segunda-feira, 13 de abril de 2009

Mês passado.
Na desmontagem do cenário da peça "Refugo", logo depois de uma das apresentações em Curitiba.
Eu pisei em um prego.
Dueu, dueu muito.
Eu gritei sem parar, e o restante do grupo me segurou, me deitou no chão, e falava para mim "calma, não grita!", só depois de um tempo, um homem que eu não conhecia conseguiu tirar aquilo de dentro de mim.
E então eu fiquei com uma pequena cicatriz fina e preta no meu pé.
Nos primeiros dias, duía muito.
Porém nos outros eu fui me acostumando. Aceitando aquela dor, me conformando com aquilo no meu pé. Acabou que depois de um tempo, não duia mais, apenas me incomodava.
Eu sentia uma angustia dentro de mim que não era normal, uma agonia daquela cicatriz não sarar, não melhorar ou, pelo menos, neutralizar a cor.
Hoje olhei pro meu pé. E eu começei a reparar. Vi que não era só uma cicatriz, peguei uma tesoura. Começei a me cortar. Me abrir, me fuçar.
Eu me cortava, delicadamente, mas me cortava. Mesmo sendo delicado, sendo gentil comigo mesma e respeitando os meus limites de espasmos de dor, era um corte. Um corte por uma busca, por uma resposta, por alguma coisa que eu não sabia se eu iria recebe-la no final como troco, mas era uma busca incontrolável pelo fim da minha agustia.
Eu me cavava, me rasgava, e continuava, sempre pensando que não iria doer tanto como no momento em que eu pisei no prego, porque aquela dor foi uma dor de pânico, de rejeição, de uma introdução nem um pouco bem vinda dentro de mim. E aí, eu encontrei.. O preto, a cicatriz, era um pedaço de prego.
A maior agonia, não foi ver aquilo dentro de mim todo esse tempo, e sim fora. Pensar que aquilo veio andando comigo, se movimentando, ganhando minha vida, durante tanto tempo e agora estava me encarando, olhando para mim. Foi a morte daquela angustia. A maior dor foi durante o tempo, a morte finalizou. Terminou com tudo, simplesmente chegou ao fim. A morte foi rápida, a morte é rápida. A finalização daquela introdução repentina, desleixada e grotesca. A cicatriz vai se reconstituir, só que agora da cor da minha pele. E eu vou ter ressíduos, a sujeira e o restante de metal que se instalou no meu pé, que mesmo com o imenso corte a dificuldade de retira-los é terrível. Porem o período que aquilo ficou dentro de mim, se instalou, não vai passar.
O meu pé doi, o meu pé dilata, e continua carregando o meu peso. Me levando para lá e para cá.
E de lá pra cá eu vou, pisando em pregos, eu sangro, me rasgo, e depois meu corpo naturalmente se reconstitui. Uma hora, eu talvez fique sem pé, ou sem mãos, sem braços, sem forças, sem meu corpo, sem minha vida, sem minha alma. Uma hora sei lá, eu sei lá, eu não sei! Eu posso tocar em uma tomada, ou cair de um penhasco, ou mesmo esbarrar em um estranho na rua. Eu posso respirar. Eu posso correr. Eu posso cair.

E que bom, que eu posso. Que bom que eu posso correr e cair e chorar e minha mãe passar a mão na minha cabeça e falar "Deixa eu beijar que passa". Que bom que eu posso me jogar de um penhasco e ter um rio lá embaixo, com peixes e meus amigos nadando em volta de mim. Que bom que eu esbarro em estranhos, olho em seus olhos e peço desculpa, e talvez pergunte "tá tudo bem? eu te machuquei?". Que bom que eu toco em tomadas para sentir a energia do corpo da terra. Que bom que eu arrisco.

E que bom que existem pregos.


Beatriz Barros

2 comentários:

Amauri Leite disse...

Bia mulher, eu já ouvi falar em criar bicho de pé, mas resíduo de pé é a primeira vez (risos) brincadeira, mas olha pensa pelo lado bom, não é só o Wolverine que tem capacidades de cura avançada, você já sabe onde não pisar na hora de desmontar o cenário e agora sabe que por mais que os pregos nos machuquem na vida eles são necessários, até porque quem não tem um amigo que é um "prego", um mala as vezes (risos)e nem por isso deixamos de gostar dos mesmos. Seriamos nós sadomasoquistas??? Deixa isso pra lá e no mais, sucesso pra vocês e mais sorte da próxima vez ok?

Merda!

Anônimo disse...

Quase Clarice Lispector.

Bjo

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