quinta-feira, 23 de abril de 2009

E nessa historia de dandandear no caminho dos que se diziam serem grandes, se foi perdido e esquecido, desaparecido, tomado o brincar.

Dessas folhas secas que brotaram do grande tronco, seco que agora está. Saíram sementes que poderiam ser replantadas, com ajuda, doações, adubos uma nova árvore poderia renascer, florescer.
Mas o vento soprou e levou as sementes, o adubo e as possíveis mãos que o moveriam isso tudo.
Agora, sem nada, nem por fora nem por dentro espero um dia que o vento* bata e faça o movimento de derrubada, levando tudo ao pó. Pra que toda essa secura, ao menos seja valida, sirva de adubo a quem não pode lhe servir.

... do percurso das coisas. Cada qual, deverá desejar serem árvores ou folhas ou flores ou sementes. Que se assim quiser seja essa metamorfose, nesse caminho que se pode escolher qual jardim pousar.

*(Não se esqueça de desejar, e se mexer muito pra que esse vento lhe note)
...
Divagações, piradas (talvez?) Éride Sousa

Finge.
Finge que é gente grande.
Finge que seu olhar é o mais belo.
Finge que mata e passa fome.
Finge que faz filho, vira herói.
Finge vai morrer.
Finge que voltou a viver.
Finge seu amor, que ele vai ser o mais verdadeiro.
Finge que não tem gente que não finge.
Finge que se esqueceu da morte.
Finge pra ser feliz.

Foto: Renan Rosa

Bruno Lourenço

terça-feira, 14 de abril de 2009

A Gravidade

É preciso ficar atento à gravidade dos fatos.
Não é tão grave assim.
Na verdade, é fundamental.
Só é preciso tomar um pouco de cuidado com o percurso. É preciso estar atento, pois as pessoas querem lhe passar a perna, enfiar-lhe uma bebedeira e te fazer perder o rumo.
Claro que as leis são necessárias, mas nos lembramos delas somente quando nos machucamos, caímos e choramos. A dor pode vir como uma descoberta em forma de maçã que bate na cabeça ou pode vir como decepção quando percebemos que perdemos nosso chão.
Quando percebemos que o nosso chão não é o mesmo dos outros.
Mas apesar de não lembrarmos a causa do nosso aterramento, essa causa sempre está lá.
Está na hora de rever as leis.
Estou ansioso em cair pra cima.

A gravidade... a gravidade...

Bruno Lourenço


segunda-feira, 13 de abril de 2009

Mês passado.
Na desmontagem do cenário da peça "Refugo", logo depois de uma das apresentações em Curitiba.
Eu pisei em um prego.
Dueu, dueu muito.
Eu gritei sem parar, e o restante do grupo me segurou, me deitou no chão, e falava para mim "calma, não grita!", só depois de um tempo, um homem que eu não conhecia conseguiu tirar aquilo de dentro de mim.
E então eu fiquei com uma pequena cicatriz fina e preta no meu pé.
Nos primeiros dias, duía muito.
Porém nos outros eu fui me acostumando. Aceitando aquela dor, me conformando com aquilo no meu pé. Acabou que depois de um tempo, não duia mais, apenas me incomodava.
Eu sentia uma angustia dentro de mim que não era normal, uma agonia daquela cicatriz não sarar, não melhorar ou, pelo menos, neutralizar a cor.
Hoje olhei pro meu pé. E eu começei a reparar. Vi que não era só uma cicatriz, peguei uma tesoura. Começei a me cortar. Me abrir, me fuçar.
Eu me cortava, delicadamente, mas me cortava. Mesmo sendo delicado, sendo gentil comigo mesma e respeitando os meus limites de espasmos de dor, era um corte. Um corte por uma busca, por uma resposta, por alguma coisa que eu não sabia se eu iria recebe-la no final como troco, mas era uma busca incontrolável pelo fim da minha agustia.
Eu me cavava, me rasgava, e continuava, sempre pensando que não iria doer tanto como no momento em que eu pisei no prego, porque aquela dor foi uma dor de pânico, de rejeição, de uma introdução nem um pouco bem vinda dentro de mim. E aí, eu encontrei.. O preto, a cicatriz, era um pedaço de prego.
A maior agonia, não foi ver aquilo dentro de mim todo esse tempo, e sim fora. Pensar que aquilo veio andando comigo, se movimentando, ganhando minha vida, durante tanto tempo e agora estava me encarando, olhando para mim. Foi a morte daquela angustia. A maior dor foi durante o tempo, a morte finalizou. Terminou com tudo, simplesmente chegou ao fim. A morte foi rápida, a morte é rápida. A finalização daquela introdução repentina, desleixada e grotesca. A cicatriz vai se reconstituir, só que agora da cor da minha pele. E eu vou ter ressíduos, a sujeira e o restante de metal que se instalou no meu pé, que mesmo com o imenso corte a dificuldade de retira-los é terrível. Porem o período que aquilo ficou dentro de mim, se instalou, não vai passar.
O meu pé doi, o meu pé dilata, e continua carregando o meu peso. Me levando para lá e para cá.
E de lá pra cá eu vou, pisando em pregos, eu sangro, me rasgo, e depois meu corpo naturalmente se reconstitui. Uma hora, eu talvez fique sem pé, ou sem mãos, sem braços, sem forças, sem meu corpo, sem minha vida, sem minha alma. Uma hora sei lá, eu sei lá, eu não sei! Eu posso tocar em uma tomada, ou cair de um penhasco, ou mesmo esbarrar em um estranho na rua. Eu posso respirar. Eu posso correr. Eu posso cair.

E que bom, que eu posso. Que bom que eu posso correr e cair e chorar e minha mãe passar a mão na minha cabeça e falar "Deixa eu beijar que passa". Que bom que eu posso me jogar de um penhasco e ter um rio lá embaixo, com peixes e meus amigos nadando em volta de mim. Que bom que eu esbarro em estranhos, olho em seus olhos e peço desculpa, e talvez pergunte "tá tudo bem? eu te machuquei?". Que bom que eu toco em tomadas para sentir a energia do corpo da terra. Que bom que eu arrisco.

E que bom que existem pregos.


Beatriz Barros

domingo, 5 de abril de 2009

Já percebeu que se você fechar os olhos dentro da sua casa, você consegue andar perfeitamente?
É como se você já tivesse decorado tudo que está a sua volta, não é uma questão de sensibilidade, e sim de convívio com uma matéria, com um objeto, é como se acostumar. A gente se acostuma com uma cadeira, com uma mesa, com livros ao nosso redor, assim como nos acostumamos a pisar no chão, á saber que temos um teto em cima de nós que não irá nos esmagar. A gente aprender a confiar em paredes para não sermos esmagados, aprendemos a confiar nas cadeiras para sermos segurados, e aprendemos a confiar nas facas para não sermos mortos. Eu confio em uma continuação do meu corpo, assim como confio nas palavras que eu falo, como confio nas pessoas que eu convivo e sei que elas escolhem muito bem as cadeiras para eu sentar.
A minha mãe comprou a mesa que existe na minha sala, a mesa é daquelas que cresce, que aumenta de tamanho quando mais pessoas chegam aqui em casa para comer conosco. A minha mãe escolheu uma mesa que aumenta porque a minha mãe gosta de coisas que aumentam, a minha mãe gosta de pessoas ao seu redor, ela gosta do calor. A minha mãe é carioca, eu acho que sente falta do sol que cresceu em cima dela, então ela trás as pessoas aqui em casa para elas serem novos sóis dela. Eu acho que eu sou o sol para minha mãe, eu e minha irmã e minha cadela, somos um grande sol, um conjunto de um sol enorme. E a mesa, nos junta, a mesa faz com que sejamos um sol em um momento só, fazendo a mesma coisa.
A mesa da minha sala fez com que eu aprendesse a andar mais para a direita do que para a esquerda para chegar ao corredor. A minha mãe colocou a mesa lá, para que a mesa tivesse a possibilidade de abrir e caber mais pessoas. Por toda a minha vida, eu tive que andar mais para a direita para chegar ao corredor e para caber mais pessoas. Por toda a minha vida, eu convivi e esperei por muitas pessoas. Por toda a minha vida, a temperatura da mesa da minha sala é mais quente do que a temperatura do meu quarto, ou mesmo do que a temperatura do meu banheiro. E eu fico esperando aquela temperatura alta sempre voltar a ser alta. E, eu sei que ela sempre volta.

Beatriz Barros.