quarta-feira, 24 de novembro de 2010

"O Veneno do Teatro" ou "Tecnicamente na contra-mão".


Primeiro aniversário coletivo dos meus amiguinhos; ajudei a organizar. Foto em frente a minha lavanderia.

São 3h e 5 min do dia 24 de novembro de 2010 e mais uma vez eu não consigo dormir. Não são noites de insônia e muito menos de um surto quantitativo no ósseo criativo de um artista-criador. É só minha cabeça que não consegue desligar-se de pequenos detalhes. Por ela transitam imagens de paredes que precisam ser pintadas (pois vândalos a picharam no mês passado. Mas, vamos fazer um belo Grafitte, assim, evitando futuras pichações).

Vez ou outra também me vem a imagem de uma “placa-definitiva”, (não consigo definir o seu tamanho e o seu lugar ideal. Pois isso, também poderá gerar um problema com a fiscalização da prefeitura).

Por vezes, ainda sinto o choque de uma “mesa de luz de bunda quente”(expressão técnica utilizada para mesa de luz simples, dessas que ligam direto na tomada). Mesa essa, que aos poucos vai perdendo os seus canais de saída de luz, restam 6 de 12.

Também tem aquela privada, cuja a força da descarga é um pouco frágil, ao ponto de nos obrigar a colocar uma plaquinha na porta com o confuso dizer: “Aqui só Xixi”.

Quando eu deito na minha cama, meus braços demoram cerca de algumas horas até pararem de se mexer, eles acham que ainda é preciso desocupar um espaço, tirar algo e colocar algo… Sucessivamente e sem parar, até a morte dos meus braços... montar e desmontar…

Lá no Teatro Lavanderia, temos um caderno de contas; mas, nem todos os gastos são computados nele. Porque algumas coisas, eu não consigo cobrar, faço por impulso e cobrar não me faria bem, porque eu sempre acho que eu pago por minhas escolhas…

Por exemplo: o porta toalha de rosto de banheiro. Feito de aço, em rosa vermelha. Eu não pensei no quanto poderia ser útil ao adiquiri-lo. Acho que na verdade, só o comprei por ser em formato de rosa vermelha e no momento isso me inspirou esperança e não me imagino cobrando por algo que eu escolhi, sei-lá, temo que dê  azar.

Tem uma parte que eu costumo pensar nela mais durante o café da manhã: os alugueis e as contas. Foi assim que nos últimos meses diminui o número de pães pela manhã. É bem dolorido isso de ter contas pra mim, mas para isso eu também penso ter uma solução, talvez para o ano que vem eu tenha uma solução temporária. Penso em morar no espaço, assim usando o dinheiro que eu usaria para o aluguel da minha casa no meu Espaço Cultural. Por outro lado, temo essas medidas temporárias, pois foi pensando assim, que eu tranquei a minha primeira faculdade e de lá pra cá já se passaram 9 anos e eu não conclui nem o primeiro semestre. Mas, vou começar uma outra no próximo ano e farei de tudo para conclui-lá, eu acho.

Dia desses, andando pelo espaço cênico, machuquei o meu pé em uma chave de fenda. Assustado com o grito que soltei, meu pai, que divide o espaço conosco,  correu para ver o que havia acontecido. E quando ele me viu com aquela ferramenta na mão, num impulso me disse: “É meu! Mas, depois devolve”. Era exatamente isso que eu gostaria de aprender a dizer para as pessoas: “É meu! Mas, depois devolve”.

Não costumo escrever relatos individuais e nem usar o blog do meu grupo de teatro para falar das minhas questões mais íntimas. É que de uns dias pra cá, eu tenho percebido o quanto o teatro e minha vida estão intimamente ligados. Minha mãe não é só mais a pessoa que costura os figurinos. Agora ela também é a senhora que faz a melhor torta de legumes da nossa Cantina, a senhora que lava os banheiros, a senhora que abre e fecha o espaço quando eu saio para trabalhar em outros lugares… O meu pai não é só mais o homem que finge não perceber o meu teatro. Agora, ele é o que faz o café e pega na cara de pau as minhas ferramentas.

Por estar tudo tão junto e misturado, dia desses, sem querer… mas, sem querer mesmo! Eu concertava uma fiação do equipamento de luz e ouvia Chico Buarque. Enquanto isso, meu pai, lia o seu popular jornal de cada dia… Quando foi tocar a música “Construção”, eu decidi passar a faixa, mas antes meu pai interrompeu dizendo que aquela música lhe trazia lembranças. Eu achei engraçado, mas por respeito as lembranças do meu pai, decidi ouvi-lô. Ele simplestente lembrou de quando seu irmão Lázaro da Costa Lima, 32 anos, “morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego” de uma avenida localizada alí próximo. Depois ele também também lembrou que seu irmão caçula, João Batista da Costa Lima, de 17 anos,  também “morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego”. E aí ele fez um silêncio e se orgulhou estranhamente da coincidência dele se chamar João Batista e ter morrido no dia de São João Batista. E ainda, se exaltou mais; ao dizer que em sua homenagem, os moradores do bairro da Saúde, onde estamos situados agora, fizeram uma enorme fogueira de São João. E aí “pequeninamente” meu pai sussurrou: “E foi assim que ele subiu”. Eu confesso que ainda tenho dificuldades em lidar com o meu pai, então me afastei dele para que minhas lágrimas não escorrecem na sua frente(mas, logo essa vontade passou e eu acabei por não chorar).

Num súbito, senti tanto ódio das minha escolhas e tanto arrependimento por estar alí; juntando a Lavanderia do meu pai, que parece nunca dar certo e o meu teatro, que também parece não vingar e sempre ser uma promessa. Porque eu não perco esse costume de misturar tanto as coisas? De abrir tanto aporta? De me expor tanto assim? E eu só conseguia me perguntar: Porque Teatro? Porque Lavanderia?

Quando me veio a imagem da Lavanderia da casa onde morei até os 14 anos de idade; um lugar cheio de coisas que não funcionavam e que serviam de adereços para as complicadas histórias que eu decidia contar na presença das pessoas mais íntimas. Pois não é qualquer que convidamos para adentrar a nossa bagunça.

“Dias de Campo Belo”

Sextas às 21h.

No Teatro Lavanderia (O Espaço do William, da mãe do William, do pai do William… e dos primos Mayra Guanaes, Bruno Lourenço e Beatriz Barros).

Acho que até hoje estive enganado sobre o verdadeiro sentido do nome nosso espaço.

Pense na sua Lavanderia… Na sua bagunça mais íntima… No lugar onde dava para ver o seu lixo e através dele saber um pouco mais sobre você. Entendeu?

O artista é o próprio transito entre vida e obra exposta.

William da Costa Lima.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Em cartaz: Dias de Campo Belo


Sabe quando um dia representa um momento especial para uma grupo de pessoas?
Sabe quando um rosto novo trás aquela sensação de que alguma coisa vai acontecer?
Pois é, depois de duas temporadas em 2009 e viagens pelo Circuito TUSP pelas cidades de Pirassununga, Piracicaba e Bauru, em 2010, o Pequeno Teatro de Torneado, apresenta a peça “Dias de Campo Belo” em sua sede Teatro Lavanderia.
Contamos com a sua presença!
"Dias de Campo Belo"

Dias de Campo Belo conta a história de uma jornada interior, um passeio pelas memórias e sonhos de personagens masculinos que, por al¬guns instantes, tentam modificar o curso de sua existência e colocar em relevo tudo o que passou despercebido.
Amigos, irmãos, primos, pais e avós que, em seus tantos encontros ao longo da vida, tentam voltar às suas raízes e reafirmar pactos, sem perceber a força social e histórica que age sobre as rupturas e pequenas ditaduras cotidianas.

Serviço:

Espetáculo: Dias de Campo Belo
Texto e Direção: William Costa Lima
Temporada: De 26 de novembro a 17 de dezembro
Dias/horário: Sextas às 21h
Onde: Teatro Lavanderia
Av: Miguel Stéfano, 1000 – Saúde Tel: (11) 5071-9861 ou 8634-2385(Reservas)
Capacidade: 40 lugares. * Aceita somente dinheiro e cheque. Acesso universal.
Valor do Ingresso: R$ 20,00(inteira) / R$ 10,00(meia)
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 60 min

*O grupo faz lista de reservas de ingresso, sendo que a reserva somente é garantida em até 20 minutos antes do início do espetáculo. Reservas: 8634-2385

Críticas e matérias sobre a peça:

Twitter: torneado_

 

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Hanshen, parte um de mim.

No teatro também aprendi que o fim existe. O fim de um ciclo. Qual ciclo? Não sei. O nosso, o só meu, o só seu, um ciclo e existem tantos ciclos, sabe.
Um dia ele chegou, aquele cara que dividia a marmita, a cerveja, iluminava palcos e a minha vida, tocava a música e me fazia sorrir, com tudo de louco e insano.
Aquele cara que várias vezes, eu dividi a cena e construí uma nova.
Um dia ele disse que precisava ir embora. E dissemos que ele podia voltar e era verdade.
No começo foi estranho. Era a primeira vez, sabe a primeira vez de alguma coisa? Não dava pra imaginar a vida com aquele buraco.
Ele estava em todos os lugares, em todas as esquinas, em cada doce, em cada texto e em cada marcação.
Mas era necessário algo novo. E por necessidade, não tivemos medo. Abrimos o nosso coração e a nossa casinha e dissemos - Vem, pode entrar, você é novo e você é bem vindo.
E ele entrou.
E ás vezes lembramos desse dia. Começou como quem não queria nada. Eu liguei e disse:

- Oi...sabe o que é? Hoje é sábado. Estou tão sozinha. Não podemos dançar?

Ele disse:

- Comigo? Mas eu acabei de chegar!

E eu não tive medo. E foram momentos doces. 

O garotinho de cabelos ruivos, nunca deixou de estar aqui. Vez ou outra nos encontramos e conversamos e damos risadas.
E o outro garoto também foi embora já, mas sei que vez ou outra também nos encontramos e conversamos e damos risadas.

Antes do segundo garoto dessa história ir embora, outros queridos se foram também. E dessa vez eu sabia lidar com a situação.
Dessa vez eu soube respirar e consegui dividir o bolo de padaria no momento seguinte. E tudo bem.
Dessa vez, não havia um buraco.
Dessa vez eu sabia que só precisámos de um momento, um tempo, para que trocássemos de lugar.

Um dia eu tava numa peça e ouvi alguém dizer "Eu transformo".

E eu resolvi transformar sempre.

Porque a gente só precisa achar o lugar onde conseguimos nos sentir melhor.


Mayra 


(Este texto eu trouxe do meu blog. Escrevi porque é a reflexão de uma experiência que eu gostaria de passar adiante, experiência esta, que me ocorreu em algum momento torneado da vida)



Sobre o sentir e o dançar de um corpo gordo

Sempre achei estranha a vontade que eu tinha de dançar. Durante muito tempo, meu corpo ficou inerte. Fugia das aulas de educação física, ...