sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Severinando


Achei trechos interessantes em 'Morte e vida severina' que servem de provocação para alguns momentos do processo do Peter em Fúria. Coloco alguns trechos para vocês.

(CORO RELIGIOSO)

(pp.42-43)
[...]
Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha,
Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.

Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito à viração.
Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
Se abre o chão e te envolve,
como mulher com que se dorme [...].

(DOS HERÓIS)

(pp. 49-50)
[...]
E não precisava dinheiro,
e não precisava coveiro,
e não precisava oração
e não precisava inscrição.
Mas o que se vê não é isso:
é sempre nosso serviço
crescendo mais cada dia
morre gente que nem vivia.
E esse povo de lá de riba
de Pernambuco, da Paraíba,
que vem buscar no Recife
poder morrer de velhice,
encontra só, aqui chegando
cemitério esperando.
Não é viagem o que fazem
vindo por essas caatingas, vargens
aí está o seu erro:
vêm é seguindo seu próprio enterro [...].

(DAS FAMÍLIAS)

(p. 55)
[...]
Minha pobreza tal é
que coisa alguma posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar
aqui todos são irmãos,
de leite, de lama, de ar.
Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago este papel de jornal
para lhe servir de cobertor
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor [...].

MELO NETO, João Cabral de - Morte e vida severina e outros poemas para vozes - 34. ed. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994. (Renumerado, os grifos são nossos)

domingo, 23 de outubro de 2011

Cálice, cavalo, fogo e menino


A primeira peça que assiti na minha vida foi Macunaíma, direção de Antunes Filho, texto de Mário de Andrade. Ali nasceu minha paixão pelas artes cênicas e pelo ator. A interpretação de Cacá Carvalho - depois assisti com o não menos interessante Tonico Pereira - em Macunaíma era, como diria Artaud, encantatória. Não quero aqui, agora, escrever os outros momentos encantatórios que tive no teatro. Quero apenas postar uma das lições mais lindas sobre a ARTE DE SER ATOR. E quem fala é o ator mais impressionante, por sua disponibilidade, por sua entrega e inteligência, que eu já vi em cena: Rubens Corrêa. Ser humano que eu tive o privilégio de conhecer pessoalmente. Um texto para inspirar meus alunos e todos os jovens atores.

Cálice, cavalo, fogo e menino"Fui convidado para conversar com vocês sobre o ator; sei que muitos aqui jamais representaram, e outros deram apenas os primeiros passos neste caminho labiríntico que é o mundo da interpretação. É uma tarefa que exige de mim sensibilidade e coragem; acho uma grande responsabilidade falar aos jovens, e é com muita emoção e prazer que passo adiante as humildes sementes do meu trabalho artístico, com a esperança de que alguma utilidade possa ser encontrada nelas e que de alguma maneira elas possam lhes tornar a caminhada menos solitária e mais solidária, na medida em que esta receita muito pessoal provoque dúvidas e reconsiderações, ou toque o sagrado dentro de cada um de vocês, ou reacenda aquela esperança cega que Prometeu garantiu ser a conquista mais urgente para a sobrevivência do homem neste planeta.
O grande poeta e dramaturgo alemão Büchner escreveu numa cena de sua peça "Woyseck": "Cada ser humano é um abismo e a gente tem vertigens quando se debruça sobre um deles."

Acho que nós atores somos duplamente esse abismo-espelho: como seres humanos e como artistas. Nossa missão é provocar vertigem e o revisionamento do abismo dentro de cada espectador, para que depois de cada mergulho em nossos personagens-propostas essas pessoas pensem, se emocionem, compreendam e amem com nova e maior intensidade.

Eu, Rubens Corrêa, ator e artista de teatro, vinte e oito anos de profissão, e séculos e mais séculos de um longo período não sei onde, ofereço a vocês com apaixonada humildade o meu aprendizado nesta caminhada em cima das brasas sem se queimar que é a condição necessária para poder representar e viver com algum significado neste nosso bizarro país sul-americano.
(...)


O CÁLICE
Representar para mim é a possibilidade que me foi dada de me comunicar com o meu semelhante através de uma troca de idéias, imagens, palavras, gestos e emoções. Um divertido, fascinante, e muitas vezes cruel jogo que mistura ficção e realidade, consciente e inconsciente, sagrado e profano, amor e ódio, vida e morte. Uma Paixão.

Através dos anos venho elaborando em cima das tábuas o meu trabalho, tentando sempre o difícil equilíbrio entre as conquistas técnicas e a simplicidade da execução. Aqueles instantes, todas as noites, em que represento um papel, são sempre os melhores momentos do meu dia. Isso quer dizer que levo para o palco meus sentimentos, minha idéia, minhas alegrias, meus abismos, meu horror e minha luz. Diariamente filtro essas emoções através das necessidades de cada personagem, e recebo de volta para mim mesmo uma nova compreensão de meus problemas - e acrescento ao personagem um novo enriquecimento conseguido "à quente", quer dizer, arrancado de dentro de mim mesmo.

Com o correr dos anos fui aprendendo a me observar como artista e ser humano, e fui tentando aproveitar em meus desenhos interpretativos a linguagem interior de minha vivência pessoal, para conseguir assim essa difícil união entre arte e vida, que foi sempre a minha grande aspiração.

Sempre acreditei que cada ator traz consigo um material fantástico, inimitável e único, muito difícil de ser conservado e desenvolvido nesta nossa era brutalizada e massificada.

É um cálice de cristal interior, que deve ser preservado e defendido através de muitos terremotos, muita contrariedade, muita decepção e sensação de abandono, mas com momentos também de enorme luminosidade que quando acontecem recompensam o artista e engrandecem o ser humano.

Cada ator é único e inimitável se ele mergulha com honestidade em si mesmo, e retrata o seu semelhante com generosidade, verdade e paixão. "Somos feitos da essência com que os sonhos são feitos" escreveu Shakespeare, e essa é a melhor definição que conheço sobre o mistério da representação.


O CAVALO
Cada ator tem obrigação de zelar e desenvolver o seu instrumental – sua voz, seu corpo: seu cavalo. Devemos transformar nosso corpo num grande arquivo de imagens com possibilidades de serem utilizadas em nossos futuros personagens; nossa voz deve poder miar, rugir, gemer, uivar – nossas mãos podem ser galhos de árvores, garras de feras, folhas secas ao vento – nossos pés, colunas de um templo, patas de animais. Nossos olhos devem poder reproduzir o enigma do olhar da esfinge, e a clareza cristalina de um poema de Brecht.

E mais, devemos nos preparar para poder receber com artística mediunidade a alma do mundo, as grandes interrogações do nosso tempo, a voracidade deste universo em constante transformação.

Devemos ser suficientemente fortes para poder reproduzir simultaneamente a maravilha e o horror do ser humano, a criatividade e a autodestrutividade de nós todos, homens, através desta difícil caminhada da vida.

O nosso cavalo deve então se preparar para poder assumir todas estas formas, e por isso ele tem de ser constantemente reabastecido e renovado.

O cavalo é também o estimulador de nossa energia, o conservador de nosso entusiasmo e de nossa fé; quando as crises vierem (e não tenham dúvida de que elas virão), nada melhor do que trabalhar na fortificação do cavalo, porque no mínimo estaremos crescendo durante a crise, estaremos trabalhando e temperando novas energias, adquirindo novas técnicas, novos conhecimentos. Podem ter certeza de que um bom cavalo torna o ator indestrutível.


O FOGO
O fogo através do tempo sempre foi o símbolo vivo da fé, do entusiasmo e da rebeldia; mantê-lo aceso dentro de nós é também um trabalho para a vida inteira. O fogo nasce de um estado de curiosidade natural e instintivo e pode ser desenvolvido através da conquista progressiva de uma cultura geral, de uma observação apaixonada da história do homem, da história de todas as artes, da emocionante história do teatro – e um profundo sentimento de observação do ser humano – aqueles para quem realizaremos nossas mágicas, o nosso público. Esse fogo interno, uma espécie de grande rol central de energia e fé, é uma grande defesa contra a acomodação, e me parece ser a grande mola propulsora da criatividade; devemos estar sempre atentos aos seus chamados, e é preciso não deixar nunca, custe o que custar, esse fogo esmorecer, porque, caso isso aconteça, seremos os artífices de uma arte morta, sonâmbula, inútil, feia e resignada.


O MENINO
A recuperação da liberdade da infância através da vida adulta foi sempre uma das minhas metas; a criança é uma fonte incrível de informação artística - e a criança que nós fomos recuperada através do nosso lado lúdico tão atrofiado pelo correr dos anos – pode nos servir de guia, mas um guia muito especial, que caminha alegre e despreocupado, que sabe descobrir o mágico dentro do cotidiano, intuitivamente

Um grande exemplo da presença do menino dentro de um artista está na figura e na obra do pintor Pablo Picasso. "Eu não procuro, eu acho" afirmava o grande pintor. E essa fala denuncia o menino que Picasso levava dentro de si, que pintava cerâmica usando como base para o desenho a espinha do peixe que tinha comido no almoço, ou fazia fantástica escultura aproveitando uma roda velha e quebrada de uma bicicleta encontrada na estrada durante seu passeio matinal. O menino traz alegria e descompromisso racional para o trabalho artístico. No Passeio Público do Rio de Janeiro tem um menino-anjo esculpido num bebedouro (se não me engano de Mestre Valentim) com a seguinte legenda: "Sou útil, inda brincando". Essa é a lei e a sabedoria dos meninos.

Acho que preservando o cálice, domando o cavalo, estimulando o fogo e soltando o menino, o artista está preparado para viver e criar uma vida bela e uma obra útil para a coletividade.

Esse texto - aula inaugural da Cal - Casa das Artes de Laranjeiras - você encontra na íntegra, nos Cadernos de Teatro, nº100, Tablado, RJ, 1984.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Peter em Fúria

O Pequeno Teatro de Torneado decidiu iniciar um novo processo neste domingo, dia 24 de julho de 2011.
O processo é do espetáculo "Peter em Fúria", peça que já havíamos começado a montar nas aulas de teatro com um grupo de alunos da ETEC de Itaquera.

Porém, devido a certas circunstâncias que surgiram ao longo do curso (como muitas pessoas saindo, a não continuação das aulas de teatro como curso extra curricular da escola, etc.) e devido ao processo de consolidação de um subgrupo de alunos da ETEC remontando o espetáculo "Primavera", o processo do "Peter em Fúria" ficou de lado.

Nesse domingo, porém, decidimos voltar. Além das pessoas que montavam essa peça, resolvemos convidar mais algumas pessoas. Aí está a novidade:

Convidamos pessoas que conhecemos a muito tempo, e que queremos trabalhar a muito tempo. Pessoas que sempre assistem as nossas apresentações, e sempre fazem críticas muito pontuais, provocadoras e carinhosas dos espetáculos. Convidamos pessoas que nós admiramos, e sentimos que somos admirados também.

No domingo, contamos vinte pessoas na sala. Ainda faltam umas dez, por aí. Esse processo contará com um grande elenco, e explicamos para todos o motivo que queremos um grande elenco.

Explicamos o que é o espetáculo, como ele foi criado, como ele se desenvolveu, quais são as nossas metas, como iremos trabalhar e lemos muitas cenas da peça, testamos as vozes dos novos e velhos atores, onde cada um se encaixa melhor e se sente mais a vontade.

"Peter em Fúria" será uma montagem que falará sobre a criminalidade em comunidades carentes, sobre a formação de um indivíduo durante o seu crescimento em meio a esta criminalidade e a ausência do estado em assumir uma postura clara sobre a violência na parcela civil da sociedade.

A partir da história "Peter Pan e Wendy" escrita por J. M. Barrie, "Peter em Fúria" traça um paralelo entre as personagens e as relações do conto inglês com as personagens que moram e as relações que existem na favela.

Processo novo, gente nova, espetáculo novo. Todo domingo nos encontraremos, e a ideia é estrear na Mostra FRINGE, do Festival de Curitiba.

Pois então, muita merda para nós.

sábado, 23 de julho de 2011

Por andam os Vilelas? Continuação... O Retorno de Tábata em "O Girador""


Essa postagem só será entendida se antes dela você tiver lido a postagem anterior, pois trata-se da continuação de uma conversa sobre a memória na pesquisa a "Dramaturgia dos Moleques".

 Sobre a menina Tábata Vilela








Ilustração da menina Tábata, criada durante o processo de "Boca Pequena"



 
Falar sobre Tábata é exercitar a minha capacidade de não exagerar. Mas, Tábata me instiga o exagero! Tábata era daquelas crianças genias, que parecem mini-adultos. E estou falando de adultos inteligentes e críticos. Tábata era daquelas crianças que sempre vinha com uma pergunta que exigia, no mínimo, o seu constrangimento para ser respondida.

Para se ter noção, durante o processo de criação do exercício "Boca Pequena", chegamos no assunto 'medo'. E Tábata mencionou com muita serenidade de que, entre todas as coisas que a fazia temer, nenhuma delas era mais forte do que o "relógio de ponteiro". Todas as crianças ficaram apreensivas à fala da menina Tábata e, no final, com os olhos cheios de lágrimas, certamente inspiradas pela fala de Tábata, uma das crianças - a menina Alice Kaio - disse: "Eu também tenho dessas coisas de morrer".

Trecho da fala da menina Tábata; no final de "Boca Pequena":


"O relógio tem dois ponteiros; o menor parece correr do maior. Tem um que é bem fininho e corre muito, pra esse eu nem ligo... Pra falar a verdade eu só tenho medo daquele que a gente escolhe onde fica. Eu tenho medo de escolher a hora errada pra despertar. Você já acordou antes da hora que devia? Ai, da uma agonia parece que a gente não tem nada pra fazer a não ser esperar a hora certa de acordar...".


 Tábata e seus amiguinhos, em cena do exercício cênico: "Breve História de amor aos que pretendem se tornar: Reis, Rainhas e até mesmo Homens Pulga"


Em Dezembro de 2007, Tábata foi mandado para o interior de São Paulo.


Ali, me ficou claro que um dos primeiros norteadores dossa pesquisa pedagógica com crianças seria o 'como' as crianças lidam com seus primeiros medos. A morte é tema recorrente na vida e no teatro também não deixaria de ser. Graças à profundidade de crianças como Tábata, a "Dramaturgia dos Moleques” também passou seguir o fluxo da vida em seus primeiros instantes, onde a consciência da morte ainda é algo menos palpável e misterioso. E o que seria adquirir essa consciência? Crescer?


Desde 2005, que o Pequeno Teatro de Torneado vem sendo inspirado pelo sutil contato com crianças e adolescentes. Investigar a memória tem sido uma das maneiras de contribuirmos socialmente para que cada indivíduo envolvido em nosso projeto possa entender um pouco mais sobre essa história de "autonomia e liberdade". Pois, acreditamos que a autonomia de um ser só acontecerá no momento que ele souber contar a sua própria história. Compartilhar uma história com alguém é criar um lugar em comum (comunidade). 


Dia desses, a atriz Beatriz Barros, que estagiava durante o processo de aulas para crianças de 2007, também se lembrou da menina Tábata Vilela. Lembrou-se de uma das histórias sobre Tábata, que sempre fazemos questão de recontar. E hoje, uma dessas memórias está viva, presente em forma de dramaturgia no novo espetáculo do grupo "O Girador":


A seguir, uma das muitas memórias relatadas na dramaturgia do espetáculo: "O Girador".(Trecho escrito pela atriz Beatriz Barros).

Tábata sempre gostou de cavalos, mas morava em São Paulo.
A primeira vez que viu um cavalo foi na TV, sempre pomposo, andando por um grande campo de grama verde.
A partir daquele instante, após uma imagem que durou no máximo cinco segundos se movimentando em câmera lenta, Tábata decidiu que o amor da sua vida seriam os cavalos.
Logo após isso, saiu correndo para sua mãe e disse:
- Mãe, eu quero ver um cavalo!
E a mãe, que entendia que crianças quando assistem televisão sentem vontade de querer todos os produtos que são mostrados, disse a sua filha:
- Qualquer dia desses viajamos para o interior, e aí eu te mostro um cavalo.

Tábata, porém, percebeu com o tempo de que o "qualquer dias desses" nunca se aproximava.
Então, Tábata começou a exercer o seu poder de argumentação.
A mãe, que não aguentava mais ouvir a voz de sua filha falando continuamente e de maneira empolgante e estridente sobre cavalos, resolveu acabar de vez com esse problema: dar um livro, com todos os tipos de raça de cavalo que existem no mundo para Tábata.
E a menina, que não se satisfez com o livro e queria mesmo era ver um cavalo de verdade, optou por impressionar a sua mãe, e tomou uma decisão astuta: decorar todos os tipos de raça de cavalo.
A fama veio, a metrópole inteira ficou sabendo de uma pequena garota que sabia centenas de raças de cavalo, de cor e salteado.
Viajou para vários lugares, foi em diversos programas de TV, exibiu seu potencial de gênio e sua capacidade de lidar com a sua mente, uma prova de superação eu diria.
Porém, em todos os lugares, em todos os programas que Tábata ia, sempre perguntava:
- Senhor, produção, vocês podem trazer um cavalo para eu ver, no dia que eu apresentar?
E todas as figuras influentes diziam que sim.
Porém, quando chegava a hora do encontro, o cavalo sumia, não podendo comparecer ao palco, pois não tinha condição ou coisa do tipo.
Depois de um tempo, Tábata decidiu não ir mais a programas, não falar mais com estranhos e tambem resolveu não falar mais sobre cavalos.
Porém, um dia, depois toda a era de transtorno que havia passado, resolveu ir até um parque.
Quando chegou lá, ficou sabendo que, algumas horas antes acontecera uma feira de cavalos!
Tábata saiu correndo pelo parque desesperada, procurando algum cavalo ou potrinho perdido.
Depois de muito tempo correndo de lá pra cá, e não ter encontrado nada, parou, sentou-se e ficou quieta, tentando conter sua respiração.
De repente, quando olhou para o seu lado, no banco do parquinho, viu uma daquelas escovas que se usa para pentear as crinas e os pelos dos animais. E entre as cerdas da escova, tufos de uma crina branca e prateada de um cavalos
Tábata pegou a mecha do cabelo do cavalo. Cheirou, passou em sua pele do rosto, e engoliu, como se fosse a sua primeira e última refeição na vida.
Depois, foi-se.
E a escova permaneceu, sentada no banco. 




Professor William





Por onde andam os Irmãos Vilela?

No Pequeno Teatro Torneado é meio assim que as coisas acontecem: " temos, por mania, o costume de lembrar das pessoas". Lembramos das pessoas que nos foram fáceis e também lembramos de pessoas que nos foram difíceis. E, também, existem aquelas que nos foram impossíveis de mantê-las por perto. E essas sim, ainda nos pesam e talvez sejam os maiores responsáveis por todo o nosso exagerado senso crítico.

Mas, nesse momento, o que está mais latente em minha cabeça é a doce lembrança de tudo que aconteceu desde março de 2005. Foi aproximadamente nessa data, nas dependências do Colégio Terra situado no Bairro da Saúde, que o embrião do Pequeno Teatro de Torneado, "O NÚCLEO MEU OLHO-MEU MUNDO DE PESQUISA CÊNICA", começou a ser gerado.



Primeiro logo do projeto


Ainda tenho em minha memória o nome, a voz e o cheiro de cada aprendiz. Entre todos os aprendizes, existem três impossíveis de não serem lembrados, até porque se tratava de uma família de aprendizes. São os Irmãos Vilela: Erick, Luís e Tábata. 

Sobre o menino Erick Vilela

Sempre lembro da natureza violenta do Erick. Das vezes que tentou "matar" seus amiguinhos e professores, do seu nariz sangrando no dia de sua primeira apresentação (devido a soco que levou, minutos antes da apresentação, de um dos meninos da 8ª série). 

E o principal sobre o menino Erick: Sempre me lembro do respeito que ele tinha por mim. Das vezes que eu pedia calma para ele. Também tenho a memória viva de minha mão sendo apertada por ele, para que assim ele pudesse exaurir de uma vez toda aquela fúria. 

Para mim, Erick nunca foi uma "garoto problema" e ouso dizer que, junto a sua irmã Tábata, é uma das mentes mais profundas que já conheci. 
 
Exercício cênico: "A Incrível Saga"
Cada uma das pontas é formada por um irmão Vilella (Para se manter um pouco de ordem era fundamental a distância entre eles). 

O menorzinho de todos é o Luís e Erick é esse0 que, na foto, está com os pés longe do chão porque era assim que ele se sentia bem.


A garota em cena é a doce Simone Jaeger (outra aluna de uma família, que são alunos das oficinas até os dias de hoje).




O menino vestido de carteiro era o "bagunceiro" do Gustavo Aquilles.


Em Dezembro de 2005, Erick foi mandado para o interior de São Paulo.
 
Sobre o menino Luis Vilella


Luis era o meio dos irmãos e o meio termo entre Tábata e Erick. Luis não tinha cara de gênio e nem palavras de gênio. Luis sabia assistir uma bagunça como ninguém. Admirava cada travessura de seus irmãos. Luis tinha uma característica principal que o diferenciava muito de seus irmãos: "Luis gostava de abraçar". E Luis tinha braços fortes, um tronco largo e sempre que podia estava lá: abraçando amiguinhos, professores, me abraçando... 


Sempre que olhava o Luis; eu pensava: "Quero um filho assim; nem gênio, nem bobo e que viva procurando meios de rasgar seu uniforme". 




Desenho feito por Luis, aos 9 anos, para o processo de seu Segundo exercício cênico: "Boca Pequena"




Em Dezembro de 2006, Luís também foi mandado para o interior de São Paulo.



PS: Ainda não falei sobre a menina Tábata e já alcancei o limite dessa postagem. Portanto, continuo essa conversa sobre os irmãos Vilelas no próximo post.



"Professor" William

A sala de aula e o que diz o não silêncio.



Entrar na sala, ver alunos de sete a quatro anos mais novos que a minha pessoa, e eu, com aquela insegurança do tipo: "será que eu tenho capacidade de ensinar alguém?"
Olhar para o Bruno e pro Will. Eles sentam, eu sento também. O Will fala, eu escuto com olhos de aluna de quem aprende a dar aula, de quem aprende como conduzir as palavras e a fala para centralizar a atenção e produzir a calmaria no ambiente.
os alunos vão parando, aos poucos, escutam o silêncio. O Will diz:
- Não vou falar enquanto tiver gente falando.
E então todos se calam. E começa o ritual da escuta e da palavra.
De fato, dar aula não é fácil.
Não estamos acostumados a nos calarmos e escutarmos alguém, não estamos acostumados com o tempo da fala do outro, com o tempo da nossa própria fala, não sabemos qual o nosso tempo individual.
É complicado desenvolver tudo isso em um projeto educacional.
Como reproduzir uma compreensão sobre o tempo do outro?
Como planejar um projeto ao qual o outro se escute, se entenda?
Sou uma estudante de ciências sociais. Estudo constantemente o movimento de massas, a organização social, a forma como a sociedade se planeja e se orienta, o sistema, os grupos, os subgrupos, as relações humanas.
Estudo também o movimento de cada indivíduo consigo mesmo, a organização dentro de si, a forma como o indivíduo se planeja e se orienta, os sistemas de cada um, os grupos que cada um escolhe para se envolver, os grupos e os subgrupos que cada um se relaciona dentro de si e na forma externa.
E a contradição mais bela que eu já me deparei foi: como falar "está tudo bem, calma, respira e escuta" para alguém que só escuta os seus colegas de classe. Como falar "ei, eu to aqui" ou "ei, ele tá aí" ou "escutem o silêncio de cada um" sem gritar, sem falar, só deixar claro que precisamos nos escutar no silêncio.
O corpo fala. O teatro transpõe a fala do corpo. O teatro, a arte move o corpo individual de cada um.
É como ressuscitar a criação de cada um. A família de cada um. Os hábitos tradicionais de cada um.. e a junção, a mistura, a dor de um com a alegria do outro se consomem no palco.
 De fato, as minhas dúvidas são geradas pelos alunos. Uma vez no ensino médio zombaram da minha pessoa por falar duas palavras na mesma frase, as palavras eram: coletivo e indivíduo.
Hoje pergunto, ainda com uma dúvida que me assombrava e continua permanente dentro de mim: como ressaltar os anseios de um indivíduo dentro de um coletivo?
As dores, as alegrias, as travas, os preconceitos de um indivíduo estão interlaçadas por totalidade com o coletivo.. e como educar este indivíduo com todas as suas "limitações"?

De devaneios em devaneios, caio dentro de uma turma, de uma sala de uma escola pública que me permite a constante provocação de ser provocada e de provocar. E o principal aprendizado é este: o dos constantes crescentes.
Somos cavalos pesados, e todos queremos voar.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Por que não postamos no blog com tanta frequência?


Dia desses, em uma de nossas reuniões, a questão da frequência com que postamos no blog foi mencionada. Era tanta coisa em pauta para ser discutida que até esquecemos de chegar a uma conclusão sobre essa questão. Sem desprezo à internet, mas acho que não postamos com tanta frequência por um simples motivo:


Estamos extremamente ocupados com nossas atividades, que são experiências práticas. Mesmo assim, já arrisco dizer que em um futuro próximo essas experiências irão fundamentar textos mais ricos, onde compartilharemos o mais interessante de nossa experiência. Essas nossas atividades são:



Ocupação da Escola Estadual Maria Ribeiro (Desde abril de 2010).
Ocupamos essa escola com as seguintes atividades:


*"Oficinas de teatro; dança e música".
Para 300 alunos do ensino Médio e Fundamental.


*Apresentações dos espetáculos do repertório do Grupo para todos os alunos; tanto no espaço da Escola, como em nossa sede do Teatro Lavanderia (situada próxima da escola).




Espetáculos apresentados para a escola:

"Menina de Louça"
"Dias de Campo Belo"
"Refugo"
"Primavera"


Gestão e produção do Teatro Lavanderia(Desde março de 2010): 
* Temporada dos espetáculos (Formação de público e diálogo com o bairro da Saúde):
"Dias de Campo Belo"
"Menina de Louça"
"Refugo"
"Primavera'


* Ensaios de todo o repertório do grupo e dos novos processos do grupo como; "Gritar Por Cida" - "Girador", "Celofane", "Peter em Fúria"  e "Épico Feijão".








Cenas do experimento "Gritar Por Cida"
Apresentado durante o Festival Nacional De Cenas Curtas Do Grupo Galpão em Belo Horizonte-Junho de 2010














A seguir fotos de cenas do experimento para crianças: "Épico Feijão"(apresentado em creches públicas em maio de 2010)



















Viagens para apresentações fora da cidade de São Paulo:
Bauru, Piracicaba, Pirassununga, Belo Horizonte e Guarulhos







 Foto da aula realizada durante oficina "A Dramaturgia dos Moleques", realizada durante a  estadia do grupo na cidade de Bauru (TUSP).
Abril de 2010








* Aulas de Formação de novos atores e para a pesquisa "A Dramaturgia dos Moleques"


*Ensaios e temporadas de outras Cias de Teatro:
 Cia da República
Teatro Mambembe de Repertório
Sob Clows
Teatro das Estações











Cena do espetáculo "Estéril"do Teatro das Estações, que cumpriu temporada de um mês no Teatro Lavanderia.




 

Por fim, sendo bem sincero: "Estamos Exaustos!". 
Otimistas com o futuro e atentos ao vencimento do aluguel (que não para de vencer).


Estamos em um momento de transição do grupo, onde só agora entendemos que somos sim um coletivo em busca de uma simples e rica rede de conversação entre: escola, arte e sociedade. Por isso, estamos - cada vez mais - entendendo que a maturidade artística, que tanto queremos alcançar, depende da profissionalização de nossos integrantes e de seus meios. 

Assumir uma meia-sede (porque dividimos SIM o espaço com uma Lavanderia), vem nos trazendo um aprendizado; ao ponto de, até mesmo, abdicarmos de coisas comuns aos jovens pois, sempre que pensamos em beber uma cerveja, lembramos: "Temos um aluguel pra pagar". E assim, lá se vão 18 meses...


Por outro lado, essa nossa "escolha" nos deu a opção de estudar, ler e nos politizar cada vez mais. Hoje, entre um sufoco e outro, sabemos que enquanto ouver suor de nossa parte, teremos o que comer e onde cairmos VIVOS. Em breve esse post não vai passar de um embrião, porque nossa vontade não é "ser", e sim "existirmos" dentro de uma liberdade. E, para sermos livres, precisamos de um pouco mais de espaço. Portanto, bora trabalhar que somente assim o "amanhã vai ser outro dia"!


Um poema para dar um carinho ao nosso cotidiano:



Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas
mais que a dos mísseis.
Tenho em mim
esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância
de ser feliz por isso.
Meu quintal
É maior do que o mundo.


Manoel de Barros

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Sobre o processo do Desapego (ou até mesmo relembrando o nosso apego)





As meninas do Torneado

Lembrei-me da Mayra esses dias. Da risada dela, para ser mais clara. Lembrei-me de quando ela me irritava e ficava rindo na minha cara mesmo, enquanto eu ficava vermelha de raiva. É muito estranho às vezes perceber que só estamos nós três agora.

Sei que em certos pontos a saída dela foi boa, porque foi uma opção dela. Sempre lidamos com isso bem, pra falar a verdade acho que contamos nos dedos às saídas que menos foram desgastantes para ambos os lados, e acho que a da Mayra foi uma delas.

Mas isso não impede que a gente não sinta saudade. Tanto das saídas conturbadas até as mais calmas, sempre relembramos das pessoas que passaram pelo Torneado, e a Mayra tem me dado uma saudade muito grande esses dias. Sinto falta de falar de assuntos femininos com ela, de poder falar sobre absorvente e reclamar que ela se maquiava muito mal. E não apenas esses assuntos, mas de tudo, da companhia, da organização, do jeito dela.

Sinto muita saudade dela. Hoje em dia somos nós três. Estou mais próxima do Bruno nos últimos tempos graças ao projeto de uma peça nova que estamos montando, e do Will sempre fui muito próxima. Mas é engraçado como ela vem e volta sempre, em alguns momentos que estou dentro do teatro. Não escuto a voz de ninguém reclamando, falando algo de ordem de organização, ou falando coisas engraçadas que só ela falava. Isso bate um vazio que é preenchido de outra forma.

Às vezes até acho que não falo muito sobre esse assunto com os meninos, porque sinto que isso me machuca um pouco. Devo assumir admitir que eu, de fato, sinto muita saudade da Mayra. E durante esse tempo começamos a ensaiar o espetáculo “Primavera” com o novo elenco: os alunos do Will da ETEC de Itaquera.

O “Primavera“ é uma peça que fazemos desde 2006-2007. Não sei ao certo desde quando, sei que eu comecei a fazer o Prima em 2007. O Pequeno Teatro de Torneado se consolidou quanto grupo com esse espetáculo. Muitas pessoas passaram por essa peça. Foram diversos elencos que constituíram os oito personagens do “Primavera”.

Resolvemos trocar o elenco por vários motivos. E aí entraram oito novas pessoas, que nunca tiveram feito uma peça de teatro, que se mostraram disponíveis pra isso. Ensaios de domingos e alguns durante a semana e, depois de um tempo, entramos em cartaz.


No dia da reestreia do “Primavera”, a Mayra foi assistir. Sentei de frente pra ela, com Mariana e com Bia ao meu lado (outras integrantes do grupo que fizeram parte do elenco). Nós quatro choramos de saudade, só faltou a Heloisa Evelyn pra relembrar as Primaveras passadas. Como foi forte a sensação de ver o que eu fazia quando tinha quinze anos até os dezoito anos, de assistir o ritual com as pessoas que faziam o ritual comigo. Foi ótimo ter essas pessoas perto de mim, principalmente a Mayra, por demonstrar que esse evento fazia parte da vida dela assim como da minha.


Antes de a peça começar, ela entregou um pão de mel para cada pessoa do elenco e da produção, com um bilhetinho escrito “Obrigada por cuidar dos meus filhos. Que seja doce. Ass.: Tia Eufêmia”. A tia Eufêmia é uma personagem da peça, como se fosse uma tia da cantina da escola, ou coisa do tipo. A Mayra no espetáculo fazia uma personagem que era muito amiga da minha personagem. Eu era a Théa e ela era a Martha. E acho que isso reverberou um pouco pra nossa relação.


No começo, quando entrei no grupo, eu não era amiga dela. E durante muito tempo demorei a me aproximar dela devidamente. Acredito que nossa amizade fez um caminho muito sincero. Somos muito diferentes uma da outra, assim como a Martha e a Théa, e admito que o fato de fazermos personagens muito amigos nos aproximou na vida real. Ensaios paralelos com novas Wendla’s, muitas cenas juntas, muitas conversas do que chamávamos de “conversas de meninas”.

Posteriormente durante essa temporada do “Primavera” eu, o Will, o Bruno e a Bia Cavalcante entramos em cena em duas apresentações. Sabe aquela sensação de lembrança constante de algo que já passou? Eu senti isso a todo momento. Foi uma experiência valiosíssima de desapego.

O teatro é maior que tudo isso que eu estou falando, e para nós atores nos resta a memória do que esse ritual nos proporcionou. A memória dos ensaios, do convívio, da comida dividia, do momento do espetáculo, do momento em que somos maestros em cima de um palco com uma plateia, nos olhando, como se isso fosse o nosso último suspiro da vida.

A Mayra faz parte da minha memória teatral. Assim como a saudade que a sua ausência me trouxe quando ela saiu do grupo, e todas essas pessoas que me rodeiam estarão presentes na minha memória, no meu corpo. O “Primavera” é meu, é nosso, é do público que assistiu e é do público que assistirá e dos atores que passaram e passarão. Como Bruno uma vez disse, uma obra de arte é maior que tudo, e essa obra de arte está acima do que qualquer posse de um ser humano.


Aprendi extremamente com essa ultima temporada. Aprendi a me acalmar, a desapegar, aprendi a não comparar um ser humano com o outro. As pessoas são diferentes, os coletivos são diferentes. As histórias podem ser parecidas, talvez sim, talvez não. Sei lá. Eu tenho dezenove anos. Tenho dois amigos, parceiros e companheiros de estrada que me suportam e são uma base, uma coluna e e um teto pra mim, tenho um teatro e um grupo de teatro que decidi dedicar como meu projeto de vida. E com isso tenho pessoas indo, vindo e ficando nesse teatro. Algumas sentam, tomam um café e vão, outras ficam.


É esse o movimento. Não quero saber de nada, mas também não quero saber de tudo. Nos últimos tempos tenho pedido calma e oxigênio pra conseguir respirar, mas nada demais. Nada pelo fato de eu estar em crise, não estou em crise. Estou muito feliz, de ver que o Torneado tem uma história de pessoas.


Uma vez o Will tinha comentado que a Mayra era uma das minhas grandes melhores amigas. De fato, hoje eu percebo que ela é sim.

Beatriz Barros

sábado, 14 de maio de 2011

Primavera no Outono...

 
 
Reestreia do espetáculo "Primavera"

O tempo tem sido curto e duro demais.
Talvez estejamos precisando de um respiro e de um olhar para dentro.
Falamos do "encontro com o outro" e, por isso, vamos propô-lo a vocês.

Queridos,
Essa é a nossa forma singela de convidá-los para a reestreia do espetáculo "Primavera" - releitura da obra do dramaturgo alemão Frank Wedekind (O Despertar da Primavera).

Concebido como primeiro resultado coletivo do Pequeno Teatro de Torneado, "Primavera" estreou em 2008 na mostra FRINGE do Festival de Teatro de Curitiba.

O espetáculo funcionou, de certa forma, como a estréia profissional do Pequeno Teatro de Torneado.
Dessa vez, após 3 anos de compromissos, sendo dois anos sem temporadas do "Primavera", decidimos passar a peça para os novos atores do grupo.

Após as 'Oficinas Permanentes do Pequeno Teatro de Torneado' passar pela zona leste de São Paulo, jovens e adolescentes da ETEC de Itaquera remontam o espetáculo em 2011.
Esperamos que vocês possam estar juntos conosco, compartilhando do nosso café e presenciando esse novo ciclo que começa.

Que seja doce!

Serviço
Temporada: 14/05 a 12/06 - Sábados e domingos às 18h
Endereço: Teatro Lavanderia, Miguel Stéfano, nº 1000 (Metrô Saúde)
Ingressos: R$ 30 (inteira) R$ 15 (meia)
Lotação: 30 lugares
Duração: 180 min (Com intervalo de 15 min)
Indicado para maiores de 12 anos
Maiores informações:
www.torneado.blogspot.com
Reservas: (11) 8634-2385
Não aceitamos cartão
Não possui estacionamento
Acesso universal
Ficha técnica

Espetáculo: Primavera
Dramaturgia e direção: William Costa Lima
Dramaturgos colaboradores: Bruno Lourenço e Mayra Guanaes
Assistência de direção: Bruno Lourenço
Figurinos e adereços: Laís Lima
Iluminação e cenário: Bruno Lourenço e William Costa Lima
Produção: Daiane Domingues
Assistentes de produção: Águida Carolina e Beatriz Barros
Fotos: Sylvia Sanchez
Elenco: Amanda Canival, Ana Bueno, Higor Nayde, Pablo Juan, Rafaela Andrade, Tailice Paloma, Thiago Andrade e William Paganini.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Três anos

Se fosse nesse tempo, hoje já seríamos Torneados. Já teríamos voltado de Curitiba com a impressão de tarefa cumprida e novos desafios à frente. O promissor grupo de teatro jovem, tão abalado financeiramente e emocionalmente, voltaria para a terra natal e montaria novas primaveras. Se naquela época fôssemos uma flor, hoje estariamos despetalados.

Mas flor não éramos.

Fez três anos que o Torneado começou de verdade. Costumamos falar que começamos no "Meu Olho Meu Mundo", mas o projeto começou lá. O Torneado foi depois. Assim como o Primavera é um filho do Torneado, o Torneado é um filho do "Meu Olho Meu Mundo". Torneado é hoje.

Torneado me lembra furacão.

Muitas pessoas passaram por nossas cirandas, estrelas e cantigas. Muita marmita já ficou azeda. Hoje é difícil assumir responsabilidades maiores, outrora extratosféricas. Mas já sabemos algo de auto-direção. Aprendemos na prática o que muita gente só sabe teoria. Perdemos a virgindade teatral e, se estamos (perdão) fodidos, com certeza não é sem amor.

Foi-se o tempo do amor.

Mas pra mim ainda não foi. Pra muita gente foi, mas pra mim ainda não. E se for assim, se esse for o espetáculo do meu coração, eu vou até o fim. Vou aos trancos e barrancos, chorando muito, pensando em desistir, mas tirando força de uma terra sagrada que balancia e balanceia minha mente e me faz continuar, continuar, continuar... Sempre na espera do novo e do mais novo ainda.

Três anos.

Me pego pensando, com saudades, do passado. Mas percebo que só é saudade por ser passado. O passado tem a função, quase obrigação, de ser saudoso. Estou feliz com o hoje. Mas não satisfeito.

Como o tempo passa...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

"Programação do Teatro Lavanderia"

A programação do "Teatro Lavanderia" para os meses de Janeiro e Fevereiro está cheia de novidades! Participe de nossas atividades!


Menina de Louça  - Sábados às 18h
De 22 de janeiro a 26 de fevereiro
Com Beatriz Barros

Sinopse:
 Escrita a partir de uma lenda urbana conhecida como "A Loira do Banheiro", o solo retrata o rito de passagem para a vida adulta. 

Ingresso: R$ 20,00(inteira) 


Dias de Campo Belo  - Sábados às 20h
De 22 de janeiro a 26 de fevereiro
Com William Costa Lima e Bruno Lourenço
Sinopse:Dias de Campo Belo conta a história de uma jornada interior, um passeio pelas memórias e sonhos de personagens masculinos que, por al guns instantes, tentam modificar o curso de sua existência e colocar em relevo tudo o que passou despercebido.

Ingresso: R$ 20,00(inteira) 


Oficinas Permanentes do Pequeno Teatro de Torneado - Inscrições Abertas!

De Fevereiro a Junho
Sábados, das 14h às 17h - para adolescentes e adultos.
Segundas, das 19h às 20:30 - para crianças.
Coordenação: William Costa Lima
Conclusão: Apresentação do exercício criado durante o processo da Oficina, no dia 25 de junho, às 20h.
Valor da mensalidade: R$100,00
Número de vagas: 10 por oficina.


Maiores informações no blog: www.torneado.blogspot.com.
Para confirmar sua participação na oficina entre em contato com William Costa Lima – Tel:(11) 8634-2385 ou mande um e-mail para teatrodetorneado@gmail.com
 

sábado, 8 de janeiro de 2011

dois mil e dez para frente

Pequeno Teatro de Torneado.


É até complicado escrever um texto sobre o Pequeno Teatro de Torneado.

Esse ano decidimos ao mesmo tempo que focar no grupo, focar no individual de cada um.

A Beatriz e o William estudando para o vestibular, a Mayra e o Bruno para a faculdade.

Resolvemos ter um espaço nosso. Resolvemos montar peças para apresentar em outros estados do País. Resolvemos sair viajando. Resolvemos apresentar teatro infantil. Resolvemos bancar algumas temporadas com o nosso público. Resolvemos receber uma peça de outro grupo no nosso espaço. Resolvemos lavar a louça. Resolvemos comprar papel higiênico para a casa. Resolvemos lavar os banheiros, as toalhas. Resolvemos abrir uma televisão para colocar o cardápio da nossa cantina. Resolvemos ter uma cantina. Resolvemos dividir o nosso espaço. Resolvemos remontar espetáculo. Resolvemos montar novos espetáculo.

Resolvemos e decidimos. E foi, e está sendo.

Hoje eu tenho dezoito anos. Faço dezenove em poucos dias. É perceptível o quanto eu cresci e o quanto o meu grupo de teatro cresceu. Nunca pensei que pudesse decidir coisas tão concretamente com dezoito anos. É realmente difícil escolher e sentir o peso dessa escolha. Escolher, se resolver, decidir e ir. Seguir em frente, confiante, dando abertura para o erro e para o acerto. Mais para o acerto do que para o erro. Mas o erro está presente, porque estamos falando de arte, estamos falando de material humano, e nada mais justo do que implantar agora a frase "errar é humano".

Porque sim, errar realmente É da natureza humana. Não sei se existe uma idade do erro ou do acerto, acho que existe uma vida do erro e do acerto. Aprendemos com isso, ensinamos com nossas escolhas. Criamos malícia, criamos malícia ao ponto de nos permitimos ao erro novamente, para lidarmos com ele a partir de outro ponto de vista, para tornarmos ele algo mais leve do que da primeira vez.

Acho que o Torneado está chegando em um nível que cada vez mais viso esse grupo como meu sustento, meu ganha pão financeiro e espiritual. Esse ano como disse, tenho focado mais em mim. Mas não perco o meu foco no grupo. Tenho como meta me formar em algo que ajude o Torneado, estudar em uma graduação algo complementador para o grupo.

Cada vez mais quero crescer e resolver questões mais importantes. Antes eu não resolvia nada, nem mesmo na minha vida pessoal! Agora eu resolvo se vou ou não apresentar. Se eu vou ou não viajar com uma peça de teatro.

A praticidade alcançada e o foco profissional são questões técnicas que um grupo necessita para se organizar e para sua metodologia. A organização reverbera na arte. Quando nos reunimos depois de uma reunião para um ensaio, vejo como o nosso nível de concentração está mais visceral. A concentração não apenas mentalmente, mas corporalmente.

Organizar nossas cabeças faz com que a nossa coluna se posicione no local em que ela precisa estar para dar um texto, para soltar o corpo, para soltar a voz.

Esse foi um ano em que talvez sim, o grupo artisticamente não obteve um crescimento artístico como antigamente, mas o novo artístico e falando até mesmo tecnicamente foi surpreendente o salto que demos.

Pessoas entram, pessoas saem, isso é o ciclo de qualquer relação humana na vida de alguém. As pessoas entram e saem de nossas vidas, é normal. Em um grupo de teatro não seria diferente. As pessoas vão e voltam. Gente nova, gente velha, gente feia, gente bonita. Diversidade de gente não nos falta.

Espero que a gente continue não negando nada. Nem o neutro, nem o positivo, nem o negativo. Que venha tudo, tudo mesmo. De uns tempos para cá digo para "que seja doce, amargo, azedo, salgado, delicioso e saboroso". Tudo isso e mais um pouco.



Que ternura não nos falte.

Beatriz Barros