quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Monta, re-monta, desmonta, constrói, re-constrói, e por aí vamos.
Tenho percebido as mudanças que a minha casa faz ao longo dos anos. As mudanças que as pessoas, os móveis, o oxigênio, os animais, o externo faz sobre o interno. Existe um ciclo que as coisas seguem ao longo de um tempo. As mesmas coisas se repetem, acontece na mesma época. Existe também a possibilidade de um fator novo entrar neste ciclo, e assim ter seu ciclo próprio, seu tempo próprio dentro deste tempo.
Antigamente tinha um armário no meu banheiro. Esse armário, em certa época do ano (normalmente no final, nos meses de setembro e outubro) ficava cheio de cupim. Os cupins invadiam meu banheiro, e a prova concreta disto eram asas de cupim pelo chão do meu banheiro. Aquelas asinhas transparentes e finas, que em grande quantidade elas parecem pequenas folinhas de uma árvore minúscula. Eu gostava de girar no meu banheiro, porque assim, as asas seguiam a direção que o ar que o meu corpo mexia determinava, eu fazia as asas voarem. Depois de um tempo minha mãe tirou o armário do banheiro.
Antigamente minha mãe ficava olhando pela janela quando eu saia de casa, ela ficava observando se eu atravessava a rua corretamente, se nenhum carro iria me atropelar. Hoje em dia, minha mãe não fica mais me olhando pela janela. Quem fica é a minha cadela. Ela sobe no sofá que está encostado na parede e fica observando a rua, aquela movimentação toda, sendo que o vidro da janela já está formando marcas de respiração, na altura que a cadela alcança.
Antigamente os móveis eram distribuídos de outras formas pela minha casa. E mesmo sendo os mesmos móveis eu vejo eles em lugares novos e penso como eles são novos.
Percebo essas mudanças nos nossos espetáculos. Principalmente no "Primavera", com o passar do tempo percebemos como o "Primavera" é uma peça nova. Uma nova montagem. Novas pessoas (mesmo sabendo que pessoas antigas sempre estão presentes em diversos aspectos) sempre trazem o novo. Trazem a visão de um móvel de outro ponto de vista. Trazem outros olhares pelas janelas. Até mesmo quem ficou absorve mudanças. E são tantos fatores novos, antigos, transformados, reconstruídos e modificamos, que sim: a peça é outra.
"Três anos, como o tempo passa". O tempo passou. Fui me acostumando com minha cadela andando pela casa, a ponto de que hoje em dia, vou à casa de pessoas que eu não conheço e escuto o andar de quatro patas sobre um piso de madeira. E é uma junção de passado, presente e futuro no mesmo ritual, que somos capazes de nos encontrar quando tínhamos cinco anos e, ao mesmo tempo, quando eu tenho dezessete anos. Pois sendo um ciclo, de tudo fica um pouco.
Um dos assuntos que "O despertar da Primavera" fala é sobre os ciclos internos e ciclos externos, e como esses ciclos se juntam e se separam ao longo da vida. O meu começo pode ser o meio de um coletivo, e assim o meu fim definido pode ser o início de um fim para alguém (por exemplo, a última cena da peça). As personagens morrem, vivem, nascem e renascem ao longo disso tudo. E seguem caminhos dúbios, híbridos.
Fizemos pesquisas novas. Questões como gênero, escolas internas, a relação com o pai, a relação com a mãe, o toque humano na sociedade de hoje, e diversas outras coisas foram presentes nessas pesquisas. Imagens, sons, músicas, músicas internas e externas, objetos, vinhos, copos, mapas, energia. E eu me encontro perguntando sobre diversas questões como "até que ponto eu não sirvo de estímulo para o outro quando estou em cena? Até que ponto o meu masculino não é o masculino de outro? E o meu feminino não é estímulo de outro?". Analisamos não apenas os jovens de hoje em dia, mas o ser humano de hoje em dia. O que é a educação de hoje em dia? Não apenas para o adolescente, mas para a criança, para o velho, para nós. Educamos-nos cada dia que passa. Educamos nosso corpo, nossas mentes, nossos movimentos, cada segundo nos controlamos e nos mostramos coisas, também sofremos a educação dos outros. E o que é esse outro? O dever, o querer? O que é tudo isso, tanto para mim, para você, para nós?
Hibridez. É essa a palavra que eu vejo a peça que montamos. Vejo que o grupo não está mais buscando uma definição concreta. Somos movidos por perguntas, por estímulos. Queremos a complementação do outro por viés da troca. Trocamos entre nós mesmos e queremos trocar com o próximo. Trocamos textos, trocamos histórias, trocamos pactos. Trocamos a ponto de nos complementar, complementar um e complementar outro. E não se complementar também acaba sendo uma complementação.
Paramos,
Respiramos,
Olhamos nos olhos de uns,
Nos olhos dos outros,
E então falamos: vamos,
Que seja doce.

Tocamos no nosso pacto. "Eu seguro..". Acabamos sendo nove portos-seguros ambulantes em um palco. Pisamos no mesmo chão e sentimos que não estamos sozinhos no meio de tantas folhas secas. Porque tudo mudou e mesmo assim, continuo não me sentindo sozinha em casa. Porque eu vejo que não é só a minha casa que está presente. Aprendi a olhar pela janela, aprendi a mover um móvel, aprendi nesses últimos meses, que não estou sozinha. E mesmo algumas coisas machucando. Mesmo tocando em mim por dentro e sentindo algumas dores, “eu senti dor interna”, aprendi que a dor é um viés. A provocação interna, corporal, mental, é uma retirada da segurança. Mas mesmo assim: não estou sozinha.
Eu repito: de tudo fica um pouco.

Beatriz Barros

2 comentários:

Inara Vechina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Inara Vechina disse...

a casa, o corpo, o corpo da casa.o nosso templo, o sagrado, o eterno-tempo.tudo faz parte do que somos,do que nos tornamos.até os novos ciclos como vc disse, trazem as marcas do que ficou.e que bom que é assim.estou ansiosa por "Primavera".
um bjo meus amores.

Sobre o sentir e o dançar de um corpo gordo

Sempre achei estranha a vontade que eu tinha de dançar. Durante muito tempo, meu corpo ficou inerte. Fugia das aulas de educação física, ...