cair sem fim, cair dentro de um buraco negro pra não ouvir meu corpo se estatelando no chão e meu cérebro apagando. Mas aí eu penso, e desejo que o fim demorasse muito para chegar, pois ultimamente... Eu tenho tanto medo dele.
Eu tenho medo do que vai ser, a preparação me deixa nervosa, ansiosa. Eu penso tanta coisa, eu sinto falta de tanta coisa. Sinto falta de voar por outros meios, de voar com o torneado, de voar pra Recife.

A minha histeria é como um vício para mim, uma droga que se eu não consumi-la eu vou triturando a mim mesma bem devagar. Eu sinto a necessidade de gritar, para aliviar tudo isso.



Prazer, este é o meu grito.

Beatriz Barros

2 comentários:

Renan... disse...

Que belo texto. Incrível, Bia.

Núcleo de Direção disse...

Parece que uma trama se repete...

"Primavera", ainda faz sentido....

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