domingo, 26 de julho de 2009

Painho

Hoje passei na frente de um barbeiro.
Um daqueles que os homens vão fazer a barba.
É engraçado isso pra mim, na minha família, os homens se reúnem e vão juntos ao barbeiro em alguma data especial. Casamento, natal, aniversário, esse tipo de coisa.
E aí eles ficam felizes. Eu tenho uma dificuldade incrível de conceber o porquê dessa felicidade. Fui criada pela minha mãe, meu pai não foi muito presente na minha criação. Hoje em dia consigo olhar para ele com mais clareza, ver as suas atitudes com certo distanciamento consigo analisar o porquê de certos fatos, mas ainda com uma visão muito obscura.
O Torneado faz uma peça chamada "Dias de Campo Belo", é uma peça que fala sobre o universo masculino, as relações que os homens criam entre si. Pai, filho, irmão, primo, amigos. O mais engraçado é que, eu não consigo entrar em contato com o masculino de forma clara, parece que as coisas são sempre obscuras. Sinto uma dúvida, incontrolável. Eu tenho vontade de perguntar para o meu pai o porquê que ele machucou tanto as mulheres que estavam ao seu redor. Vontade de perguntar o porquê de tanta frieza junta, se ele me ama, porque ele sumiu durante tanto tempo, se ta tudo bem com ele, se ele não quer saber sobre minha vida, sobre meus namorados, sobre as músicas que eu estou cantando, será que meu pai tem vontade de me ver com mais freqüência? Ele tem raiva de mim? Eu também não sei se essas perguntas todo ser humano tem vontade de saber sobre as pessoas mais velhas, mas eu não paro de me perguntar: Porque ele não grita?
Eu não sei até que ponto passar uma navalha sobre sua carne para um homem, durante toda a sua vida, tira mais essa dor, essa vontade do berro. Parece que quanto mais passam uma navalha, menos a voz sai. E vai tudo ficando interno, e interno e interno. Eu sinto que quando eu me arrumo para esperar, eu, na minha condição de mulher que espera, tenho mais facilidade com esse estado de esperar. Mas meu pai ele parece não querer gritar, porque o grito dói mais do que sentir ele dentro de si. O alívio dói mais do que essa coisa de guardar.
Então ele vai guardando, e dentro dele cheios de gritos, ele vai ficando assim.
Uma vez o William perguntou para nós "Se você fosse fazer uma pergunta, pra quem você realmente a faria? algo que você deseja muito saber?". Eu digo que o mistério da minha vida é o meu pai. Eu não entendo. A minha vontade é sentar em uma mesa e perguntar diversas coisas. Esses dias encontrei uma foto dele, sentado, olhando a banda do irmão dele tocando. Eu comecei a chorar quando encontrei essa foto.
Meu pai com uma cara de apreciação, de quem gostava do estado que estava. Eu queria gostar do meu pai naquele estado, sereno, leve. Parece que sua angústia passou, e ele apreciava parado. Continuo tendo uma visão obscura, danificada pela falta de vivência e compreensão. Mas eu preciso dizer, o Dias de Campo Belo foi um estímulo para eu quebrar essa dor que eu sentia, essa mágoa, e tentar compreender, o porquê das coisas serem como são. Eu tenho uma carga histórica no meu corpo que eu não posso negá-la. Eu preciso entender, e com o tempo que passamos na terra, coisas vão acontecendo para você ter essa compreensão. Com certeza, O "Dias" foi o principal estímulo. Hoje consigo ver uma foto dele e chorar, e encarar de verdade suas feições e me perguntar o que estava acontecendo naquela época. E aí eu consigo pendurar o quadro dele na minha parede e olhar, apreciar, e sentir não apenas dor, mas que esse mistério seja encarado de forma verdadeira, que seja doce. Hoje consigo dizer isso para ele, um termo que eu aprendi com o Torneado, que eu só uso quando quero me referir ao meu sagrado ou falar sobre o sagrado de alguém, “Que seja doce”. Agora tenho calma, consigo ver um carnaval passando, ver dois amigos conversando sobre um rio, ver um pai ensinando o filho a trocar a fiação. Hoje vejo essas cenas e consigo me ver, lembro do meu pai me ensinando a dançar na sala, no ano novo de algum ano. Ele colocou um disco do Chico Buarque, me pegou no colo, e fico girando comigo, cantarolando Beatriz, eu prefiro me lembrar daquela dança hoje em dia, antes eu negava ela, mas agora é prazeroso pensar que eu tive momentos bons com ele, que eu tive algo mais concreto, melhor eu diria. Meu pai é um mistério para mim. E com o tempo deixa de ser, assim como é um mistério os homens da minha família juntos, irem fazer a barba.

Beatriz Barros

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