domingo, 22 de novembro de 2009

Colaborações da crítica teatral Paulistana... Ou um olhar crítico sobre o crítico...

A Crítica Teatral Jornalística: Qual Seu Papel?

Michel Fernandes*, especial para o Jornal de Teatro (michel@aplausobrasil.com)

*Artigo escrito para a edição número 11 do Jornal de Teatro

Sábato Magaldi, crítico e pesquisador de teatro

Sábato Magaldi, crítico e pesquisador de teatro



Na edição número 8 do Jornal de Teatro

, o editor Rodrigoh Bueno, registrou em seu editorial um justificado espanto com a conversa de alguns críticos de teatro, que estavam na mesma van que ele, num determinado festival de teatro. Segundo Rodrigoh, tais críticos não gostaram do espetáculo que tinham visto, mas teriam de “pegar leve” em seus textos, pois o espetáculo levava a assinatura de um “figurão”.



Deprimente saber que a autocensura dos que não têm coragem para assumir suas posições frente a uma peça – por medo de desagradar a alguém cuja carreira é coroada por sucessos ou aos artistas que, em sua trajetória, compilaram um exército de amigos influentes – exista e seja mais praticada do que sonha nossa vã filosofia.

E, além dessa ideia equivocada e que atravanca a reflexão – absolutamente necessária – para os avanços estéticos de nosso teatro, há um grupo de pessoas que lidam, direta ou indiretamente com a crítica teatral, que abre concessões a espetáculos de iniciantes com a justificativa de que é preciso incentivá-los.

Em artigo de Sábato Magaldi lemos que a crítica comete muitos erros de avaliação, mas são equívocos necessários para propagar a reflexão acerca dos novos fenômenos teatrais, ponto que vai de acordo com as ideias da dramaturga Marici Salomão, de que a crítica é uma das bases da percepção, discussão e difusão de novos caminhos das artes cênicas.

Não quero com esse texto glorificar a atividade de crítico teatral, que exerço aqui no Aplauso Brasil, seria no mínimo pedante e pretensioso de minha parte, mas, antes, reconhecer a responsabilidade que carregamos ao assinar nossos artigos críticos e, por isso mesmo, nos entregarmos à dúvida, ao questionamento constante. Em lugar do autoritário “isso pode” e “isso não pode”, reconhecer que o teatro é território livre, em que quaisquer experimentações são possíveis e que, concordando ou discordando do fenômeno teatral que se critica, é necessário o embasamento teórico e de experiências, vividas ou apreendidas em leituras, para se tecer o texto que, aliás, nada deseja ser definitivo, mas, tão-somente, uma alavanca para a discussão sobre tal fenômeno, já que segundo diz o diretor inglês Peter Brook “o verdadeiro bom teatro só tem inicio ao cair do pano”.

É preciso refletir sobretudo, “o que é?” e “para quem é dirigida?” a crítica teatral. É preciso diferenciar a crítica teatral dos materiais de divulgação de um espetáculo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Sobre "Sinfonia de Sofhia"

Escrito em 2007, quando eu ainda cursava o núcleo de dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo André, sob coordenação do mestre Kil Abreu. A "Lição de Casa" era a seguinte; um texto, com as características de um drama moderno sem perder um certo traço de linearidade na trama.

O texto aborda o olhar de uma jovem atriz, vinda de Maceió, que tenta seguir carreira artística em São Paulo.

De todos os textos que escrevi e gostaria de montar pelo Torneado, talvez esse seja o que menos me empolgue. Mas, dependendo da recepção dos nossos artístas criadores tudo pode mudar, inclusive o texto!

"Sinfonia de Sofhia" será lido no Ciclo de dramaturgia da Gastão Tojeiro.

Segue as informações:






















A seguir um trecho dessa dramaturgia:

Na pensão.

Madalena: Parece feio, mas podia ser pior.

Sophia: Cê não sabe de onde eu venho. Lá que é feio demais.

Madalena: E eu sei.

Sophia: Pois conhece?

Madalena: E precisa conhecer, com uma cara feia dessa, cê só podia vir de um lugar feio. Susto com minha sinceridade, né? Tá desacostumada com gente como eu? Ó, eu não guardo nada não. É de câncer que eu não morro. E, se não gosta, que bote pra fora também. Nóis pega nosso desgosto, bota pra brigá e vê quem ganha. Que vida amarga eu não levo não! Cê gosta?

Sophia: De que, meu Deus?

Madalena: Fala Deus de novo que leva um soco na boca. Não por mim, mas, pra você. Se tem coisa que eu gosto de ensinar pra gente besta, que vem de longe, é que Deus não existe. Vive, menina! Tô ensinando uma coisa procê. O mundo é divido em dois. Os que mexe e os que não se mexe. Você se mexe?

Sophia: Sim.

Madalena: Pois então, o que não se mexe não te pertence.

Sophia: Olha, à primeira vista eu posso parece besta. Mas sou não, viu. Sou é ligeira, que igual não se vê por aí fácil não, viu. Por exemplo, acha eu sou trouxa de pagar o quanto cê tá pedindo por esse muquifo aqui, é?

Madalena: Conhece a cidade, vá procurar outra casa então...

Sophia: Quanto é uma diária?

Madalena: Melhor cê fechar uma semana.

Sophia: É que eu nem sei o quanto de tempo eu...

Madalena: Vá dormir, ô menina, amanhã nóis conversa disso.

Sophia: Escuta...

Madalena: Que é que foi?

Sophia: Como é que gente sincera fala boa noite?

Madalena: Seja bem vinda.

Sophia: Vou aprender muita coisa, viu. Tô disposta. Pode vim sem dó. Que eu já tô sabendo que tudo que vier, só vai me fazer crescer mais. Então, num tô com medo de nada não. Se vai dar, dá na cara. E, ó... Seu desgosto muito me cativa. Quero andar do ladinho dele, que assim ele não me machuca. Vim avisada! Que eu vou sofrê...Vixe! Já vim sabendo. Daí pra frente o que vier é lucro. E se um dia eu voltar, vou dizer: “mainha, mais tu que cuzona!”. E ó! Eu sou bem vinda. Que eu já cheguei resolvida. E hoje eu digo foi um prazer te conhecer, mas se amanhã eu passar direto por você sem lhe desejar bom dia é que cresci e aprendi a ser sincera como você. Mas, por enquanto: boa noite.

Madalena: Êta baianinha metida. (Sophia deita-se em sua cama, lê os seus escritos até amanhecer).

Sobre o "Menina de Louça".




Primeiro Cartaz da montagem(Setembro de 2006).



"Menina de Louça", pode ser considerada a primeira montagem do grupo, antes dela havíamos realizado apenas o exercício; “A incrível Saga” (mencionado no post anterior). “Menina de Louça”, trata da questão da Histeria adolescente e tem como pano de fundo a lenda urbana da “Loira do Banheiro”. Era um momento em que eu buscava o lugar da comunicação entre ao ator e o essencial para a cena. Essencial também, foi realizar o processo com a dispota e vibrante Heloisa Evelyn, na época com 12 anos e muita coragem.

A seguir um pouco mais sobre o espetáculo, através de fotos, imagens, depoimentos colhidos.


Programinha da temporada do CCSP(Maio de 2007).










































Foto do processo de montagem(Agosto de 2006).



























E agora olhar da fotógrafa Sylvia Sanchez para a nossa "Menina de Louça".





















































































Para finalizar um trecho da dramaturgia:

"Em um pote de iogurte plantei um feijão, que germinou em duas gramas de algodão. Parecia milagre, mas não era não. Era uma tarefa bastarda que qualquer estagiária do magistério sabe que funciona para distrair a mente de uma criança atormentada. Os seres humanos nascem, são amados, crescem e amam, reproduzem-se amando, e morrem sem entender o que é o amor..."

Torneado e essa história de uma Dramaturgia Autoral.

Quem acompanha nossa trajetória deve perceber que uma das questões que procuramos nos aprofundar é a da dramaturgia.

Eu particulamente, posso retratar o quanto tem sido importante o exercício de ter um coletivo disposto a tentar entender as minhas idéias através da busca de uma dramaturgia autoral.

Paralelo a isso, também nos preocupa a busca individual de cada um por essa dramaturgia autoral. “Responsabilizando” não na palavra “dramaturgia” e sim na palavra “autoral”, o lugar em que iremos expor o nosso caos. O sufixo “dramaturgia” acaba sendo só uma ferramenta de organização do espaço para autoria/caos. E assim, sempre que ensaiamos uma obra, por mais que seja um texto que estamos repetindo há três anos, não ensaiamos para saber executar a dramaturgia e sim para preencher de caos o espaço da autoria. E foi o que senti no final do último ensaio do “Primavera”, um caos vivo e leve (porque assim também pode ser).

Já não ensaiavamos mais para saber a obra e sim para a organizar a catástrofe. E esse é o lugar onde percebo que o meu jeito de escrever tem mudado. Na dramaturgia do Torneado, damos espaço para que a leitura das obras sejam através de zonas territorias. Espaços onde atores e público são testemunhas dessas implosões e o primordial; “Sempre ao VIVO”.

Tenho uma impressão muito pessoal mesmo… De que para o grupo avançar em sua pesquisa, é preciso que o coletivo me ajude a esgotar as possibilidades das obras que escrevi antes da formação do grupo, e isso será o tempo dos integrantes amadurecerem ainda mais. Algumas dessas obras já foram montadas pelo grupo ou estão sendo inclusas no material de pesquisa. Claro que paralelo a isso não pararemos de produzir nossa dramaturgia coletiva.

Conheça um pouco das peças que escrevi antes do grupo e que de uma certa maneira o coletivo tem me ajudado a exorcizá-las… E que venha o novo!

(Para que esse Post não fique sobrecarregado farei um post para cada texto).


William Costa Lima

sábado, 7 de novembro de 2009

Um silêncio lá de traz....

Como Bruno já mencionou no último post, estamos em um momento de revisão crítica do que somos. Ultimamente, em tantos momentos, me pego vivendo um passado onde falar em reuniões de produção, verbas, editais... era algo que eu não imaginava. Eu conseguia ser menos que um "jovem promissor", que um dia cismo de ver em um grupo de crianças a sua única oportunidade de se fazer um teatro mais livre do próprio teatro.

A seguir o cartaz, o programinha e fotos da primeira montagem de um exercício, em OITO de dezembro de 2005, quando ainda nos chamavamos por "Projeto Meu Olho -Meu Mundo". Esse exercício,mais tarde seria entendido como o sêmem da "Dramaturgia dos Moleques".













Cartaz da montagem.





























Parte interna do Programinha.






















Letícia Galla em cena como o prefeito.






A Mesma Letícia Galla Transmutada de Diabo.





















Todo o elenco nos movimentos de cenas coletivas.











































Parte da Dramaturgia contruída a doze mãos. (Crianças de 07 a 11 anos)







Esse pedacinho de terra que vocês vão adentrar agora, é um cantinho que vez ou outra é abandonado por alguns, e vocês vão ver que tem sempre uns que fica ou por teimosia, ou por esperança... Esperança de que? Num sei, a gente sempre tem uma esperança num é?! A única coisa que eu peço pro ceis, é cuidado ao entrar na casinha dos zoutro, pois se você num conhece bem o caminho você pode machucar o chão! Agora sejam todos bem vindos...








A Incrível Saga De um Povo Astuto que Cansou do Caloreio, Amiro pra Frente, Travesso o Poeirão, Perdeu Entes Queridos, Clamo pelo Divino, Xispo Coisas do Cão e chego lá nu Sum Paulo.

Velha: O sol do dia chega queima meu zóio. Queima porque eu sou é teimosa. Canso não de olhar por além do sol e querer enxergar uma bruta bacia de água. Que a qualquer horinha dessas, um Divino vai cisma de dó desse povo, que não cança não, de pedir pra o sol cessa um bucadinho. Me vai vira uma bruta bacia por riba dessa terra. E no deserto que só havia pó e tristeza, nessa terra que nada conseguia brotar, lá de cima uma estrela de dó chorou, sua lágrima foi tão pura que a terra decidiu brotar; “Uma linda flor para uma linda menina”.

Leinha: Vozinha, flor de pano não tem coração!

Velha: Entonce empresta o seu pra ela!

Leinha: Empresto é não! Eu preciso é dele para enxergar as coisa colorida da vida.

Velha: Pro ce enxergar as coisa colorida da vida menina, só é preciso que as coisa fique colorida, só isso.

Leinha: Ta bom vozinha, mais flor de pano eu quero não, eu quero é flor de planta.

As quatro Meninas: Leinha, Leinha, não se faça de rogada e me responda pro seu bem, o que falta no sertão que lá nu Sum Paulo tem?

Leinha: Onbulos de doise andare.

As quatro Meninas: Valdirézia, Valdirézia, não se faça de rogada e me responda pro seu bem, o que falta no sertão que lá nu Sum Paulo tem?

Valdirézia: Piscina com escorregadore.

As quatro Meninas: Ai que délicia! Jozeane, Jozeane, não se faça de rogada e me responda pro seu bem, o que falta no sertão que lá nu Sum Paulo tem?

Jozeane: Shoping Centere.

As quatro Meninas: Ai que délicia! Maciene, Maciene, não se faça de rogada e me responda pro seu bem, o que falta no sertão que lá nu Sum Paulo tem?

Maciene: Minino galego do zóio azul!

(Meninos entram jogando futebol de meia).

Jefison: Eta Maciene, que vestidinho hein! Deixa eu ver sua calcinha?!

Maciene: Ochê sai pra lá ô!

Vozinha: Olhe só, a miminada que é feliz!

Vizinha: São felize porque são criança, quero é vê quando crescer.

Vozinha: Leinha! Leinha! Venha cá minina, seu vestido já ficou pronto!

Leinha: Ah vozinha, que vestido mais cumprido!

Vozinha: Cumprido é nada, você já está fazendo quatorze anos.

Leinha: Viche Maria, se soubesse que teria de usar um vestido tão cumprido eu prefiria é ter doze mesmo.

Vozinha: Mas e vestido não é tão cumprido assim. Além do mais você já esta bem crescidinha para usar um vestido tão curto.

Leinha: Hoje em dia todo mundo usa! Deixe eu usar este, só mais um pouquinho? Só no calor. Ano que vem eu uso esse. Se usasse agora eu era capaz de tropeçar na barra.

Vozinha: O Leinha minha neta. Eu queria que você ficasse para sempre assim; minha menina. Vá use esse vestido mesmo, é melhor você aproveitar essas perna bonita, quem sabe o que vai ser do futuro...

Leinha: Quem sabe, talvez eu nem esteja mais aqui!

Vozinha: Cruiz credo! Não diga uma coisa dessas!

Leinha: Desculpe vozinha, mas eu não consigo evitar. É pecado pensar na morte?

Vozinha: Leinha! Leinha! Guarde seu vestido e fique com esse mesmo. Mas um dia desses eu ainda mando soltar a barra.

Leinha: Se é assim eu preferia é ter vinte anos!

Vozinha: Põe um casaquinho que você vai acabar passando frio e apanhando um resfriado.

Leinha: Ochê ta um calor insuportável, e além do mais, nos jovens não sentimos frio, muito menos nas pernas.

Vozinha: A minina sambanga, ce ta precisando é dum saculejo. (A vozinha e a menina saem correndo).

Vizinha 1: É cada uma esse mundo ta é perdido.

Vizinha 2: A culpa é dos pai, que dexa as minina sorta feito Passarim.

Vizinha 3: Dexe só quando o Passarim traze ovinho pro ninho, deixe só.

Jonatan: O cartero chego.

Etricio: E dessa veize num veio só beber café não, e ta Cuma carta na mão!

Denílson: Foi sim que eu vi, foi!

Vizinha1: Deve ser notícia de morte.

Vizinha2 : O entonce o fio do Zé Vilino apronto de novo!

Vizinha3 : Vai ver é a justiça que chego aqui, pra tira todo povo que num tem maise o que fazer da vida.

Vizinha1: Anunce cuida da vida alheia.

Vizinha2: Olhe que gentinha assim, aqui tem é muito, visse!

Carteiro: Aqui tem um povo curioso! Metido! Gente que ser aquilo que num é, gente que come Lambari seco e arrota caviare, ces me entendem né? Caviare, tipo assim aquela comida chique.

Vizinha 2: Tipo assim, já falando feito doutore, é?!

Vizinha 1: Hum, mai ta é chique hein bichinho!

Vizinha 3: Carta, pra quem?

Carteiro: Só lhe digo uma coisa, pra vocês é que num é, tão sasisfeita! E corra menino, vá chamar dona Liliana, e diga que chego carta de Sum Paulo pra ela.

Jonatan: Carta para dona Liliana? Pô deixa que eu aviso. Dona Liliana! Dona Liliana! Carta para senhora.

Carteiro: Aqui é desde pequeno que as pessoa esquece o que é ser discreto.

Vizinha1: E vai dizer que nem uma bizoiadinha você num deu?

Carteiro: Minha profissão é apenas entregar minha senhora, e o resto não me diz respeito, passar bem minhas senhoras.

Vizinha 2: Pois se eu fosse você, pelo menos uma conferida no conteúdo eu dava. Vai que é notícia ruim, assim dá tempo de preparar o coração da coitada!

Vizinha 3: Deixa pra lá! Não é todo mundo que pensa como noise. Por isso que eu nem me meto, depois a fama de ruim fica é pra nóise.

Leinha: Acode! Acode minha gente, que vozinha ta feito fantasma!

Denílson: Foi só abrir a carta, que a muié parece que teve o coração parado, sento numa bancadinha e paro inté de respirar.

Carteiro: Segura a muié, que seu coração ta feito coração de boi ferido, e pra fazer uma besteira da vida não custa nada.

Vizinha 3: Que se passa contigo muié?

Valdirézia: Foi só ler a carta que na horinha mesmo ele infezou. Balançou a cabeça dizendo que não e soco o papel goela abaixo!

Vizinha 2: A carta, num falei que tinha coisa ruim.

Leinha: Vozinha se acalme, isso não vai levar a nada.

Vozinha: Leinha, minha neta, onde é que ta o seu coração?

Leinha: Ta aqui mais você, batendo forte e firme.

Vozinha: E o meu coração?

Leinha: Ta mais forte do que nunca?

Vozinha: E o de sua mãe?

Leinha: Ta lá mais ela, esperando a hora de abraçar a gente.

Vozinha: Ta mais não Leinha! Coração de sua mãe salto pra fora, e agora ele voa disparado, e nunca mais ninguém abraça ele.

Carteiro: Cuidado pra não assustar a menina!

Leinha: Não se faça de rogada vozinha! Fale e fale bem.

Vozinha: Foi a correnteza que não era de um rio não. Pois o que por aqui falta, lá foi capaz de achatar sua mãinha. O pequeno barraco que dava teto pra sua mãe mais sua irmã, não resistiu a tanta água e se desfez. O coração de sua mãe saltou e o de sua irmã agoniza num leito, chamando o resto daquilo que costumamos chamar de família.

Leinha: Não!

Musica:
Abre o espaço lá na terra.
Deixa a moça rosa entrar.
Se não tem a formosura, põe a rosa no lugar.

Do outro lado da cena surge o Prefeito falando num megafone.

Prefeito: Venham! Venham todos, que eu tenho algo de muito importante pra dizer pro cêis!

Jhonatan: Vamo lá minha gente, o Prefeito vai falar.

Magda: O Prefeito vai falar! O Prefeito vai falar minha gente.

Valdirézia: Bora minha gente pro outro lado!

Jozeane: Vamo minha se levanta!

Todos: Deixe de moleza meu povo, simbora!

Anunciou a banda que o Prefeito vai falar.
Subiu lá no palanque blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá.
Simbora vem meu povo que o homi vai falar.
Mai teja preparado é blá-blá-blá e blá-blá-blá.

Prefeito: Meu povo, e minha póva...

Vizinha 2: Mais o que é isso? É assombração ou esse figura que se apresenta hoje aqui, é mesmo o senhor prefeito?! Quanto tempo num é meu povo!

Povo:É!

Prefeito: Estava muito ocupado, tomano parte dos pobrema do povo.

Vizinhas: To sabeno! To sabeno!

Prefeito: Vocês vem com as cobrança e eu venho com as resposta, conforme o prometido estou aqui para cumprir. Trouxe aqui ao zóio de vocês, o caminho dos progresso, dos acessos, dos percurssirios, da prosperidade. E que venha a revolução!(Entra a secretária vestida de modo sensual todos começam a assoviar e se exaltam).

Secretária: Eu só vim avisar que ta chegando.

Prefeito: O minha fofa.

Vizinha 3: Minha Fofa?! Que discarado!

Secretária: Olhe lá Prefeito, é ele que vem, vixe como é grande. (O ônibus vem se aproximando, barulhos de tambores durante a fala do Prefeito).

Prefeito: Atenção passageiros, rumo a prosperidade, esse ônbulos tem como destino a capital de Sum Paulo, Sum Paulo!( O Povo se exalta: Bravo! Formidável! Extraordinário! Viva O Prefeito!).

Prefeito: Mas como para tudo na vida é necessário estar pronto. Pois então venho cá perguntar quem aqui se sente pronto pra embarcar nessa saga rumo a modernidade.(O povo novamente se exalta: Eu aqui! Eu quero ir! Deixe eu, deixe eu!).

Prefeito: Da boca pra fora é fácil... Mas, pra evitar a mentira, eu tive a feliz sina de ter no meu caminho uma máquina da verdade.

Vizinha1: Máquina da verdade?!

Prefeito: É isso mesmo inventadinha por eu mesmo, capaz de saber se o cabra que estiver se apresentando, vai ta falando a verdade ou não! E sendo assim dará o veredicto se o cabra merece ou não partir rumo a essa saga. Ah! E já ia me esquecendo, a bichinha aqui tem um pacto com o Coisa Ruim, por isso o Calango que ousa agir de má fé, vai ter passagem garantida, mas só que no ônbulos que faz terminal nos quinto dos Inferno! Alguém disposto a começar?! Bem, mas antes eu precisarei de alguém para vestir a bichinha. Ah, ela ainda não foi testada, por isso se der algum problema de ante mão já está avisado. Ninguém arrisca? O povo gosta é de pedir, na hora de buta a mão na massa.

Secretária: Está bem meu povo, eu arriscarei minha vida em nome dessa missão; “Ó destino cruel!”

Povo: Vai! Vai! Vai! Vai! Vai! Vai! Vai! Vaiiii UH! UH! UH! Ôooooooooo!

Prefeito: Primeiro candidato!

Vizinha2: Pois vou me eu, que não tenho o que temer. Eu que da bondade faço minha sina, e na caridade do meu senhor vivo sem pecar!

Máquina: Pi, pi, pi, pi...

Vizinha: Oche mais eu nem comecei!

Prefeito: Falei que a bichinha era infalível, só de você chegar perto ela sentiu seu sangue ruim. Agora passa daí , vá!

Povo: Sai daí! Sua fofoqueira! Sua cobra! Coisa Ruim!

Vizinha 2: Essa máquina deve ta é defeitosa!

Prefeito: Chegue de ladainha mulher e não atrapalhe nossa missão com esse seu veneno! Vamo quem é o próximo?

Etrício: Pode ser eu?

Vizinha 3: Mas você é só um menino!

Etrício: Mas meninos também sonham, e eu tenho algo muito importante que faz com que eu mereça partir com esse ônibus.

Vizinha 1: Importante, vê se te acha menino!

Denílson: Deixe meu irmão falar. E o que tive de ser, será!

Prefeito: Pois falo feito gente grande, e por isso seu irmão ganha o direito de falar, desembuche menino!

Etrício: Faize é mais de seis méis que painho partiu rumo à São Paulo. Nesse tempo nem uma carta de notícia chegou na gente.

Denílson: E isso ta deixando a gente mai que aflito, e triste pra daná. Teve inté um dia que eu me desesperei de tanta saudade de painho, e subir num pé de alvore, e comecei a gritar o nome de painho feito doido.

Etrício: E noise tem certeza que quando ouvimo maise uma veiz a voz de painho, nosso coração vai aqueta um bucadinho, vai parar de querer sair pela boca.

Denílson: E aí ela não diz nada, quando não diz nada, é o que é?

Prefeito: Bem se a bichinha não disse nada, é sinal de que os minino devem de partir!

Magda: Eta! Se eles foram eu também devo de ir.

Vizinha 2: Pois desse jeito esse ômbulos vai ter é que fazer tyerminal numa creche!

Vizinha 3: Nunca vi tanta criança metida a sabida.

Prefeito: E o que que você vai fazer por lá menino.

Magda: Eu quero... Eu quero... Eu quero é...

Prefeito: É o que minino?

Magda: É vê Disco Voadore!

Todos: Disco Voadere?!

Prefeito: E qual o problema nisso. O zóio é do minino, e ele vê o que ele quizer.

Magda: É isso aí seu Prefeito! Como cidadão desse vilarejo, eu me decraro com o ditreito de vê o Eta Terresti.

Vizinha 3: Pois então que pegue um ômbulos pra Marte.

Vizinha 1: Vai ver ele quer voltar pro Planeta dele.

Vizinha 2: Vai vê é isso!

Magda: Cês não tão me entendeno é nada! Eu quero ir pra Sum Paulo, porque lá a chance deu vê um Eta Terresti é muito mai grande. Eles são um zizibido, eles gosta de aparecer é prum montão, pra poquinho, feito nois, es nem liga!

Máquina: Pi! Pi! Pi!

Prefeito: A Máquina ta é achando essa sua história meio história pra boi durmir.

Jhonatam: Pode inté parecer doidura, mai não é não! E a hora que eu provar isso eu vou ficar é muito famoso, Veja bem seu Prefeito, veja bem, pois através de uma atitude de apoio hoje, o seu município pode um dia fazer parte da história da humanidade.

Máquina: Pi! Pi! Pi!

Prefeito: Bem... Como hoje eu não decido nada... Sinto muito minininha, pois se a bichinha apito, já está dado o veredito. Próximo candidato!

Maciene: Vem Tofinho! Vem que vai se bom pra noise! Pronto! Já começo falando é?

Prefeito: Se é de sua vontade.

Maciene: Meu nome é Maciene, sou menina que da vida ainda espera muito. Painho, Mãinha, mais meus irmãos tão satisfeito com o que tem por aqui. Pois eu só aceito isso, depois que eu sabe o que tem do lado de lá

Carteiro: Pois se for só isso eu mesmo posso lhe ajudar, por do lado de lá eu conheço é muito...

Máquina: Pi! Pi! Pi!

Maciene: Apito foi pra mim é?!

Máquina: Pi! Pi! Pi! (Balançando a cabeça dizendo que não).

Valdirézia: Ah é pra ele! Vai vê ela não gosta de gente inchirida

Maciene: Como eu dizia... Eu quero é ser gente. Sem querer parecer ser enjoada dona Máquina, mas essa vida que eu levo me aperreia é demais, e se tem algo me incomodando é sinal de que eu devo de da outro rumo pra minha vida. Eu falei o que tinha pra dizer, e a bichinha não apito é nada. Então, isso é sinal de que a gente vai Tofinho!

Máquina: Pi! Pi! Pi!

Maciene: Oche, já não to entendendo mais é nada! Eu vou ou não vou?

Máquina: Pi! Pi! Pi! (Balançando a cabeça dizendo que sim).

Maciene: Entonce qual o problema?

Máquina: Pi! Pi! Pi! (Apontando para o cachorro).

Vizinha 3: É o cachorro!

Vizinha 2: Ce não é doida de querer botar um cachorro nessa, é?

Máquina: Mai Tofinho e eu somo um só. Se eu deixa Tofinho, capaiz dele morre de tristeza.

Vizinha 1: Tenha dó, é só um cachorro!

Maciene: Cachorro que tem muito mais coração do que ocê!

Máquina: Pi! Pi! Pi!

Vizinha 1: Desaforada!

Maciene: Tofinho vem de uma família muito de sentimento. Quando tiraram ele e seus irmãozinhos de perto da mães deles, os outros dois não agüentaram de tanta tristeza e viraram a alegria das formigas. Tofinho só foi forte porque eu me agarrei a ele e disse que eu não deixaria nada de mal acontecer com ele. Ele tremia, gemia, e eu acalentava ele no meu colinho de minina. Brinquei de boneca, e disse que ele seria o meu filinho, e o pior é que ele acreditou.

Prefeito: O minina desse jeito não coração seco que resista, triste demais, triste demais.

Máquina: Pi! Pi! Pi! (chorando).

Prefeito: Eu não quero ser o culpado pela tragédia de ninguém não, vai, vai vê o que tem de lá do outro lado, pó levar seu cãzinho sim!

Motorista: Vamo! Bora seu Prefeito, ta com muita falação e eu tenho hora, e chegue de chamar gente que só cabe mais dois!

Prefeito: Pois então que se apresente os dois últimos candidatos!

Jozeane: Nois duas!

Valdirèzia: Oche eu não quero ir não minina!

Jozeane: Não ouve ela não, que ela é muito minina pra saber o quer da vida. Eu respondo por ela e ela quer ir sim, não é. (biliscando-a).

Valdirézia: Ah! Sim.

Jozeane: Minha irmã já ta indo pra quarta série, ano que vem por aqui não tem mais escola pra ela. Nosso irmão já ta lá nu Sum Paulo, e em assunto estudo ta se dando bem, já ta no Colegial. Eu preciso de ir pra cuidar dela, essa minina aí só tem tamanho mas é lerda, tadinha!

Valdirézia: Oh!

Jozeane: Xiiii!

Motorista: Bora seu Prefeito! Manda essas duas pra encher logo negócio, que eu tenho hora!

Prefeito: Vão se então mininada porreta!

Leinha: Espere seu Prefeito! Desculpe a demora é que tava difícil de convencer vozinha.

Prefeito: Pois chego tarde minina, que o negócio já ta abarrotado! Não cabe mais ninguém!

Leinha: Mas a gente precisa muito de ir!

Prefeito: Precisar to mundo precisa!

Vozinha: Deixe disso Leinha, neta minha não se humilha pra certo tipo de pessoa.

Prefeito: Certo Tipo! O que a senhora quis dizer com isso!

Vozinha: Entenda o senhor como quiser!

Leinha: Desculpe Vozinha pelas fortes palavras senhor Prefeito! Mas entenda o quanto é importante para gente essa partida.

Prefeito: Oche a minina fala como se fosse questão de vida ou morte!

Leinha: Mais de morte do que vida seu Prefeito! É o corpo de mamãe, que solitário espera uma assinatura para ser enterrado com dignidade. E minha irmãzinha que agoniza num leito de olhos fechados, e Vozinha e eu queremos estar lá no exato momento em que ela abrir os olhos, pra que ela saiba que não está sozinha.

Prefeito: O minha filha o que fazer nesse caso, se vocês tivesse chego antes não tinha o que se discutir, mas eu já dei minha palavra pra aqueles que estão ali e...

Valdirézia: Pó deixar, seu Prefeito! Esse ônbulos não é nem primeiro e nem o último que parte daqui.

Jozeane: Que ce vai falar?

Valdirézia: Feche o bico Jozeane! Não vê que nossos sonhos ficam pititinho, diante dos sonhos da Vozinha. A gente ainda tem muito tempo pra correr atrás deles. Pode vim Leinha, pode vir vozinha. Vocês mais do que ninguém merecem partir nessa viagem. Não é Jozeane?

Jozeane: Ah, claro! Afinal de contas eu só tenho sete anos, e quando acontecer a próxima eleição eu vou ta com onze e...( É cutucada por Valdirézia). Podem ir.

Leinha: O mininas, ces não sabe da importância que vocês vão ter na minha vida!

Valdirézia: E você Não tem idéia do quanto é querida, dê me cá um abraço.

Motorista: Chega de chororó minha gente, Cês tem um prazinho de trinta minuto pra arrumar suas coisa. Simbora meu Povo! Vamo com fé que tudo vai dar certo!

Prefeito: Simbora meu Povo! (Todos Vibram, em seguida correm para pegarem as suas malas, se despedem e partem com o povo).

Magda: Aquele dia, vai fica matutano na cabeça desse povo. Era abraço pra lá, abraço pra cá. Um chororó que nunca se viu. Inté Deus fico confuzo, fulano dizia:

Leinha: Fique cum Deus.

Magda: Ciclano respondia:

Vizinha 2: Vai cum Deus!

Magda: E por fim, até Deus perdeu o rumo! A única certeza que ficou, era a poeira que subia escondendo pra que banda aquele povo se jogava.(O povo vai embora). E eu, minina de tudo, olhei pro céu e não vi é nada. Mas eu decidi, até onde minhas perna agüentasse, eu ia de correr. Volte aqui! Eu também quero ir. Eu também quero ir! (A menina sai correndo em direção ao ônibus, aos poucos o Prefeito que apenas observava o ônibus partir, começa a gargalhar, tira suas roupas de Prefeito e começa a se transformar no Diabo).

Diabo: Oxalá meu pai, que é claro que o Diabo só haveria de ser Mulher! Quer coisa pior que isso?! Vai meu povo, vai por essa estrada desgraçada, que em qualquer encruzilhada eu estarei lá esperando, por vocês pronta para contar os corpos. (Roda, gargalha, e sai de cena permanecem apenas as três vizinhas olhando para o público e o espantam dalí).

Vizinha1: Ochê! Ta olhando é o que?

Vizinha 2: Chispa! Cabo! Quer dizer por aqui cabo!

Vizinha 3: Mais ali continua ó! Vamo, levanta esses bundão daí!

Vizimha 1: Eta povo preguiçoso!

Vizinha 2: Agora ces pode ir, viu cabo memo. Aqui não tem mai texto.

Vizinha 3: Essa fala aqui, que eu vou falar, por exemplo é a última. Depois só ali! Não é gente?
Povo que foi: É isso aí!

Vizinha 3: Ces não vieram acompanhar a história dos que se foram? Então vá! Vá! Vá!(As vizinhas saem expulsando o público para o espaço onde irá acontecer a segunda parte da trama).