segunda-feira, 27 de julho de 2009

Me acomodo no desejo de esperar
Vem flamaria, vem vidente
É clara a condição de se rasgar
É iminente a chegada do amor

Se subo ao topo... Desespero a me ver sorrir para vertigem
Sempre que posso me alerto algo sobre o perigo de cair
Assim que escuto dou indícios de uma surdez
É necessário romper o vício de uma voz

Do que me deu a distância além da vontade de medir?

Forte as pernas da mesa
Elegante o polar do sofá
Extremo o fundo da geladeira
E tudo delicadamente sobreposto a um piso docilmente apelidado de “Béginho”.

Aprisionado a fotos em movimento
E ainda sim, tudo se faz de tão sépia que parece me enganar
Eu sei de mim
Eu sempre sei algo sobre mim
Eu sempre acompanho novelas e seriados de época
Sei do o quão é vão e valente o risco de friccionar-se sobre um corpo
Sei que procurar a solidão também é serviço nulo e fugas

Ainda sei um pouco mais
E procurar entreter meu coração não me cabe a mim
Serviço sujo e vulgar é esse de tentar fazer arte da vida sem antes vivê-la
Não lhe prometo uma obra sem antes prometer uma desconstrução

Não farei um filme
Dispensarei vanguardas de possibilidades de cordéis
Nada que discuta a verossimilhança das mãos e das pegadas que possam causar
O estrangulo será real e possível
E ainda assim eu peço para realmente não se aproximar
Por favor, permaneça ao longe de qualquer abertura intangível de seu pequeno e sempre seu universo... para sempre seu universo...
Aprendi a me reconhecer na espera de coisas que nunca se alarmam
E por isso procuro amigavelmente me aproximar e dizê-las que nunca virão

Porque desde que me conheço por gente passei a conhecer também a iminente condição de se esperar para sempre e só

domingo, 26 de julho de 2009

Painho

Hoje passei na frente de um barbeiro.
Um daqueles que os homens vão fazer a barba.
É engraçado isso pra mim, na minha família, os homens se reúnem e vão juntos ao barbeiro em alguma data especial. Casamento, natal, aniversário, esse tipo de coisa.
E aí eles ficam felizes. Eu tenho uma dificuldade incrível de conceber o porquê dessa felicidade. Fui criada pela minha mãe, meu pai não foi muito presente na minha criação. Hoje em dia consigo olhar para ele com mais clareza, ver as suas atitudes com certo distanciamento consigo analisar o porquê de certos fatos, mas ainda com uma visão muito obscura.
O Torneado faz uma peça chamada "Dias de Campo Belo", é uma peça que fala sobre o universo masculino, as relações que os homens criam entre si. Pai, filho, irmão, primo, amigos. O mais engraçado é que, eu não consigo entrar em contato com o masculino de forma clara, parece que as coisas são sempre obscuras. Sinto uma dúvida, incontrolável. Eu tenho vontade de perguntar para o meu pai o porquê que ele machucou tanto as mulheres que estavam ao seu redor. Vontade de perguntar o porquê de tanta frieza junta, se ele me ama, porque ele sumiu durante tanto tempo, se ta tudo bem com ele, se ele não quer saber sobre minha vida, sobre meus namorados, sobre as músicas que eu estou cantando, será que meu pai tem vontade de me ver com mais freqüência? Ele tem raiva de mim? Eu também não sei se essas perguntas todo ser humano tem vontade de saber sobre as pessoas mais velhas, mas eu não paro de me perguntar: Porque ele não grita?
Eu não sei até que ponto passar uma navalha sobre sua carne para um homem, durante toda a sua vida, tira mais essa dor, essa vontade do berro. Parece que quanto mais passam uma navalha, menos a voz sai. E vai tudo ficando interno, e interno e interno. Eu sinto que quando eu me arrumo para esperar, eu, na minha condição de mulher que espera, tenho mais facilidade com esse estado de esperar. Mas meu pai ele parece não querer gritar, porque o grito dói mais do que sentir ele dentro de si. O alívio dói mais do que essa coisa de guardar.
Então ele vai guardando, e dentro dele cheios de gritos, ele vai ficando assim.
Uma vez o William perguntou para nós "Se você fosse fazer uma pergunta, pra quem você realmente a faria? algo que você deseja muito saber?". Eu digo que o mistério da minha vida é o meu pai. Eu não entendo. A minha vontade é sentar em uma mesa e perguntar diversas coisas. Esses dias encontrei uma foto dele, sentado, olhando a banda do irmão dele tocando. Eu comecei a chorar quando encontrei essa foto.
Meu pai com uma cara de apreciação, de quem gostava do estado que estava. Eu queria gostar do meu pai naquele estado, sereno, leve. Parece que sua angústia passou, e ele apreciava parado. Continuo tendo uma visão obscura, danificada pela falta de vivência e compreensão. Mas eu preciso dizer, o Dias de Campo Belo foi um estímulo para eu quebrar essa dor que eu sentia, essa mágoa, e tentar compreender, o porquê das coisas serem como são. Eu tenho uma carga histórica no meu corpo que eu não posso negá-la. Eu preciso entender, e com o tempo que passamos na terra, coisas vão acontecendo para você ter essa compreensão. Com certeza, O "Dias" foi o principal estímulo. Hoje consigo ver uma foto dele e chorar, e encarar de verdade suas feições e me perguntar o que estava acontecendo naquela época. E aí eu consigo pendurar o quadro dele na minha parede e olhar, apreciar, e sentir não apenas dor, mas que esse mistério seja encarado de forma verdadeira, que seja doce. Hoje consigo dizer isso para ele, um termo que eu aprendi com o Torneado, que eu só uso quando quero me referir ao meu sagrado ou falar sobre o sagrado de alguém, “Que seja doce”. Agora tenho calma, consigo ver um carnaval passando, ver dois amigos conversando sobre um rio, ver um pai ensinando o filho a trocar a fiação. Hoje vejo essas cenas e consigo me ver, lembro do meu pai me ensinando a dançar na sala, no ano novo de algum ano. Ele colocou um disco do Chico Buarque, me pegou no colo, e fico girando comigo, cantarolando Beatriz, eu prefiro me lembrar daquela dança hoje em dia, antes eu negava ela, mas agora é prazeroso pensar que eu tive momentos bons com ele, que eu tive algo mais concreto, melhor eu diria. Meu pai é um mistério para mim. E com o tempo deixa de ser, assim como é um mistério os homens da minha família juntos, irem fazer a barba.

Beatriz Barros

domingo, 19 de julho de 2009

Partindo ainda, daquela última improvisação.

Eu não estou aberta para negociações. Aqui dentro está sendo montado o espetáculo do meu coração e eu não vou trocar o protagonista. Não vou, por mais complicado, mais louco, mais insano, mais insólito que seja, não vou. Não se fazem mais artistas assim, em lugar nenhum. E eu demorei pra conseguir selecionar, foi um rigoroso teste de seleção e ele passou em todas as milhares de fases com boas notas. E hoje a nota de corte já está muito alta, ninguém é capaz de alcançá-lo. Até parece que tenho que subir montanhas para conseguir um beijo, fazer cara de doce para conseguir um abraço, mover mil neorônios para conseguir uma resposta. Pois é, eu faço escolhas dificeis e esse é mais um dia de ensaio do espetáculo do meu coração. É lindo, tudo lindo. Sei que ele vai chegar com uma cena linda, amarrada numa música que ele mesmo criou. Sei que haverão imagens lindas do começo ao fim, todas executadas com tranquilidade e segurança de mestre. Ao final de cada ensaio, beberemos Brahma, com a conta dividida. Não dá mais, daqui a pouco estamos estreando. Não vamos nos apegar em nomenclaturas, exercícios rasos. O tempo passa rápido né? Se as coisas fossem fáceis não teriam a menor graça. Eu aprendi a transformar. Se não dá pra ser, eu transformo. Só não quero ter que trocar o protagonista agora. Foram alguns anos trabalhando nisso. Sabe, como é. Ele chegou tomando conta do espaço, roubou a cena. Talvez tenha sido só mais alguma coisa que ele andou levando consigo sorrateiramente, como aquele livro. E quando é assim, desculpa, não dá. Não dou, não empresto, não troco o meu protagonista. Não desisto. E não adianta insistir. Eu não estou aberta para negociações.

Mayra

sábado, 18 de julho de 2009

Sobre a oficina do Pequeno Teatro de Torneado.

Estou há algum tempo para escrever sobre o que foi essa experiência no grupo.Pois bem. Estou no Torneado há três anos. E uma das coisas que lembro de ter planejado mais com o grupo era a ocupação de uma escola pública.Não é de hoje que temos o objetivo de ocupar um lugar e fazer desse lugar um espaço para a formação de público.Um espaço para que as pessoas conheçam o nosso trabalho e acima de tudo, se interessem por movimentos artísticos.Um espaço que sirva de ponte, onde o teatro finalmente, está ao alcance de todos.A ocupação no colégio Alves Cruz, no bairro do Sumaré, apareceu num momento em que estavámos saindo de várias crises.E ao adentrar aquele lugar, uma energia nova pareceu se incorporar ao grupo, uma energia que nos ajudou a continuar caminhando, com mais força.
Junto com a ocupação do grupo (Passamos a ensaiar na escola) veio a oficina. A príncipio era uma oficina apenas para os alunos da escola.Alunos estes que, já haviam iniciado um movimento teatral por lá.Sempre falamos de como o nosso grupo acolhe as pessoas. E dessa vez, eu me senti acolhida.E depois essas pessoas dessa escola, acolheram também outras pessoas que nós levamos para fazer a oficina.Eu queria falar do encontro. De pessoas tão diferentes. O torneado é um grupo onde todos são diferentes. Cada um veio de um lugar com uma essência.Sinto que naquela escola também é assim. E no último encontro antes das férias, estavámos em mais de dez pessoas. Todos com o mesmo objetivo, o teatro.
Eu queria dizer que foi fantástico esse tempo em que estivemos juntos. Muito do aprendizado do Torneado veio a partir da troca.E hoje eu vejo essa troca reverberando em outras trocas. E nada me deixa mais feliz.Saber que mesmo que demore, algumas portas se abrem para nós. Saber que nós abrimos a porta para o caos e conseguimos fazer dele, arte.Saber que tem pessoas incríveis ao nosso redor.E a essas pessoas eu só quero dizer, muito obrigada.
Que seja doce.

Mayra

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Eu só queria falar quê.

Eu tomei consciência da morte. Da minha morte. Um dia eu vou morrer e vou deixar esse mundo pra trás. Talvez eu nem saiba que eu esteja fazendo isso, talvez eu não entenda a passagem quando eu estiver passando. Eu resolvi não deixar tanto, as coisas para o depois, para o amanhã. Eu não sei quantos amanhãs ainda terei. Eu resolvi viver, eu resolvi amar. Entrar em cartaz, trabalhar, fazer uma faculdade, morar sozinha e amar. Não, eu já posso amar. Mesmo que eu ainda não tenha nada disso. Eu posso amar. A vida é isso que tá acontecendo, enquanto tô planejando tantas outras vidas. Até os meus 17 anos eu estive morta e depois eu acordei. Depois de alguns chutes na cara é possível acordar. E agora eu me permito. Eu me permito. Eu olho para o caos e digo, pode entrar seja bem vindo. Eu deixo qualquer pessoa entrar. Mas não pode ter medo de se jogar e rolar na lama. Meu coração é um latifúndio e há um grande espaço para todos Eu nunca deixei de ser aquela criança, toda esfolada, cheia de arranhões e machucados. Uma criança que ainda pulsa e pede carinho, mesmo assim. Ela não desiste. Depois de tanto tempo, ela ainda é capaz de fazer um truque em troca de uma esmola, daquele moço. Ela chora e olha nos olhos dele. Tio...olha pra mim, me dá atenção, me dá carinho. Me abraça também? Eu vivo paixões todos os dias. Todos os dias eu me apaixono por um novo alguém. E paixões vão embora com a mesma rapidez com que vêm. Mas o amor fica, e dizem que o único jeito de matar o amor é vivê-lo. Eu me permito viver o amor, mesmo que seja pra ele morrer daqui a pouquinho. Tudo bem, porque um dia eu também vou morrer e você também, todos nós. Me deixe sujar com esse amor. Eu quero morrer de amor.


Mayra