Acabei de chegar de viagem, estava com minha família.

Sempre quando eu olho pra certas pessoas nesse mundo eu me reconheço.
Chego à casa da minha tia, sinto um cheiro diferente, o cheiro dela.
Olho pra ela, olho pra fotos de trinta anos atrás, me olho no espelho e vejo a foto de trinta anos.
Olho-me no espelho, escuto histórias paralelamente.
"Lembra quando morávamos lá em botafogo? E quando a mãe levava a gente no posto seis pra tomar banho de mar?"
Olho pra minha mãe é reconheço ela.
Consigo compreendê-la melhor.
Vejo os erros que cometeu ao longo da sua vida.
Eu tenho vontade de chorar quando vejo o que a minha mãe fez de errado. Ela é um dos seres humanos mais incríveis. Vejo a carga histórica da minha família e vejo os caminhos que cada um deles seguiu.
Vejo-os no meu sangue, nas manias, nos traços, no meu tom de voz. E me sinto parte de algo.
E sempre penso em não ficar mal pelos erros, não exatamente pelos erros porque não sei ainda classificar o que é certo ou o que é errado na existência humana. Mas sim pelo que machuca. Vejo que os meus parentes têm diversas cicatrizes em suas faces. E eu, jovem, me encontro com pequeninos cortes sobre o meu rosto. Mas eles consumiram os seus olhares em profundas e intensas cicatrizes, que parecem terem se eternizado, até a próxima alma que incorporar naquele local.
Andando pela praia com minha mãe, ela sorri.
Vejo como o mar faz falta para os pés dela.
Como ela sorri. Mãe, ta tudo bem?
Ta. Eu só tava com saudade daqui.

Seja feliz.
Volte para cá.
Eu vou crescer, vou me reproduzir, encontrar alguém para amar.
E aí você volta.
E ama o teu mar.

Eu só queria dizer isso pra ela.
Mãe, volta pro mar.

Mas eu não sei, porque eu não falei.
E talvez eu não fale. Talvez um dia, quando ela voltar, o mar vai melhorar as cicatrizes.
Eu sei que eu a quero bem.
Só que eu não posso supor a sua felicidade.

Mãe seja feliz. Eu te quero bem.
Eu repito isso, três vezes, dentro de mim, todos os dias.
Para que o meu sangue e a minha pele mostrem isso para ela, de alguma forma.

E mesmo eu sabendo que eu não posso mudar a história dela, ou mesmo que eu possa ter a mesma história que ela no final das contas, eu sempre me vejo nela. E esse momento de transição, do eu dela para o meu, quando eu saí dela eu deixei de ser ela e me tornei eu, foi algo que sempre volta pra dentro de mim. Minha mãe deveria voltar para o mar do rio de janeiro. Ela é mais ela lá. E eu às vezes deveria voltar pra dentro dela, pois eu complemento mais ela. Mãe, se a minha história não é a sua e se a sua história foi muito dolorosa, que eu tire a sua dor com o meu parto e traga um sorriso imenso ao teu rosto. E que a vida seja boa contigo.
Eu quero que o amor bata na minha porta e diga "oi, cheguei, ta com frio?". Quero tanta coisa, que a minha visão de jovem fica até embaçada de tanto querer. Eu espero. Uma hora a vida passa e trás o que eu quero e o que eu não quero. E assim eu vou me firmando, e dançando por aí. Quando eu vejo, eu já criei uma raiz tão grande que fica difícil de cortar. Faço um mar dentro de mim, e por ultimo eu volto pro mar.
E que o mar volte sempre em alguns momentos da minha vida, me leve e me traga de volta. Porque eu preciso de mar, de mães e de amores pra sobreviver aqui nessa terra.

Beatriz Barros.

Comentários

Rafaela Rocha disse…
Um dia também seremos mãe, e um dia aprenderemos que nem sempre os filhos precisam falar para que as mães entendam o que eles querem dizer.
Inara Vechina disse…
minha linda....
eu fico tão tocada e tão feliz com as tuas palavras.é como se fosse revela-se um segredo que só estava esperando a sua boca pra ser dito.você é linda.

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