Sobre "Sinfonia de Sofhia"

Escrito em 2007, quando eu ainda cursava o núcleo de dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo André, sob coordenação do mestre Kil Abreu. A "Lição de Casa" era a seguinte; um texto, com as características de um drama moderno sem perder um certo traço de linearidade na trama.

O texto aborda o olhar de uma jovem atriz, vinda de Maceió, que tenta seguir carreira artística em São Paulo.

De todos os textos que escrevi e gostaria de montar pelo Torneado, talvez esse seja o que menos me empolgue. Mas, dependendo da recepção dos nossos artístas criadores tudo pode mudar, inclusive o texto!

"Sinfonia de Sofhia" será lido no Ciclo de dramaturgia da Gastão Tojeiro.

Segue as informações:






















A seguir um trecho dessa dramaturgia:

Na pensão.

Madalena: Parece feio, mas podia ser pior.

Sophia: Cê não sabe de onde eu venho. Lá que é feio demais.

Madalena: E eu sei.

Sophia: Pois conhece?

Madalena: E precisa conhecer, com uma cara feia dessa, cê só podia vir de um lugar feio. Susto com minha sinceridade, né? Tá desacostumada com gente como eu? Ó, eu não guardo nada não. É de câncer que eu não morro. E, se não gosta, que bote pra fora também. Nóis pega nosso desgosto, bota pra brigá e vê quem ganha. Que vida amarga eu não levo não! Cê gosta?

Sophia: De que, meu Deus?

Madalena: Fala Deus de novo que leva um soco na boca. Não por mim, mas, pra você. Se tem coisa que eu gosto de ensinar pra gente besta, que vem de longe, é que Deus não existe. Vive, menina! Tô ensinando uma coisa procê. O mundo é divido em dois. Os que mexe e os que não se mexe. Você se mexe?

Sophia: Sim.

Madalena: Pois então, o que não se mexe não te pertence.

Sophia: Olha, à primeira vista eu posso parece besta. Mas sou não, viu. Sou é ligeira, que igual não se vê por aí fácil não, viu. Por exemplo, acha eu sou trouxa de pagar o quanto cê tá pedindo por esse muquifo aqui, é?

Madalena: Conhece a cidade, vá procurar outra casa então...

Sophia: Quanto é uma diária?

Madalena: Melhor cê fechar uma semana.

Sophia: É que eu nem sei o quanto de tempo eu...

Madalena: Vá dormir, ô menina, amanhã nóis conversa disso.

Sophia: Escuta...

Madalena: Que é que foi?

Sophia: Como é que gente sincera fala boa noite?

Madalena: Seja bem vinda.

Sophia: Vou aprender muita coisa, viu. Tô disposta. Pode vim sem dó. Que eu já tô sabendo que tudo que vier, só vai me fazer crescer mais. Então, num tô com medo de nada não. Se vai dar, dá na cara. E, ó... Seu desgosto muito me cativa. Quero andar do ladinho dele, que assim ele não me machuca. Vim avisada! Que eu vou sofrê...Vixe! Já vim sabendo. Daí pra frente o que vier é lucro. E se um dia eu voltar, vou dizer: “mainha, mais tu que cuzona!”. E ó! Eu sou bem vinda. Que eu já cheguei resolvida. E hoje eu digo foi um prazer te conhecer, mas se amanhã eu passar direto por você sem lhe desejar bom dia é que cresci e aprendi a ser sincera como você. Mas, por enquanto: boa noite.

Madalena: Êta baianinha metida. (Sophia deita-se em sua cama, lê os seus escritos até amanhecer).

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