terça-feira, 27 de abril de 2010

Sobre o processo do espetáculo "Menina de Louça"

Tudo começou em 2007.


Eu não me lembro exatamente o mês, mas eu me lembro que foi no ano de 2007. Quando eu estava cursando o 1º Colegial do Ensino Médio, na instituição educacional Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.
Eu sempre conto essa história, quando alguém me pergunta como eu entrei no Pequeno Teatro de Torneado. Só que hoje, eu preciso contar essa história novamente, pelo menos uma parte dela, para falar sobre o que eu quero falar.
Bom, lá estava eu. Um dia normal de escola. Esses dias que quanto mais o tempo passa, mais a gente se esquece como é. Só que quando alguém lembra um detalhe desses dias, tudo é retomado na nossa cabeça. Bom, lá estava eu: entrando pelo corredor das salas de aula. A minha vista ainda estava embaçada, graças ao sono impregnado nas pálpebras dos meus olhos, que não focavam as imagens corretamente. De repente, uma mancha vermelha apareceu na minha frente. Era a Mariana.

A Mariana tinha o cabelo vermelho. Vermelho mesmo. Vermelho cor de batom de mulher. Pois então, a Mariana se aproximou e disse "O meu grupo de Teatro vai apresentar duas peças aqui na escola! Eu queria muito que você assistisse!". Ela já havia comentado sobre esse grupo comigo.

Um dia, ficamos até tarde na escola, conversando sobre teatro. Eu e ela saímos dos nossos grupos, graças à escola. E sentíamos falta. Muita falta. A Mari havia falado muito do seu grupo, de uma forma que as imagens que eu criei na minha cabeça das peças, tanto do "Menina de Louça", quanto do "Primavera" (principalmente do "Primavera"), eram muito fortes. Eram imagens muito presentes em mim.

No momento que a Mariana disse, eu já me empolguei. A primeira apresentação seria do espetáculo "Menina de Louça".
No dia da peça, peguei ingresso antes. Fiquei esperando na porta da biblioteca da escola, onde seria a respectiva apresentação. Formou-se uma fila. E lá estava eu, com meus amigos, esperando a porta se abrir.

Ao entrarmos na biblioteca, um homem falava "formem um círculo, em volta da atriz".
A menina ficava cantarolando, deitada no chão. Só tinha ela em um vestido azul, e uma cadeira. Uma das primeiras coisas que eu notei, era a juventude da atriz. Ela realmente era muito jovem. Tinha a minha idade, isso se não fosse mais nova do que eu. Eu tinha quinze anos na época.
A peça começou.
Eu não queria falar, hoje, sobre a peça em si. Tem algo muito importante, que aconteceu na minha vida, quando eu assisti essa apresentação.

O meu conceito de teatro mudou depois disso. Muito do que eu acredito ser Teatro hoje, eu senti naquele momento. E depois, ao longo dos anos, eu pude formular essa sensação que eu tive. Porém, eu nunca me esqueço do que eu senti naqueles quarenta minutos. Com certeza, esse momento, foi um daqueles momentos que acontecem ao longo da sua vida.

Um daqueles momentos que, você pode estar vivendo milhões de coisas caóticas. A cobrança de diversas escolhas, sobre diversas questões na sua vida. E você segue o fluxo da vida, vai seguindo normalmente aquilo já virou rotina, cotidiano para você.
Mas, tem um momento, de silêncio, onde tudo para.

Você respira, olha, e fala: é isso.

É isso o que eu quero para minha vida.

E você escolhe.

Essa pausa de segundos pode até ser algo inconsciente.

Mas você escolheu.

Pois bem, quando eu assisti o "Menina de Louça", eu escolhi.

Teatro é ritual. O Torneado valoriza muito isso. Não só valoriza, mas acredita nessa afirmação. Juntar pessoas para assistir, outras pessoas falando sobre o humano, é um ritual de troca. E a idéia da troca, vem junto com a idéia do emprestado. A gente empresta essa experiência. E depois, a pessoa que recebeu a experiência reverbera aquilo dentro dela e vai passando para as outras pessoas que vivem ao longo do cotidiano com ela, e a coisa vai reverberando. Assim como o público reverbera no ator, naquele momento, e o ator leva aquela experiência com ele, emprestada. E depois dá para o seu cotidiano. E recebe, e passa, e empresta, e troca.

O "Menina de Louça" fala sobre a histeria adolescente, sobre os anos escolares vividos e a individualidade conjunta, que cada um possui. Eu digo individualidade conjunta, porque todo mundo já passou por alguma situação do texto. Quando o texto fala sobre a sala de aula, todos imaginaram a sala de aula que estudamos. Vamos formando uma imagem daquilo que vivemos. Apresentar em uma escola, onde as pessoas estão juntas, todos os dias possibilitam a formulação da mesma quadra, da mesma sala de aula, dos mesmos colegas, dos mesmos professores. Uma escola que é de todos.

Nós estávamos ali, sentados, escutando uma menina falar sobre as nossas vidas de estudantes do ensino médio. Ali, sentados. Em roda, celebrando ela falar sobre as nossas vidas. E nós, ali, formando em nossa mente como são as nossas vidas, o quão igual é tudo isso, para todos. Celebramos. Dividimos. Compartilhamos da nossa igualdade, que vai alem da roupa. Vai alem do uniforme que usamos.

Eu gosto de lembrar a sensação que eu sentia depois que a peça acabou. Eu tinha vontade de chegar na Heloisa, a atriz que atuava, e falar "Obrigada Helo, por ter feito isso". Obrigada Helo, por ter feito eu dividir com pessoas que eu nunca tinha pensado em dividir nada. Obrigada, muito obrigada Helo.

Chegando em casa, eu comecei a contar para a minha mãe sobre a peça que eu tinha assistido, e sobre o grupo de teatro que eu tinha conhecido. Eu fiquei muito empolgada. Achei incrível aquele trabalho, o mais incrível era por ser uma atriz da minha idade, por ser uma pessoa com uma realidade absurdamente parecida com a minha.
Depois de um tempo, o Pequeno Teatro de Torneado me convidou para entrar no grupo para montar o espetáculo "Primavera".

Hoje, no ano de 2010, o William Costa Lima (o Will), ator/dramaturgo e diretor do grupo, sugeriu da gente voltar com o "Menina de Louça". A atriz que fazia, a Helo, ela saiu do grupo, então ele fez essa proposta para mim. Na hora, eu aceitei.

Um dos principais motivos para eu aceitar, foi por ser essa peça que tem um significado tão forte para mim. Eu nunca tinha feito um monólogo. Não sabia como seria essa questão. Ao longo dos ensaios, eu pude notar sobre essa troca entre ator e platéia cada vez mais presente no texto. Acaba até sendo uma necessidade do ensaio, eu falar o texto para alguém, eu atuar com alguém na minha frente, olhando para mim. Sinto que o texto é totalmente direcionado para essa reverberação da troca, o tempo todo estou nesse processo de irradiação com a platéia.

Montamos a peça em dois meses. Agora, estamos na fase final. Sempre continuaremos montando claro, teatro é um processo contínuo. Mas a base, da finalização, uma etapa já foi cumprida.

Agora é o contato com o público, e o contato com o espaço e com o meu corpo. Apresentaremos em diversos lugares, mas damos preferências para salas de aula. O nosso ultimo ensaio foi em uma sala de aula. A sensação que eu tive foi algo devastador. Como terminei o terceiro colegial ano passado, voltar para uma sala de aula, com as carteiras enfileiradas, as janelas, e o clima de colégio, foi algo muito arrebatador, ainda mais para fazer esse espetáculo.

O espetáculo é de repertório. É uma peça que tem uma representação muito grande na história do Pequeno Teatro de Torneado. Mesmo sendo um monólogo, eu vejo muito dos outros indivíduos do meu grupo ali dentro, comigo. Vejo o Bruno falando sobre as marcas, o William no texto, a Mayra com as suas impressões e sensações. E cada dia que passa, percebo que esse corpo que eu uso é emprestado do Torneado. O nosso grupo utiliza apenas ele para falar essa história que queremos contar.

Não me vejo só em cena. Talvez uma parte da minha segurança vem disso. Vejo-me com o Torneado, sempre. Talvez isso seja o que mais me encanta em fazer essa peça. Perceber como o meu grupo é presente. Assim como quando eu assisto o “Dias de Campo Belo”. Não estou em cena, mas quando eu vejo o William falando em cena, sobre a sua família, eu me sinto em casa.



Tomando café.



Olho para aquele café, e digo: estou em casa, na nossa casinha.

Beatriz Barros

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Toda semana o sr. irá levar para a tua casa alguém que eu gosto, Deus?

Foi morar com o papai do céu - era o que ela costumava me dizer.Foi como minha mãe me explicou que um dia as pessoas vão embora para sempre, foi o jeito mais poético de me fazer entender que havia pessoas da minha família que eu não conheci e nem iria conhecer, Foi o jeito de justificar o fato de eu nunca mais poder ver os Mamonas Assassinas tocando ao vivo na tv e nem em outro lugar.Minha primeira questão de ordem prática com a morte além de querer saber o que era morte e aonde as pessoas iam parar depois disso, foi querer entender o porquê da morte.

Quando eu não queria dividir minhas coisas com ninguém minha vó me chamava de egoísta. E eu sabia o que significava essa palavra, mais do que a palavra morte.

- Mãe, o papai do céu é egoísta? Por que ele quer tantas pessoas morando com ele?

Mas essa pergunta ela nunca me explicou o porquê, sabe.

E hoje o dia acordou tão cinzento que eu acho que ele não vai melhorar não...

Mayra


segunda-feira, 5 de abril de 2010

Olha quem tá aí.

Hoje a segunda-feira acordou com uma garoa fina e a Mayra acordou com uma ressaca e perdeu o busão.E ela sempre perde o busão, sente-se fracassada quando perde o horário da aula também.Mas eu acordei com vontade de escrever aqui. Sou muito ausente, é bem verdade.Nunca sei direito o que escrever, é mais verdade ainda.Mas hoje me peguei pensando que apesar de tudo que acontece na minha vida, eu sou muito feliz por causa do meu grupo de teatro.Sabe, faz uma semana que eu não os vejo. Mas é o meu grupo de teatro mesmo assim.Hoje eu acordei e queria dizer que tenho muita sorte. Meu celular e a minha carteira foram roubados na segunda-feira.Mas pelo menos meus amigos estavam lá, falando sobre a nossa peça. Sobre o nosso filho caçula e maduro.Tinha a Thais e me senti muito bem por saber que ela está presente. E tinha o Vitor que vai embora. E de tudo fica um pouco.E aquele abraço foi tão sincero...e tinha a gente carregando o carro na chuva e eu não me senti sozinha.Eu tenho sorte porque embora não tenha percebido, aprendi a me colocar porque eu tenho um grupo de teatro.E hoje eu tava descendo a ladeira da minha rua e pensando que esse departamento da minha vida me deixa muito feliz.É sofrido, mas me sinto muito feliz em saber que tenho um grupo.Lembrei que eu nunca havia dito isso aqui.

Mayra

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Liberdade Sem Medo

Aqui é a Beatriz Barros.
Estou lendo um livro que eu acho que tem muito a ver com o processo do Torneado, com a pesquisa do grupo. O livro se chama "Liberdade sem medo", do A. S. Neill. É um livro que, não apenas quem se interessa por educação, mas acho que quem se interessa pelo humano, deveria ler. Acho válido postar aqui o prefácio do livro, tem muito a ver com a nossa pesquisa.

Um beijo

"Será errónea a ideia de educação sem emprego da força? Mesmo que não o seja, teóricamente, como explicar o seu relativo malogro?Acredito que a ideia da liberdade para as crianças não seja errada. Mas, foi, quase sempre, pervertida. A fim de discutir com clareza o assunto. devemos antes de mais nada, compreender a natureza de liberdade. Para tanto, devemos estabelecer a diferença entre autoridade manifesta e autoridade anónima.
A autoridade manifesta é exercida directa e explicitamente. A pessoa que exerce fala com franqueza àquela que lhe está submetida:
-Deve fazer isto. Se não fizer, determinadas sanções lhe seráo aplicadas.
A autoridade anónima tende a esconder que a força está sendo empregada. Faz de conta que não há autoridade, que tudo é feito com o consentimento de cada qual. O professor do passado dizia a Jonhy:
-Deves fazer isto. Se não fizeres, eu te castigarei.
O professor de hoje diz:
-Tenho a certeza que gostarás de fazer isto.
Aqui, a sanção por desobediência não é o castigo corporal, mas o rosto penalizado dos pais, ou, o que é pior, o levar consigo a sensação de não estar"ajustado", de não agir como os demais. A autoridade manifesta usava a força física, a autoridade psicológica emprega a manipulação psíquica.A modificação da autoridade manifesta no século XIX para a autoridade anónima do século XX foi determinada pelas necessidades de organização da nossa sociedadade industrial moderna. A concentração do capital leva à formação de empresas gigantes, dirigidas por burocracia hierarquicamente organizada. Grande aglomerado de trabalhadores e funcionários trabalha em conjunto, sendo cada indivíduo uma parte de uma máquina organizada, que, para bem funcionar, deve fazê-lo sem dificuldades, nem interrupções. O trabalhador individual torna-se apenas um parafuso em tal máquina. Nessa organização de produção o indivíduo é dirigido e manipulado.
Na esfera do consumo (na qual se tem a impressão de que o indivíduo expressa livre escolha) também ele é dirigido e manipulado. No consumo de comida, de roupas, de bebidas, de cigarros, de programas de rádio e televisão, um poderoso aparelho que trabalha com dois propósitos: aumentar constantemente o aptetite individual para novas comodidades, e, em segundo lugar, dirigir tal apetite aos canais mais proveitosos da indústria. O homem é transformado no consumidor, no eterno pimpolho de mama, cujo único desejo é consumir, cada vez mais,"melhores"coisas.O nosso sistema económico precisa de criar homens que se adaptem às suas necessidades, homens que cooperem harmoniosamente, homens que desejem consumir cada vez mais.
Nosso sistema precisa de homens que se sintam livres e independentes, mas que, apesar disso, estejam dispostos a fazer o que deles se espera, homens que se ajustem à máquina social, sem fricção, que posam ser guiados sem o emprego da força., que possam ser liderados sem líderes e que possam ser dirigidos sem qualquer outro alvo que não seja "ter sucesso".A autoridade não desapareceu, nem mesmo perdeu o seu vigor, mas foi transformada de autoridade manifesta em autoridade anónima de persuasão e sugestão. Em outras palavras, para ser adaptável, o homem moderno é obrigado a nutrir a ilusão de que tudo é feito com o seu consentimento, mesmo quando esse consentimento lhe é extraído através de subtil manipulação. Seu consentimento é obtido sim, mas através das suas costas, para além da sua consciência.
Os mesmo artifícios são utilizados na educação progressiva. A criança é froçada a engolir a pílula, mas a essa pílula aplica-se uma cobertura de açucar. Pais e professores têm confundido a autêntica educação despida de autoritarismo com educação por meio da persuasão e coação ocultas."

Excerto do prefácio de Erich Fromm, Liberdade sem medo, A S Neil.

Sobre o sentir e o dançar de um corpo gordo

Sempre achei estranha a vontade que eu tinha de dançar. Durante muito tempo, meu corpo ficou inerte. Fugia das aulas de educação física, ...