A calma (um texto didático ou para se explicar que a tormenta pode começar a passar).

A calma (um texto didático ou para se explicar que a tormenta pode começar a passar).


Durante um tempo me preocupei em mostrar para demonstrar o como se faz. Eram inúmeras as minhas demonstrações de como se poderia fazer; fosse uma cena, elaborar uma dramaturgia, costurar um pano, agendar uma apresentação, conseguir um espaço para ensaio... Isso tudo me cansava o suficiente, ao ponto de no final sempre me sentir exposto. E acredito, que isso não me fazia bem. Tamanho era a força que eu fazia que o resultado sempre parecia ser menor do que minha exaustão. Mas, algo me pedia paciência. Uma paciência que a minha ansiedade pode ter sufocado. A todos que passaram por esses momentos comigo, tento “jurar” que, dentro do meu descontrole esbocei uma paciência. Chamei diversas expulsões de “aprendizado”. Tanto nos expulsou e tanto se expulsou de nós. Talvez, na honra do que pode ser uma generosa permanência, tantos nunca estiveram… E no meio do caminho alguém me coloca a seguinte questão:

“Estar certo ou estar feliz? O que você realmente deseja?”.

O Pequeno Teatro de Torneado me relembrou a necessidade de esperar. Esperar a hora e o momento de crianças amarem como adultos. E enquanto esperava, me rendi a uma zona de contaminação. Tentação também de ser infantil e viver preso dentro de uma fantasia. Tem hora que tudo isso vem com um tom amargo de; “o caminho para o ostracismo”.

Desde 2005, que só faço pensar nesse “projecto”. Os poucos momentos que saio dessa zona, alguém passa por mim e pergunta, o porque de acreditar em um coletivo tão novo? Não sei, eu sei que única coisa que isso me causa é a sensação de estar velho. E tenho 26 fresquinhos

Por várias vezes, já percebi uma série de julgamentos vindos de esguelha… Uma vez a Beatriz Barros, me narrou um depoimento de uma garota que disse algo sobre a minha pessoa… A garota disse que não continuaria a fazer teatro porque ela pensava no futuro dela e em seguida disse; “Olhe para o William…”.

A Beatriz sentiu a necessidade de me deixar por dentro do que sentia realmente aquela garota quando estava fora de mim. O máximo que eu pude fazer foi expulsá-la de vez do meu pequeno Universo. E julgamentos como esse, só passaram a ser aceitos por mim, se fossem vindos totalmente de fora. E muitos diziam estar dentro… Eu não acho incorreto a não compreensão dos que não vivem o momento, por isso se me acha tão errado fique a vontade em sair de mim. Foi aí que criei a ingênua teoria do abraço; ela é extensa, mas, acho que da para resumir como uma continha matemática de resultado infinito.

Mundo = Carência

Carência = X

Eu = 1

1 abraça 4

4 abraçam 16

16 abraçam 64… E por aí vai…

E tudo isso soma a regra de que se eu abraço alguém esse alguém não me abraça; porque o objetivo dessa conta é que no infinito todos estejam abraçados. E assim por diante, diante porque é necessário seguir. Seguir porque a história continua, mesmo que acabemos antes dela…

E nesse momento do Torneado eu faço a minha conta particular. Todo dia, antes de botar minha cabeça no travesseiro, preciso rever a conta e ter consciência de quem abraço e de quem me abraça… E que as subtrações existem... Estão por aí, ajudando nessa conta extensa e infinita mas em forma de soma.

Mayra Guanaes, Bruno Lourenço, Beatriz Barros e Rafaela Rocha são partes da minha calma… Me acalmaram me abraçando. Me abraçando com uma cena muito bem dirigida(Mayra), com duas canções emocionadas e bem compostas (Bruno), com a organização da estrutura de um grupo de teatro (Rafaela), com a organização e escuta das minha palavras (BeatrizBarros).

Essas quatro pessoas que um dia eu abracei e se necessário voltarei a abraçar, me retomam a necessidade de confiança. E a fé, de que sim, vale a pena acreditar em uma transformação.

E a prova concreta disso é de os que chegam, já me parecem tão necessários no meu amanhã. O que me faz agora argumentar, com a feliz certeza de que sim, eu tenho futuro, são essas possíveis possibilidades de abraços; Carol, Francesco, Éride, Renan, Fernando, Marina. Ainda posso contar os novos integrantes das Oficinas Permanentes, que já somam mais de dez.

Uma vez eu ouvi, uma série de frases, em uma dramaturgia de um dos mais belos espetáculos que vi nascer: “Oito”. O espetáculo foi construído por um coletivo de pessoas queridas, que formavam a turma 53 da Escola de Arte Dramática, que teve esse resultado coordenado por Juliana Jardim e Antonio Janozeli.

“Oito”, tinha uma dramaturgia tão frágil. E diferente da fragilidade não poderia deixar de ser. Eles escavavam possibilidades de relações, que na minha opinião iam para além das pessoas e caiam num buraco negro que chamamos de: “Tempo”. E uma bonita briga era criada entre o “Homem e o Tempo”, que se abraçavam. E as oito vezes que assisti ao espetáculo me senti abraçado e com uma urgência de abraçar. E até hoje, ouço e sinto o pulso desses artistas me abraçando e como num sussurro me passando aquela missão de passar o abraço adiante…

Mais contas;

Oito(atores) - divididos por dois diretores – igual a quatro – e quatro já é o suficiente para se fazer um abraçador.

Abre a porta, posso entrar?

Eu não vou lhe machucar.

Eu queria te abraçar, por dentro.

Ta combinado, nós vamos brincar separados.

“Oito”, não foi o que tinha de ser, porque ainda está sendo… E apenas hoje, quase três anos depois, compreendo o quanto me fez bem aceitar aquele abraço. E a necessidade de o homem não fazer do tempo o seu inimigo. Tudo está tão aí, para acontecer…

O Torneado para mim não é um evento isolado do mundo. Fazemos o que o mundo faz. A arte deve explodir num excesso de sensibilidade, porque em algum lugar isso falta e por isso esse excesso teria de acontecer e o Torneado é apenas um meio.

E para agradecer tudo isso gostaria de dizer uma palavra que sempre tenho o receio de pronunciar;

DEUS


Por William Costa Lima

Comentários

Beatriz Barros disse…
Como você mesmo me ensinou:
eu seguro na tua mão para que juntos possamos fazer o que eu não consigo fazer sozinha.

um beijo enorme em ti meu querido.

beatriz barros.
Rafaela Rocha disse…
Você tem que assumir, Abraço Grátis - Abrace Essa Causa, você é um dos membros mais assíduos e não sabe!
Hehehe...

Eu te amo, somos pilares um do outro, e é bom de mais não precisar ter planos B's pra caso a estrutura abale, o tempo nos fez rocha o suficiente para que possamos aterrar nossas raizes e soltar nossos frutos.

Te amo, te amo, te amo, te amo.
Obrigada, obrigada, obrigada, obrigada.
Mayra disse…
Os meus braços não se cansam de abraça-los, todos vocês.

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