estréia do menina de louça, sensações

Beatriz Barros postando,

Estar sozinha em um palco faz você perceber o quanto a plateia faz parte do ritual teatral.


Faz você perceber que realmente, você nunca está sozinha em cena.

Que sempre tem alguém ali, ao seu lado.

Ainda existe algum lugar onde pessoas que nunca se viram na vida, podem se sentir juntas, e podem dividir algo juntas. Onde mesmo com toda esse desenvolvimento eufórico da espécie humana, podemos respirar juntos, nos acalmar juntos, e principalmente sentir algo juntos.

É, eu me sinto dividida quando faço uma peça de teatro, mesmo estando só. Junto as pontas do palco com o meu corpo. Junto a energia de todos e distribuo, novamente, para todos.
Me retalho, me junto, e me construo. Me construo a partir do outro, a partir da história que conto e com a história de todas aquelas pessoas, com a história daquele momento.

É realmente fantástico olhar para alguém, e apenas com o olhar daquela pessoa, eu sentir o estímulo para continuar. eu sentir aquela confiança do "continua, vai em frente".

Devo comentar sobre um acontecimento hoje, na estréia: errei o último bloco, as últimas falas do texto. Olhei para o diretor (o William Costa Lima), ele estava sentado no fundo do teatro, olhei para ele meio que pedindo desculpas, meio que falando "ai, que merda errei"
E ele.. me olhou respondendo "continua, merda para você, vai em frente", com um sorriso no rosto.

Eu sorri, e continuei.

A merda que o William me disse, não foi apenas para mim. Foi para o espaço. Para o público. Para o Bruno que fazia a iluminação. Para as cadeiras. Para o teatro, para o nosso tão conquistado teatro.
Merda para nós, que estamos no mesmo barco. merda para quem quer encontrar o outro.

Antes de começar a peça, olhei em volta e sinceramente, me senti em casa. Senti que esse era o nosso espaço, era meu. Minha casa.
Onde eu iria receber as pessoas e contaria uma história.
Onde eu iria colocar os meus filhos para dormir daqui a alguns anos, e sentiria a sensação ao escutar um deles falando "mãe, conta uma história para eu dormir?".
Com certeza, a melhor sensação do universo é receber alguém, em sua casa, para você simplesmente contar uma história. Para você sentar com a sua melhor amiga e falar sobre a vida, sobre os quarenta anos que se passaram e você tem uma longa história para contar, a história sobre a vida de alguem. A história sobre o tempo que passou e como você se formou, até chegar naquele ponto: tomando café com a sua melhor amiga.

Chegamos até aqui. E espero que agora, a gente consiga continuar. Um espaço, uma sede. Peças novas. Conhecer lugares novos e pessoas novas. E por aí, vamos. Juntos. Com o William sorrindo pra mim. O Bruno olhando para mim com aquela fé, a Mayra do lado de fora, respirando por mim, e todas as outras pessoas que fazem parte do Pequeno Teatro de Torneado sentadas ao meu redor, me escutando, acreditando em nós.

Pois então, hoje eu encho a boca para dizer:
merda, para mim, para você.. e para nós.


E principalmente: que seja doce.

Comentários

Mayra disse…
Até chorei.
Morro de orgulho por ter vocês por perto.

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