terça-feira, 30 de junho de 2009

A calma (um texto didático ou para se explicar que a tormenta pode começar a passar).

A calma (um texto didático ou para se explicar que a tormenta pode começar a passar).


Durante um tempo me preocupei em mostrar para demonstrar o como se faz. Eram inúmeras as minhas demonstrações de como se poderia fazer; fosse uma cena, elaborar uma dramaturgia, costurar um pano, agendar uma apresentação, conseguir um espaço para ensaio... Isso tudo me cansava o suficiente, ao ponto de no final sempre me sentir exposto. E acredito, que isso não me fazia bem. Tamanho era a força que eu fazia que o resultado sempre parecia ser menor do que minha exaustão. Mas, algo me pedia paciência. Uma paciência que a minha ansiedade pode ter sufocado. A todos que passaram por esses momentos comigo, tento “jurar” que, dentro do meu descontrole esbocei uma paciência. Chamei diversas expulsões de “aprendizado”. Tanto nos expulsou e tanto se expulsou de nós. Talvez, na honra do que pode ser uma generosa permanência, tantos nunca estiveram… E no meio do caminho alguém me coloca a seguinte questão:

“Estar certo ou estar feliz? O que você realmente deseja?”.

O Pequeno Teatro de Torneado me relembrou a necessidade de esperar. Esperar a hora e o momento de crianças amarem como adultos. E enquanto esperava, me rendi a uma zona de contaminação. Tentação também de ser infantil e viver preso dentro de uma fantasia. Tem hora que tudo isso vem com um tom amargo de; “o caminho para o ostracismo”.

Desde 2005, que só faço pensar nesse “projecto”. Os poucos momentos que saio dessa zona, alguém passa por mim e pergunta, o porque de acreditar em um coletivo tão novo? Não sei, eu sei que única coisa que isso me causa é a sensação de estar velho. E tenho 26 fresquinhos

Por várias vezes, já percebi uma série de julgamentos vindos de esguelha… Uma vez a Beatriz Barros, me narrou um depoimento de uma garota que disse algo sobre a minha pessoa… A garota disse que não continuaria a fazer teatro porque ela pensava no futuro dela e em seguida disse; “Olhe para o William…”.

A Beatriz sentiu a necessidade de me deixar por dentro do que sentia realmente aquela garota quando estava fora de mim. O máximo que eu pude fazer foi expulsá-la de vez do meu pequeno Universo. E julgamentos como esse, só passaram a ser aceitos por mim, se fossem vindos totalmente de fora. E muitos diziam estar dentro… Eu não acho incorreto a não compreensão dos que não vivem o momento, por isso se me acha tão errado fique a vontade em sair de mim. Foi aí que criei a ingênua teoria do abraço; ela é extensa, mas, acho que da para resumir como uma continha matemática de resultado infinito.

Mundo = Carência

Carência = X

Eu = 1

1 abraça 4

4 abraçam 16

16 abraçam 64… E por aí vai…

E tudo isso soma a regra de que se eu abraço alguém esse alguém não me abraça; porque o objetivo dessa conta é que no infinito todos estejam abraçados. E assim por diante, diante porque é necessário seguir. Seguir porque a história continua, mesmo que acabemos antes dela…

E nesse momento do Torneado eu faço a minha conta particular. Todo dia, antes de botar minha cabeça no travesseiro, preciso rever a conta e ter consciência de quem abraço e de quem me abraça… E que as subtrações existem... Estão por aí, ajudando nessa conta extensa e infinita mas em forma de soma.

Mayra Guanaes, Bruno Lourenço, Beatriz Barros e Rafaela Rocha são partes da minha calma… Me acalmaram me abraçando. Me abraçando com uma cena muito bem dirigida(Mayra), com duas canções emocionadas e bem compostas (Bruno), com a organização da estrutura de um grupo de teatro (Rafaela), com a organização e escuta das minha palavras (BeatrizBarros).

Essas quatro pessoas que um dia eu abracei e se necessário voltarei a abraçar, me retomam a necessidade de confiança. E a fé, de que sim, vale a pena acreditar em uma transformação.

E a prova concreta disso é de os que chegam, já me parecem tão necessários no meu amanhã. O que me faz agora argumentar, com a feliz certeza de que sim, eu tenho futuro, são essas possíveis possibilidades de abraços; Carol, Francesco, Éride, Renan, Fernando, Marina. Ainda posso contar os novos integrantes das Oficinas Permanentes, que já somam mais de dez.

Uma vez eu ouvi, uma série de frases, em uma dramaturgia de um dos mais belos espetáculos que vi nascer: “Oito”. O espetáculo foi construído por um coletivo de pessoas queridas, que formavam a turma 53 da Escola de Arte Dramática, que teve esse resultado coordenado por Juliana Jardim e Antonio Janozeli.

“Oito”, tinha uma dramaturgia tão frágil. E diferente da fragilidade não poderia deixar de ser. Eles escavavam possibilidades de relações, que na minha opinião iam para além das pessoas e caiam num buraco negro que chamamos de: “Tempo”. E uma bonita briga era criada entre o “Homem e o Tempo”, que se abraçavam. E as oito vezes que assisti ao espetáculo me senti abraçado e com uma urgência de abraçar. E até hoje, ouço e sinto o pulso desses artistas me abraçando e como num sussurro me passando aquela missão de passar o abraço adiante…

Mais contas;

Oito(atores) - divididos por dois diretores – igual a quatro – e quatro já é o suficiente para se fazer um abraçador.

Abre a porta, posso entrar?

Eu não vou lhe machucar.

Eu queria te abraçar, por dentro.

Ta combinado, nós vamos brincar separados.

“Oito”, não foi o que tinha de ser, porque ainda está sendo… E apenas hoje, quase três anos depois, compreendo o quanto me fez bem aceitar aquele abraço. E a necessidade de o homem não fazer do tempo o seu inimigo. Tudo está tão aí, para acontecer…

O Torneado para mim não é um evento isolado do mundo. Fazemos o que o mundo faz. A arte deve explodir num excesso de sensibilidade, porque em algum lugar isso falta e por isso esse excesso teria de acontecer e o Torneado é apenas um meio.

E para agradecer tudo isso gostaria de dizer uma palavra que sempre tenho o receio de pronunciar;

DEUS


Por William Costa Lima

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Acabei de chegar de viagem, estava com minha família.

Sempre quando eu olho pra certas pessoas nesse mundo eu me reconheço.
Chego à casa da minha tia, sinto um cheiro diferente, o cheiro dela.
Olho pra ela, olho pra fotos de trinta anos atrás, me olho no espelho e vejo a foto de trinta anos.
Olho-me no espelho, escuto histórias paralelamente.
"Lembra quando morávamos lá em botafogo? E quando a mãe levava a gente no posto seis pra tomar banho de mar?"
Olho pra minha mãe é reconheço ela.
Consigo compreendê-la melhor.
Vejo os erros que cometeu ao longo da sua vida.
Eu tenho vontade de chorar quando vejo o que a minha mãe fez de errado. Ela é um dos seres humanos mais incríveis. Vejo a carga histórica da minha família e vejo os caminhos que cada um deles seguiu.
Vejo-os no meu sangue, nas manias, nos traços, no meu tom de voz. E me sinto parte de algo.
E sempre penso em não ficar mal pelos erros, não exatamente pelos erros porque não sei ainda classificar o que é certo ou o que é errado na existência humana. Mas sim pelo que machuca. Vejo que os meus parentes têm diversas cicatrizes em suas faces. E eu, jovem, me encontro com pequeninos cortes sobre o meu rosto. Mas eles consumiram os seus olhares em profundas e intensas cicatrizes, que parecem terem se eternizado, até a próxima alma que incorporar naquele local.
Andando pela praia com minha mãe, ela sorri.
Vejo como o mar faz falta para os pés dela.
Como ela sorri. Mãe, ta tudo bem?
Ta. Eu só tava com saudade daqui.

Seja feliz.
Volte para cá.
Eu vou crescer, vou me reproduzir, encontrar alguém para amar.
E aí você volta.
E ama o teu mar.

Eu só queria dizer isso pra ela.
Mãe, volta pro mar.

Mas eu não sei, porque eu não falei.
E talvez eu não fale. Talvez um dia, quando ela voltar, o mar vai melhorar as cicatrizes.
Eu sei que eu a quero bem.
Só que eu não posso supor a sua felicidade.

Mãe seja feliz. Eu te quero bem.
Eu repito isso, três vezes, dentro de mim, todos os dias.
Para que o meu sangue e a minha pele mostrem isso para ela, de alguma forma.

E mesmo eu sabendo que eu não posso mudar a história dela, ou mesmo que eu possa ter a mesma história que ela no final das contas, eu sempre me vejo nela. E esse momento de transição, do eu dela para o meu, quando eu saí dela eu deixei de ser ela e me tornei eu, foi algo que sempre volta pra dentro de mim. Minha mãe deveria voltar para o mar do rio de janeiro. Ela é mais ela lá. E eu às vezes deveria voltar pra dentro dela, pois eu complemento mais ela. Mãe, se a minha história não é a sua e se a sua história foi muito dolorosa, que eu tire a sua dor com o meu parto e traga um sorriso imenso ao teu rosto. E que a vida seja boa contigo.
Eu quero que o amor bata na minha porta e diga "oi, cheguei, ta com frio?". Quero tanta coisa, que a minha visão de jovem fica até embaçada de tanto querer. Eu espero. Uma hora a vida passa e trás o que eu quero e o que eu não quero. E assim eu vou me firmando, e dançando por aí. Quando eu vejo, eu já criei uma raiz tão grande que fica difícil de cortar. Faço um mar dentro de mim, e por ultimo eu volto pro mar.
E que o mar volte sempre em alguns momentos da minha vida, me leve e me traga de volta. Porque eu preciso de mar, de mães e de amores pra sobreviver aqui nessa terra.

Beatriz Barros.

Como falar sobre o amor?

Já tentei desenhos, textos, músicas. Já, até, tentei vive-lo e já tentei sonha-lo. Hoje eu busco uma outra forma de amar, que ainda não consigo lidar. Acho que desaprendi. Ou tentei esquecer.

O homem não é humano quando tenta ser completo. E a completude do homem vem com a sua “incompletude”, ou seja, o homem completo é aquele que se deixa ser incompleto. Então, o coração do homem incompleto sempre pede algo para se completar do que perdeu, para continuar incompleto.

E como fazer quando coração só se lembra de completar, e não de perder?

Pergunto isso, não como uma retórica, mas como uma forma de ficar mais tranqüilo com a resposta.

Descobrir-se um ser pensante – por mais ingênuo que seja – nos limita a muitos movimentos sentimentais. É que eu desaprendi. Desaprendi a tentar um movimento primitivo-amoroso com as pessoas. E esse coração tentativo, tenta encontrar uma nova forma delicada de lidar com o amor. Uma forma que não machuque na primeira tentativa, que pareça brincadeira de verdade e que, um pouco, massageie o nosso ego. Mas quando derrubado o muro, a tendência é de que a planta morra.

O amor se desacredita de si próprio, e a idealização de ideal passa a se tornar uma mera suposição. Daí se converge num movimento de amor às inversas. Apoiamos quem amamos, por que isso é só uma forma de nos amar também. Mesmo que doa, que toque o ciúme e que a tristeza assole ou que a solidão devore...

E a sensação de “ser pensante” dá um tediosa e odiosa sensação de ser um ‘porto seguro’.

“Estou aqui para quando a diversão acabar, o amor nascer e a vontade de construir uma casa aparecer”.

E isso machuca.

Eu só queria viver – ou tentar viver – uma tentativa de felicidade de constante. E não ensaiar para ela com as minhas travas e as travas que põem em mim.

Joyce - Juliana - Naiade - Bruna - Beatriz

De câncer, indo pra áries, passando por capricórnio e desembocando em aquário.

Bruno Lourenço – Um pouco constrangido

Novos desejos de realidade

Para Hanschen e Ernest

Você não pode fugir quando tem um filho. Meu sonho é ter um filho, mas eu ainda quero fugir. Os homens vivem essa constante provação. Os homens, quando ainda vivem uma espécia de ‘poesia primitiva’, se vêem necessitados da necessidade de ser pai. De deixar de fugir, e colocar um freio. E eu preciso colocar um freio, por que essa necessidade é primitiva. Sabe por que? Por que senão eu morro.

A sensação de viver a poesia, então, se esvai. Por que é decidida a sensação de lembrar-se dela.

Foi bom.

Fica!

Você esqueceu suas meias nos meus sapatos.

O movimento da vida já é frenético demais, e eu não tenho o direito de tentar continuar a bagunça-lo. Hoje eu não te amo mais. Por culpa sua, por culpa minha e por que todos os outros me fizeram te odiar. Eu concordei, você não disse nada, mas pareceu concordar também. O banho de mangueira ficou pra outro dia. Assim como nosso sorvete de morango, assim como nosso casamento no mesmo dia ou como nosso “roubo perfeito” em um banco qualquer. A todo tempo nós procuramos inventar nossa roda, descobrir nosso fogo, achar uma nova América, para daqui 200 anos um rosto conhecido ser estudado num livro de história.

(Esta parte eu pensei em cortar) Por mais que eu feche minha mala, eu sempre a abrirei novamente, num lugar novo. Para ali recomeçar e torcer para ali me eternizar.

É como a sensação de tosse presa. A sensação de espirro quando foge. O movimento primitivista propõe isso. Arrumar a bagunça, transformar amores em fotografias, retirar as tensões do corpo, cheirar alecrim... E, infelizmente, saber que algo se perdeu e vai ficar na lembrança.

E a lembrança, talvez, por sorte, fará com que vivamos algo novo, e tão puro como a lembrança. E como que por desafio, o tempo todo nós nos propomos a suscitar felicidades, para que possamos reviver no presente as lembranças, que no futuro, serão novos desejos de realidade.

Bruno Lourenço

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Conversa minha...

1: Onde você ta?
2: To sentado. Na porta de uma igreja.
1: Fazendo o que?
2: Sei lá... Pensando. Vendo.
1: Vendo o quê?
2: To vendo pessoas. Semáforos. Cores... Um carro de polícia passou na minha frente e os policiais nem me viram.
1: Não ficou com medo?
2: Não. Senti vontade de fazer xixi na porta da igreja.
1: Pra quê?
2: Sei lá... Pra ter alguém pra conversar.
1: Pra conversar com Deus?
2: Não. Com os policiais.
1: Você está conversando comigo.
2: E você não está aqui.
1: Quer que eu vá até aí?
2: Não. Já vou sair. Só vim aqui pra pensar.
1: E daí você vai pra onde?
2: Tem uma placa indicando o caminho...
1: De transito?
2: Da igreja.
1: Deu pra falar com Deus, é?
2: As vezes eu tento.
1: E o que acontece?
2: Bato com a cara na porta.
1: Me diz onde você tá. O que você vê daí?
2: Três homens vermelhos. Um sol verde. Uma constelação ao meu lado. Tem um Cometa passando. Uma cegonha também.
1: Você ta bem?
2: To na frente de Deus. Isso é bom?
1: Isso é uma tentativa de ser poético.
2: Isso é bom?
1: É uma tentativa...
2: To com frio. To com muito frio na mão e nos pés.
1: Pede pra entrar. Geralmente os padres abrigam quem tem frio.
2: To com vergonha. É madrugada de feriado. Deus também descansa.
1: É feriado de quê?
2: Não sei... Saí da escola faz pouco tempo, mas não lembro. To vendo um homem encapuzado.
1: Ladrão?
2: Não. Parece que ta perdido. Ta numa capa de chuva.
1: Ta chovendo aí?
2: Choveu agora pouco.
1: E o homem? Já foi?
2: Ta vindo.
1: Vai embora.
2: Não dá mais tempo. (Para o homem.) Oi. Não tenho. Boa noite.
1: Cigarro?
2: Não. Horas. To na frente da igreja, lembra?
1: É bonita essa igreja?
2: É, mas todo mundo esqueceu dela. Achei por acaso... Querendo um lugar pra sentar.
1: Banco?
2: Não. Qualquer lugar seco.
1: Não tem ninguém te esperando?
2: Tem. To preocupado.
1: Vai pra lá!
2: Preciso terminar uma coisa...
1: To te atrapalhando?
2: É que eu não sou muito bom em ser direto.
1: As vezes é ruim ser direto
2: E nessas eu deixo as pessoas esperando.
1: Entra! Ou vai embora!
2: Não posso só ficar?
1: E deixar os dois lados esperando?
2: E a minha espera?
1: Você faz esperar.
2: Eu também quero esperar. Quero me esperar. Mas parece que eu não chego nunca.
1: E é bom?
2: To com um pouco de medo, mas nada de mais. Coisa normal. De me assaltarem. De não me esperarem, sabe? Tem uns rostos estranhos me olhando aqui
1: Sai logo!
2: Mas eu não quero. To curioso. Preciso terminar.
1: E falta o quê?
2: Falar sobre amor.
1: É difícil...
2: Então eu espero mais um pouco...

Bruno Lourenço

terça-feira, 16 de junho de 2009

Eu nunca mais escrevi aqui. Eu passei um tempo dentro de um buraco tentando me apoiar em alguma coisa para sair.Agora penso que talvez seja mais fácil afofar minha grande bunda em todo esse caos e criar em cima dele.Até esse caos ir subindo, subindo, subindo e eu receber essa luz que vem do mundo exterior.Vocês vão desculpar todas essas minhas linhas tortas, porque hoje vou escrever.É uma época de escolhas. Todos vamos passar por isso.Hoje em dia uma das poucas coisas que eu tenho na vida é esse tal Pequeno Teatro de Torneado.E caralho, fazer teatro não é só isso, não é mais só isso depois que eu entrei pro grupo.Depois que firmamos um pacto. Hoje eu digo que faço teatro, porque o teatro como nós, torneadinhos, costumamos dizer, teatro é a reflexão do ser humano.Teatro me traz a reflexão sobre um mundo periférico que poderia passar despercebido por mim se eu não tivesse esse espaço para tais reflexões.
Soube que acabou a luz de um quarteirão todo e um teatro não apresentou suas peças.Sem energia elétrica, não há refletores penso eu. E talvez sem refletores não haja peça ou sei lá o quê.
Fiquei pensando o que eu iria fazer da vida se acabasse a luz? não haveria teatro em lugar nenhum?
Aí me apoiei nas tais reflexões. Nós iríamos continuar refletindo o ser humano. Descobriríamos outras fontes de iluminação.Estaríamos em outro tempo. Refletindo também.
E o teatro....vixe, esse aí tá muito além né.
Pensei que enquanto existir dois seres humanos o teatro existe.
Só precisamos de algo que reverbere no outro.
Temos esse algo. Dentro de nós mesmos.


Mayra

domingo, 14 de junho de 2009

"É necessário que enfiem uma faca dentro de mim para eu sentir o que é se derramar no mundo!
E para que eu sinta uma faca dentro de mim, é necessário um amor!
Um amor que faça eu morrer de amores por alguém!"
Um homem bêbado gritava.
Com suas vestes sendo perdidas pelas ruas a cada passo que ele dava, e a cada palavra, mais um dos seus últimos passos por este mundo se prolongavam e se estendiam, até ele mesmo não saber mais qual seria o seu último momento neste local, seu último passo nesta terra.
A questão é que não era só o grito de um homem bêbado que eu escutava, mas sim de milhões. Dezenas de homens e mulheres berravam. Aquilo ali parecia um nevoeiro de seres humanos perdidos e intensos, procurando e esperando algo chegar. A comemoração de uma passagem, ou mesmo a espera de um futuro que nunca chegaria. Para eles, o mundo girava em torno daquela atmosfera, harmonizada em todas as notas possíveis e impossíveis, causando uma polifonia assustadora.
No carnaval, o mundo esquece-se de chorar pela sua dor, e coloca uma máscara em todas as dores que ele tem, menos na dele. A dele ele esquece, deixa de lado.
Porque, no final, tem dor mais bonita que a da colombina e a do pierrot?
A minha máscara cheia de lantejoulas vermelhas caia sempre do meu rosto, toda hora. E quando isso acontecia, essas lantejoulas vermelhas se misturavam com as cores das outras lantejoulas, ou mesmo as cores das casas, das fantasias borradas, das músicas que ensurdeciam os meus ouvidos e que ao mesmo tempo, atraiam meu corpo. Eu também sentia o meu corpo soltando rios e rios de suor, e a minha roupa já estava tão encharcada que estava fácil se locomover, parecia não ter mais a presença de um peso em cima da minha carne, e que existia uma nudez sobre a minha pessoa que se tornara algo natural.
Uma hora, algum amigo gritava "Volta pra cá! Você ta muito longe da gente!", ou mesmo um "O vinho! Ta com você?!".
O engraçado é que eu não me lembrava direito o que estava comigo, ou mesmo onde eu estava. O tempo das coisas e das pessoas parece diferente, parece que ao mesmo tempo em que estão em harmonia, estão também totalmente diferentes uns dos outros. Somos grandes mundos que moram em um mundo só. E quando tocamos alguém, criamos um novo mundo. Parece uma equação matemática. Uma equação que envolve toque, suor, palavras de todos os gêneros e talvez beijos e abraços. Eu sei que eu me sentia dentro de um pulsante mundo naquele momento e que, ao mesmo tempo, eu estava procurando um mundo específico.
Cabelos de cobre. Se é que você me entende.
Você já viu fios de cobre? Não é que eles brilham, eles refletem a luz do ambiente e, quanto mais claro o ambiente, mais refletindo ele vai estar. Eu procurava alguém que refletia. Eu não sei se me refletia, ou se refletia o mundo em que eu estava, mas eu procurava os cabelos de cobre. É fácil encontrar alguém em uma multidão, quando você tem total certeza da presença daquela pessoa, quando você sabe que ela vai está lá e os seus olhos apenas a buscam.
Às vezes eu parava, e esperava. A lógica de esperar por ela é que uma hora, ela ia passar por aquele lugar onde eu parei e esperei, e então eu gritaria e chamaria seu nome. Mas parar era difícil quando o nevoeiro de seres humanos me empurrava, e me fazia continuar, eu também não sei até que ponto eu continuava a seguir naquele momento pelo empurrão dos outros, se a minha vontade era esperar e eu sempre ia contra a minha vontade, graças aos outros. Eu sei que foi difícil.
Em alguns momentos, o ritmo da música era mais forte que a minha vontade de procurar. Então eu esquecia um pouco de tudo e dançava, segurava na mão dos meus amigos e pulava e cantava alto, até subir ao céu e a gravidade devolver aquela força sobre o meu corpo. Era bom quando eu sabia a letra de uma das músicas, eu cantava tão feliz, alcançava a maior felicidade. Cantava para alguém, para algum dos meus amigos, ou até para mim mesmo. É bom esquecer, ser neutro em alguns quesitos e focar em apenas uma coisa e seguir, seguir com um pulsar. E a minha máscara seguia caindo..
Quando a música terminava, eu lembrava em olhar para os lados. Só que, em uma dessas olhadas.. de repente..
Em um fiasco de tempo, de segundo, eu vi os cabelos de cobre. E saí correndo, empurrando. Corre cotia na casa da tia. Corre para ver o amor passar, cantando coisas de amor. Eu corri até a distancia não ser mais distancia, até o tempo e o tamanho dilatar e eu focar, apenas nisso. Eu queria, desde o começo, os fios de cobre, e eu sabia que eu iria consegui-los, em algum momento. Eu sabia que eu iria passar por pessoas, por lugares, por mundos diferentes, ou mesmo iria usar máscaras vermelhas, máscaras azuis, máscaras grandes e pequenas que iriam cair do meu rosto, eu sabia que eu iria pisar em pregos, e sabia que tudo isso podia me cortar, me fazer chorar, sorrir, sonhar, e assim, tudo isso criaria a história da minha vida, até eu chegar... Até eu chegar e tocar nos fios de cobre.
Mas, parece que tudo isso, toda dor e sofrimento que eu passei, quando eu cheguei perto deles, se anularam.
E então, a luz que batia nas lantejoulas da minha máscara refletiu no cabelo. O cabelo refletiu na minha máscara. O sorriso refletiu na minha máscara. O meu sorriso refletiu no seu sorriso. O meu olhar refletiu no seu olhar. O meu "oi" refletiu no seu "oi". E, naquela noite, eu me lembro de ter sido feliz, só isso. Porque sim, tem algo maior, que liga uns aos outros, que liga um mundo ao outro. E talvez seja necessário passar por diversas noites de carnavais distintos, para encontrarmos nossos fios de cobre, que sejam difíceis de serem cortados. É necessário que seja. Que seja doce, amargo, apimentado, saboroso.... Que seja.

Beatriz Barros