terça-feira, 13 de julho de 2010

Breve história

Esse é um texto que escrevi há quase um ano contando sobre o início do grupo através da montagem do espetáculo Primavera.
Em seu momento de retomada, penso ser oportuna a publicação desse texto aqui.
Boa leitura.


Quando começamos a montar o texto ‘Despertar da Primavera’ no Colégio Terra – onde o curso de teatro era ministrado - mal sabíamos em que zona delicada estávamos dispostos a nos debruçar.
O que a principio se converteria numa peça montada pelos alunos da escola, logo se transformou na semente de um projeto maior. Dentro do colégio conseguimos enxergar os métodos de educação contemporâneos e ali começamos a pensar que, talvez, o modo ‘arcaico’ de se pensar a educação – suscitado no texto de Wedekind – não fosse tão diferente dos dias de hoje. Então nos foi feita uma primeira provocação:
“Será que o problema do adolescente está na escola?”

Quando o período letivo se encerrou o curso de teatro foi convidado a se retirar do colégio, uma vez que a instituição não conseguiria abrigar o projeto que já começava a se fazer grande demais para um curso escolar.
Não tendo aonde ensaiar, fomos procurar um local público. O Parque da Conceição. Lá continuamos o processo e foi o nosso primeiro contato com um local precário de estrutura. Éramos um grupo de adolescentes, – que em sua maioria estavam tendo o primeiro contato com o teatro – e saíamos pelo parque gritando o texto de Wedekind. Enquanto o parque da Conceição foi o ‘local provisório de ensaio’, era constante a impressão de que ali algo um pouco maior começava a acontecer. Era como se aquelas cenas improvisadas no interior da escola, agora precisassem se expandir e ganhar todo o redor de natureza que nos cercava.

Fevereiro de 2007 começou, e numa segunda-feira fomos ensaiar no Auditório do Partido da Causa Operária, onde ficamos por quase 2 anos. Foi ali que o espetáculo começou a amadurecer. Nesse momento, os alunos do colégio começavam a abandonar o curso e éramos obrigados a convidar nossos amigos e pessoas mais próximas para acompanhar o processo. Desistimos do nome de ‘Núcleo Meu Olho-Meu Mundo’ – como curso – e passamos a nos chamar de ‘Pequeno Teatro de Torneado’ – o grupo de pesquisa ao teatro jovem.
Eram comuns, nessa época, os ensaios em que fazíamos os chamados ‘sensations’ – longas improvisações com um estímulo e condução do olhar exterior. Após essas improvisações, íamos para casa e tentávamos esboçar alguma coisa a fim de entrar no espetáculo. Por essa época, começou a idéia de fazermos uma releitura do “Despertar da Primavera” e não sua montagem integral. O texto, por mais que gostássemos, ainda retratava o jovem do século XIX e queríamos trazer aquelas angústias para as palavras do jovem que, hoje, vive as pressões do nosso tempo.
Outra coisa que nos incomodava, era o ‘protagonismo’ dos três jovens centrais da trama original: Melchior, Wendla e Morritz. Então, optamos por ‘desprotagonizar’ o texto e ampliar os pequenos flagrantes de possibilidades que os outros personagens demonstravam, preenchendo essas lacunas com os outros tipos de ‘despertar’ que não fosse somente o sexual.

No auditório do partido, começamos a ter outro tipo de relação com o espaço. De um espaço que, com o tempo, tornou-se realmente precário e deteriorado. Então os encontros contavam sempre com momentos como; falta de água e luz no meio de uma reunião ou até de, durante uma improvisação, o nosso teto sair voando por conta de um dia chuvoso.
No fim de 2008 precisamos nos retirar do auditório e passamos a residir artisticamente no Colégio Antonio Alves Cruz, após passar um pequeno tempo ensaiando num quartinho de 10m², que o pai de uma das meninas no grupo, gentilmente, nos cedeu como depósito.

Optamos por montar o espetáculo com uma série de possibilidades que anulassem os problemas dos jovens. O colégio apontado no texto é considerado um modelo de pedagogia; “Nada de paredes, muros, câmeras. Somos livres e responsáveis por nossas escolhas”.
Esse colégio é a personificação das três instituições apontadas no texto original: Família – Escola – Igreja.

A estréia do ‘Primavera’ é um constante despertar, pois estamos sempre dispostos a estrear novamente. E sempre o fazemos. Cada lugar do processo conseguiu trazer o respaldo necessário para que nossa obra se sustentasse.

Obrigado Colégio Terra por mostrar que os defeitos não são pedagógicos, nem dos jovens. Os defeitos são humanos.

Obrigado Parque da Conceição. A terra é o nosso sagrado.

Obrigado Partido da Causa Operária. Por nos fazer trabalhar, correr, suar e inventar.

Hoje, um pouco mais velhos (bem pouco), conseguimos enxergar que por mais rico que tenha sido o nosso processo, o que justifica o ‘Primavera’ é a sua necessidade de falar da angústia humana. E como opção, falamos da angústia no momento em que ela decide despertar; a adolescência. O ‘Pequeno Teatro de Torneado’, hoje, perde o rótulo de ‘Teatro Jovem’ e quando precisa entrar em alguma categoria, se coloca como um ‘grupo jovem’, ou seja, formado por pessoas de pouca idade.

É extremamente difícil transpor as sensações e toda a riqueza de um processo que foi tão intenso. As evoluções alcançadas durante esses quase 3 anos não são cabíveis à algumas folhas. Mas sempre que estamos em cena, tentamos recuperar os locais por onde passamos. Seja através de incontáveis folhas secas nos rodeando no espaço cênico, seja através de uma canção aonde fazemos questão de lembrar que: “Então veio o vento e levou nosso telhado. Mas então veio alguém e nos deu uma casinha”.

Um comentário:

Anônimo disse...

Construção de uma história..construção de uma vida..fico grato em poder participar dessa primavera cheias de folhas secas, mas também cheia de amor e intensidade, que é a vida.

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