Sobre as Temporadas

Tudo foi - e nem por isso vai deixar de ser.
Quando eu olho para trás, eu tenho noção da quantidade de ruas, avenidas, becos, vielas, largos, praças e parques que passei para estar aqui. E quando olho para frente, tudo o que vejo, são mais logradouros que me esperam, sempre pedindo que eu tenha a disposição de deixar um pouco de mim por lá, para que eu leve um pouco deles também.

Os espetáculos do Torneado ainda conhecem poucas ruas, poucas praças e cidades, mas começam a carregar a curiosidade de instigar alguém. No ano de 2009, o nosso grupo fez coisas como viajar para fora do estado, apresentar mostras de repertório, ocupar artisticamente um espaço público, até cumprimos temporadas, até marcamos apresentações únicas, leituras de texto, projetos paralelos, oficinas, parcerias...
E hoje, num domingo que tinha tudo para ser triste nossa vara de luz não ficou de pé. Descobrimos que, enfim, estreamos por último o nosso primeiro espetáculo. E foi feliz. E foi lindo.

Depois de todo um fim de semana apresentando "Refugo" e "Dias de Campo Belo", o domingo de "Primavera" começou preocupante. Era a estréia do espetáculo em 2009 e com 4 substituições (metade do elenco). Apresentamos numa lona de circo - que ao meio dia era transformada numa sauna mambembe - e tivemos que rebolar para conseguirmos montar a estrutura do espetáculo. Mas a vara de iluminação não ficava pronta. As luzes não funcionavam e ela ficava feia, esticada daquele jeito. Toda desengonçada em cima de nossas frutas, malas, vinhos e folhas. Quando tudo parecia perdido e - perdoem-me a rima - fudido, as nossas luminárias ficaram como unica opção de luz, então fizemos o nosso espetáculo com aquilo que tinhamos: insegurança, medo, desamparo, mas muito (e bota muito) amor.

Me faltam palavras sensíveis para descrever tudo que sinto, mas se pudesse transformar meu sentimento e sensação em metáfora, seria algo como uma mistura de Bruno Lourenço, Fernando Pessoa e Galvão Bueno, em homenagem ao clássico "Corinthians" x "São Paulo", que os fanáticos por futebol do Torneado não puderam ver que terminou em 1x1. Ainda bem, por que o que menos precisávamos era de fogos de artificio durante a apresentação.

Antes de tudo, fizemos uma roda e eu percebi que o Torneado não é mais aquele grupinho de oito pessoas aonde um ou outro se destacavam. É um coletivo cada vez maior, com maior vontade de fazer e aonde cresceremos juntos, até onde der, para que possamos brincar de felicidade. Quando demos as mãos e senti isso, me veio uma vontade louca de chorar de alegria e medo, mas o público logo entraria, então chorei algumas poucas lágrimas para ficar mais fácil de limpar e começamos o espetáculo. E dessa vez foi mais dificil, por que nós oito precisávamos contar a história de 15, 30, 80... Não éramos mais oito jovens.
No orkut de uma amiga que passou pelo grupo eu li a frase "Porque há o direito ao grito. Então eu grito." da Clarice Lispector, daí eu tomei a liberdade de acrescentar um adendo que a nossa amiga escritora esqueceu de mencionar para o grito no coletivo. "Não que eu queira gritar sozinho. Mas há o direito ao grito. Então eu grito. Grito por mim e por alguém que também queira gritar...".

Para mim, o nosso cavalo tá voando, tá voando, tá voando... e ele vai despencar junto comigo no momento em que eu cair na cama.

Boa noite pessoal, e desculpem um texto mal-escrito pelo sono, mas esse momento precisava entrar para a história - nem que fosse em forma de post de blog.

Bruno Lourenço
Morrendo de sono, com bolhas no pé e folhas secas no cabelo

Comentários

Mayra disse…
Lindo. Mó orgulho de vocês.
Francesco Zappa disse…
drenalina cênica! rsrs! parabéns!
Anônimo disse…
Que alegria em ler isto!!!
SINTO SAUDADES DE VOCES !!!
O teatro e uma contaminacao nas visceras
( meu computador nao tem acentuacao brasileira)
mas tem outras acentuacoes!!!!!
amo o torneado...
Comecei a aprender algo muito importante com vcs ai, e que os perrengues que passei para me comunicar aqui fora do pais, completaram meu aprendizado..
Compartilho com voces:
Falar nao eh comunicar
comunicar nao eh dialogar..
o que toca eh o que junta essas tres oportunidades!
beijo saudades e muito amor, fe will, bruno, bea, rafinha may...fran e carol....brilhem brilhem
muito amor, aqui eh o outono...ai a primavera
Amor vocES

MArina...sem mais sinusite nem nada entupido....
Anônimo disse…
PS: Na belgica

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