domingo, 14 de junho de 2009

"É necessário que enfiem uma faca dentro de mim para eu sentir o que é se derramar no mundo!
E para que eu sinta uma faca dentro de mim, é necessário um amor!
Um amor que faça eu morrer de amores por alguém!"
Um homem bêbado gritava.
Com suas vestes sendo perdidas pelas ruas a cada passo que ele dava, e a cada palavra, mais um dos seus últimos passos por este mundo se prolongavam e se estendiam, até ele mesmo não saber mais qual seria o seu último momento neste local, seu último passo nesta terra.
A questão é que não era só o grito de um homem bêbado que eu escutava, mas sim de milhões. Dezenas de homens e mulheres berravam. Aquilo ali parecia um nevoeiro de seres humanos perdidos e intensos, procurando e esperando algo chegar. A comemoração de uma passagem, ou mesmo a espera de um futuro que nunca chegaria. Para eles, o mundo girava em torno daquela atmosfera, harmonizada em todas as notas possíveis e impossíveis, causando uma polifonia assustadora.
No carnaval, o mundo esquece-se de chorar pela sua dor, e coloca uma máscara em todas as dores que ele tem, menos na dele. A dele ele esquece, deixa de lado.
Porque, no final, tem dor mais bonita que a da colombina e a do pierrot?
A minha máscara cheia de lantejoulas vermelhas caia sempre do meu rosto, toda hora. E quando isso acontecia, essas lantejoulas vermelhas se misturavam com as cores das outras lantejoulas, ou mesmo as cores das casas, das fantasias borradas, das músicas que ensurdeciam os meus ouvidos e que ao mesmo tempo, atraiam meu corpo. Eu também sentia o meu corpo soltando rios e rios de suor, e a minha roupa já estava tão encharcada que estava fácil se locomover, parecia não ter mais a presença de um peso em cima da minha carne, e que existia uma nudez sobre a minha pessoa que se tornara algo natural.
Uma hora, algum amigo gritava "Volta pra cá! Você ta muito longe da gente!", ou mesmo um "O vinho! Ta com você?!".
O engraçado é que eu não me lembrava direito o que estava comigo, ou mesmo onde eu estava. O tempo das coisas e das pessoas parece diferente, parece que ao mesmo tempo em que estão em harmonia, estão também totalmente diferentes uns dos outros. Somos grandes mundos que moram em um mundo só. E quando tocamos alguém, criamos um novo mundo. Parece uma equação matemática. Uma equação que envolve toque, suor, palavras de todos os gêneros e talvez beijos e abraços. Eu sei que eu me sentia dentro de um pulsante mundo naquele momento e que, ao mesmo tempo, eu estava procurando um mundo específico.
Cabelos de cobre. Se é que você me entende.
Você já viu fios de cobre? Não é que eles brilham, eles refletem a luz do ambiente e, quanto mais claro o ambiente, mais refletindo ele vai estar. Eu procurava alguém que refletia. Eu não sei se me refletia, ou se refletia o mundo em que eu estava, mas eu procurava os cabelos de cobre. É fácil encontrar alguém em uma multidão, quando você tem total certeza da presença daquela pessoa, quando você sabe que ela vai está lá e os seus olhos apenas a buscam.
Às vezes eu parava, e esperava. A lógica de esperar por ela é que uma hora, ela ia passar por aquele lugar onde eu parei e esperei, e então eu gritaria e chamaria seu nome. Mas parar era difícil quando o nevoeiro de seres humanos me empurrava, e me fazia continuar, eu também não sei até que ponto eu continuava a seguir naquele momento pelo empurrão dos outros, se a minha vontade era esperar e eu sempre ia contra a minha vontade, graças aos outros. Eu sei que foi difícil.
Em alguns momentos, o ritmo da música era mais forte que a minha vontade de procurar. Então eu esquecia um pouco de tudo e dançava, segurava na mão dos meus amigos e pulava e cantava alto, até subir ao céu e a gravidade devolver aquela força sobre o meu corpo. Era bom quando eu sabia a letra de uma das músicas, eu cantava tão feliz, alcançava a maior felicidade. Cantava para alguém, para algum dos meus amigos, ou até para mim mesmo. É bom esquecer, ser neutro em alguns quesitos e focar em apenas uma coisa e seguir, seguir com um pulsar. E a minha máscara seguia caindo..
Quando a música terminava, eu lembrava em olhar para os lados. Só que, em uma dessas olhadas.. de repente..
Em um fiasco de tempo, de segundo, eu vi os cabelos de cobre. E saí correndo, empurrando. Corre cotia na casa da tia. Corre para ver o amor passar, cantando coisas de amor. Eu corri até a distancia não ser mais distancia, até o tempo e o tamanho dilatar e eu focar, apenas nisso. Eu queria, desde o começo, os fios de cobre, e eu sabia que eu iria consegui-los, em algum momento. Eu sabia que eu iria passar por pessoas, por lugares, por mundos diferentes, ou mesmo iria usar máscaras vermelhas, máscaras azuis, máscaras grandes e pequenas que iriam cair do meu rosto, eu sabia que eu iria pisar em pregos, e sabia que tudo isso podia me cortar, me fazer chorar, sorrir, sonhar, e assim, tudo isso criaria a história da minha vida, até eu chegar... Até eu chegar e tocar nos fios de cobre.
Mas, parece que tudo isso, toda dor e sofrimento que eu passei, quando eu cheguei perto deles, se anularam.
E então, a luz que batia nas lantejoulas da minha máscara refletiu no cabelo. O cabelo refletiu na minha máscara. O sorriso refletiu na minha máscara. O meu sorriso refletiu no seu sorriso. O meu olhar refletiu no seu olhar. O meu "oi" refletiu no seu "oi". E, naquela noite, eu me lembro de ter sido feliz, só isso. Porque sim, tem algo maior, que liga uns aos outros, que liga um mundo ao outro. E talvez seja necessário passar por diversas noites de carnavais distintos, para encontrarmos nossos fios de cobre, que sejam difíceis de serem cortados. É necessário que seja. Que seja doce, amargo, apimentado, saboroso.... Que seja.

Beatriz Barros

Um comentário:

Anônimo disse...

a tua força é a tua arte.

bjo " flor mais bela do carnavla do meu jardim."

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