segunda-feira, 19 de julho de 2010

Primavera - Uma divisão em forma de estações

Sou estudante de Letras. Entrei esse ano.
Uma das atividades da matéria de "Introdução aos Estudos Literários" é fazer análises críticas de obras escritas. Fiz isso com alguns poemas, farei com alguns outros textos no segundo semestre. Mas antes do curso, nunca imaginei que eu houvesse feito uma análise literária da peça de teatro do meu grupo.
Esse texto tem quase um ano e vai aqui para que vocês possam desfrutar de uma análise um pouco mais cabeçuda sobre o Primavera.

Que seja doce.




Somos livres e responsáveis por nossas escolhas.


Inverno – Um tempo frio e chuvoso.

A instituição é apresentada. A partir daí, as relações que se flagram são exemplos claros dos ‘muros psicológicos’ que são criados quando existe um regime de ordem.
Os momentos de ‘inverno’, a principio, parecem uma justificativa para a personagem da Senhora Bergman – sendo mãe de uma das alunas e reitora da instituição – que é quem ordena os movimentos internos sempre na figura de mãe.

Sra Bergman: Thea! Seja paciente com a sua amiguinha! Às vezes, o riso do próximo pode depender do que te irrita. E o que fará o próximo? Deixar de sorrir?

Mas também são a representação do pensamento triste e sem perspectiva de mudança do ser humano.

Ilse: Domingo é dia nulo. O tédio se une em volta da mesa pra comemorar. As pessoas usam o máximo de tolerância. Sem contar a impressão de que o fim está sempre por vir. Fim de que?

Domingo é dia nulo

Primavera – O despertar antes da estiagem.

Com a chegada da Primavera vem também o primeiro momento onde os jovens desrespeitam uma norma da instituição; a de que os alunos só poderiam sair caso explicassem detalhadamente aonde iriam e com qual fim. Fazem isso para poder ficar alguns minutos fora do colégio na companhia de Ilse – uma ex-aluna da instituição – que, por discordar das normas de lá, decidiu se retirar.

Wendla: O que disseram à minha mãe?
Martha: Que enquanto ela escolhia os pisos da nova varanda, íamos visitar há uma família impregnada pelo câncer.

A primavera é um momento em que os jovens decidem aflorar os seus desejos e necessidades. Os jovens se relacionam sexualmente, decidem enfrentar o corpo docente tecendo uma critica com uma peça de teatro e fogem da instituição por alguns momentos. Todos esses atos serão levados às últimas conseqüências.

É a lua que só ilumina o lado dos jovens!

Verão – A estiagem e a morte.

O verão é o momento aonde tudo o que foi feito na primavera começa a surtir efeito. O clima abafado começa a tomar conta da consciência dos jovens e daí vem uma sensação de culpa, de sufoco. Os adultos da instituição começam a se defender com uma forma de “repressão” aos jovens, uma vez que foram desrespeitados num lugar aonde, supostamente, as relações deveriam ser ‘horizontalizadas’. Tudo isso começa a queimar e existe a necessidade de implorar por vida.

Melchior: Então não entre na sala!
Morritz: Não posso!
Melchior: Quem te disse?
Morritz: Não sei...
Melchior: Então vá sem compromissos!
Morritz: Eu não quero!
Hanschen: Então fique!
Morritz: Eu não acredito nisso!
Melchior: E você acredita em quê?
Morritz: Também não sei!
Melchior: Então dê um passo adiante! Na incerteza é que você não pode ficar!
Ernest: Eu não sei fazer a revolução!

"Unicórnio": Animal de fábula.
Cavalo com chifre na testa. Certo tipo de rinoceronte.
E para suprir essa necessidade, os meninos do colégio resolvem sair para comemorar um carnaval fora de época, ou seja, um assopro de vida fora da primavera. Quando saem da instituição, o jovem Morritz, que estava precisando tirar uma nota alta para entrar na faculdade, suicida-se no ápice da comemoração do carnaval. O ponto mais quente do verão é aquele em que se aquece o calor da putrefação.

Morritz: Preciso ir.
Ilse: Você não disse que era livre?
Morritz: Não totalmente.
Ilse: Sentirei saudades sua.
Morritz: Me leva com você!
Ilse: Na micareta?
Morritz: No coração.


Outono – Quando as coisas apodrecem.

Após a morte de Morritz, as relações que se estabeleceram até então parecem não ser mais fortes ou verdadeiras como antes. O que era algo sincero, e até um pouco devasso, agora se torna algo maculado, quase uma chaga em forma de relação.
Os frutos começam a apodrecer e as relações começam a se despedaçar. É o momento em que desistem de viver e entregam-se para a morte cotidiana.

Ernest: Você me perturba! Você me faz mal. Você faz minha cabeça pensar. Você me faz esquecer de todo o resto. Será que você não entende? Eu não sei fazer a revolução, talvez por que eu nem queira que ela aconteça. E eu não desejo te amar em um gueto escuro, criado exclusivamente para isso. Meus avós estão morrendo. Os lugares que eu queria te levar estão sendo tombados. Meus pais estão cansados de novidades. Eu queria um quintal só nosso...

Desculpa é coisa dos homens.
Depois que inventaram essa tal de de "desculpa",
tudo se foi por água abaixo.


Théa: Eu nunca fui dona da minha história. Eu nunca fui protagonista da minha vida. Talvez um dia, quando eu me tornar mais mulher, mais madura, eu possa realmente decidir algo sobre mim. Meu rosto não é meu, meu cabelo não é meu, meu olhar não é meu. Eu não me pertenço. Eu também não sei fazer a revolução. Mas seria lindo assisti-la.


Sobre o retorno ao inverno – De como o ciclo continua.

Quando tudo parece haver terminado, a história se rompe e um dos personagens (Melchior) descobre que não teve o seu fim. Tendo visto isso, coloca-se numa posição frágil e pede para que todos os outros personagens voltem e lhe ajudem a terminar de contar essa história. O que vemos, é que mesmo os outros personagens tendo os seus fins pontuados, não é possível encerrar todas as histórias. O final do espetáculo é um recomeço. Mostrando que, mesmo que todas as histórias sejam contadas individualmente, existe um lugar aonde todas se encontram; falam da essência humana. Em um termo mais coloquial de que: “A vida continua”.

Melchior: (Melchior entra em cena como se estivesse bêbado, ao público diz) Desculpem a minha aparência desolada e perdida é que eu estou procurando um fim para mim. Cada vez mais eu vejo histórias e pessoas desenrolarem seus fins e eu pareço cada vez mais vivo. E na contramão de tudo isso essa própria história que eu também propus contar parece que já foi contada e, no entanto eu continuo aqui. Vivo! Como se ainda tivesse uma história pra se contar. Mas, não. Ela já acabou e a única coisa que falta é pontuar o seu fim. É muito difícil esclarecer o fim das coisas. Mas, alguém sozinho, em algum lugar, me parece um fim bem explícito. É que na verdade não foi bem esse o fim que eu pensei. Não que eu sozinho queira decidir o fim! Mas, é que todas as outras histórias já foram pontuadas, e eu fui ficando por último e agora a responsabilidade de um fim com cara de fim... A ponto de que as pessoas sejam capazes de entendê-lo e em seguida aplaudi-lo... Para que depois todos nós possamos sair daqui com a certeza de um fim, e irmos para nossas casas e vivermos outras histórias, ou não vai saber o que nos espera! Mas, assim tão vazio eu não posso aceitar! Mas, se só resto eu em cena o que fazer? Não posso conceber um fim virtuoso se estou sozinho!

terça-feira, 13 de julho de 2010

Breve história

Esse é um texto que escrevi há quase um ano contando sobre o início do grupo através da montagem do espetáculo Primavera.
Em seu momento de retomada, penso ser oportuna a publicação desse texto aqui.
Boa leitura.


Quando começamos a montar o texto ‘Despertar da Primavera’ no Colégio Terra – onde o curso de teatro era ministrado - mal sabíamos em que zona delicada estávamos dispostos a nos debruçar.
O que a principio se converteria numa peça montada pelos alunos da escola, logo se transformou na semente de um projeto maior. Dentro do colégio conseguimos enxergar os métodos de educação contemporâneos e ali começamos a pensar que, talvez, o modo ‘arcaico’ de se pensar a educação – suscitado no texto de Wedekind – não fosse tão diferente dos dias de hoje. Então nos foi feita uma primeira provocação:
“Será que o problema do adolescente está na escola?”

Quando o período letivo se encerrou o curso de teatro foi convidado a se retirar do colégio, uma vez que a instituição não conseguiria abrigar o projeto que já começava a se fazer grande demais para um curso escolar.
Não tendo aonde ensaiar, fomos procurar um local público. O Parque da Conceição. Lá continuamos o processo e foi o nosso primeiro contato com um local precário de estrutura. Éramos um grupo de adolescentes, – que em sua maioria estavam tendo o primeiro contato com o teatro – e saíamos pelo parque gritando o texto de Wedekind. Enquanto o parque da Conceição foi o ‘local provisório de ensaio’, era constante a impressão de que ali algo um pouco maior começava a acontecer. Era como se aquelas cenas improvisadas no interior da escola, agora precisassem se expandir e ganhar todo o redor de natureza que nos cercava.

Fevereiro de 2007 começou, e numa segunda-feira fomos ensaiar no Auditório do Partido da Causa Operária, onde ficamos por quase 2 anos. Foi ali que o espetáculo começou a amadurecer. Nesse momento, os alunos do colégio começavam a abandonar o curso e éramos obrigados a convidar nossos amigos e pessoas mais próximas para acompanhar o processo. Desistimos do nome de ‘Núcleo Meu Olho-Meu Mundo’ – como curso – e passamos a nos chamar de ‘Pequeno Teatro de Torneado’ – o grupo de pesquisa ao teatro jovem.
Eram comuns, nessa época, os ensaios em que fazíamos os chamados ‘sensations’ – longas improvisações com um estímulo e condução do olhar exterior. Após essas improvisações, íamos para casa e tentávamos esboçar alguma coisa a fim de entrar no espetáculo. Por essa época, começou a idéia de fazermos uma releitura do “Despertar da Primavera” e não sua montagem integral. O texto, por mais que gostássemos, ainda retratava o jovem do século XIX e queríamos trazer aquelas angústias para as palavras do jovem que, hoje, vive as pressões do nosso tempo.
Outra coisa que nos incomodava, era o ‘protagonismo’ dos três jovens centrais da trama original: Melchior, Wendla e Morritz. Então, optamos por ‘desprotagonizar’ o texto e ampliar os pequenos flagrantes de possibilidades que os outros personagens demonstravam, preenchendo essas lacunas com os outros tipos de ‘despertar’ que não fosse somente o sexual.

No auditório do partido, começamos a ter outro tipo de relação com o espaço. De um espaço que, com o tempo, tornou-se realmente precário e deteriorado. Então os encontros contavam sempre com momentos como; falta de água e luz no meio de uma reunião ou até de, durante uma improvisação, o nosso teto sair voando por conta de um dia chuvoso.
No fim de 2008 precisamos nos retirar do auditório e passamos a residir artisticamente no Colégio Antonio Alves Cruz, após passar um pequeno tempo ensaiando num quartinho de 10m², que o pai de uma das meninas no grupo, gentilmente, nos cedeu como depósito.

Optamos por montar o espetáculo com uma série de possibilidades que anulassem os problemas dos jovens. O colégio apontado no texto é considerado um modelo de pedagogia; “Nada de paredes, muros, câmeras. Somos livres e responsáveis por nossas escolhas”.
Esse colégio é a personificação das três instituições apontadas no texto original: Família – Escola – Igreja.

A estréia do ‘Primavera’ é um constante despertar, pois estamos sempre dispostos a estrear novamente. E sempre o fazemos. Cada lugar do processo conseguiu trazer o respaldo necessário para que nossa obra se sustentasse.

Obrigado Colégio Terra por mostrar que os defeitos não são pedagógicos, nem dos jovens. Os defeitos são humanos.

Obrigado Parque da Conceição. A terra é o nosso sagrado.

Obrigado Partido da Causa Operária. Por nos fazer trabalhar, correr, suar e inventar.

Hoje, um pouco mais velhos (bem pouco), conseguimos enxergar que por mais rico que tenha sido o nosso processo, o que justifica o ‘Primavera’ é a sua necessidade de falar da angústia humana. E como opção, falamos da angústia no momento em que ela decide despertar; a adolescência. O ‘Pequeno Teatro de Torneado’, hoje, perde o rótulo de ‘Teatro Jovem’ e quando precisa entrar em alguma categoria, se coloca como um ‘grupo jovem’, ou seja, formado por pessoas de pouca idade.

É extremamente difícil transpor as sensações e toda a riqueza de um processo que foi tão intenso. As evoluções alcançadas durante esses quase 3 anos não são cabíveis à algumas folhas. Mas sempre que estamos em cena, tentamos recuperar os locais por onde passamos. Seja através de incontáveis folhas secas nos rodeando no espaço cênico, seja através de uma canção aonde fazemos questão de lembrar que: “Então veio o vento e levou nosso telhado. Mas então veio alguém e nos deu uma casinha”.

Sobre o sentir e o dançar de um corpo gordo

Sempre achei estranha a vontade que eu tinha de dançar. Durante muito tempo, meu corpo ficou inerte. Fugia das aulas de educação física, ...