sexta-feira, 24 de junho de 2011

Sobre o processo do Desapego (ou até mesmo relembrando o nosso apego)





As meninas do Torneado

Lembrei-me da Mayra esses dias. Da risada dela, para ser mais clara. Lembrei-me de quando ela me irritava e ficava rindo na minha cara mesmo, enquanto eu ficava vermelha de raiva. É muito estranho às vezes perceber que só estamos nós três agora.

Sei que em certos pontos a saída dela foi boa, porque foi uma opção dela. Sempre lidamos com isso bem, pra falar a verdade acho que contamos nos dedos às saídas que menos foram desgastantes para ambos os lados, e acho que a da Mayra foi uma delas.

Mas isso não impede que a gente não sinta saudade. Tanto das saídas conturbadas até as mais calmas, sempre relembramos das pessoas que passaram pelo Torneado, e a Mayra tem me dado uma saudade muito grande esses dias. Sinto falta de falar de assuntos femininos com ela, de poder falar sobre absorvente e reclamar que ela se maquiava muito mal. E não apenas esses assuntos, mas de tudo, da companhia, da organização, do jeito dela.

Sinto muita saudade dela. Hoje em dia somos nós três. Estou mais próxima do Bruno nos últimos tempos graças ao projeto de uma peça nova que estamos montando, e do Will sempre fui muito próxima. Mas é engraçado como ela vem e volta sempre, em alguns momentos que estou dentro do teatro. Não escuto a voz de ninguém reclamando, falando algo de ordem de organização, ou falando coisas engraçadas que só ela falava. Isso bate um vazio que é preenchido de outra forma.

Às vezes até acho que não falo muito sobre esse assunto com os meninos, porque sinto que isso me machuca um pouco. Devo assumir admitir que eu, de fato, sinto muita saudade da Mayra. E durante esse tempo começamos a ensaiar o espetáculo “Primavera” com o novo elenco: os alunos do Will da ETEC de Itaquera.

O “Primavera“ é uma peça que fazemos desde 2006-2007. Não sei ao certo desde quando, sei que eu comecei a fazer o Prima em 2007. O Pequeno Teatro de Torneado se consolidou quanto grupo com esse espetáculo. Muitas pessoas passaram por essa peça. Foram diversos elencos que constituíram os oito personagens do “Primavera”.

Resolvemos trocar o elenco por vários motivos. E aí entraram oito novas pessoas, que nunca tiveram feito uma peça de teatro, que se mostraram disponíveis pra isso. Ensaios de domingos e alguns durante a semana e, depois de um tempo, entramos em cartaz.


No dia da reestreia do “Primavera”, a Mayra foi assistir. Sentei de frente pra ela, com Mariana e com Bia ao meu lado (outras integrantes do grupo que fizeram parte do elenco). Nós quatro choramos de saudade, só faltou a Heloisa Evelyn pra relembrar as Primaveras passadas. Como foi forte a sensação de ver o que eu fazia quando tinha quinze anos até os dezoito anos, de assistir o ritual com as pessoas que faziam o ritual comigo. Foi ótimo ter essas pessoas perto de mim, principalmente a Mayra, por demonstrar que esse evento fazia parte da vida dela assim como da minha.


Antes de a peça começar, ela entregou um pão de mel para cada pessoa do elenco e da produção, com um bilhetinho escrito “Obrigada por cuidar dos meus filhos. Que seja doce. Ass.: Tia Eufêmia”. A tia Eufêmia é uma personagem da peça, como se fosse uma tia da cantina da escola, ou coisa do tipo. A Mayra no espetáculo fazia uma personagem que era muito amiga da minha personagem. Eu era a Théa e ela era a Martha. E acho que isso reverberou um pouco pra nossa relação.


No começo, quando entrei no grupo, eu não era amiga dela. E durante muito tempo demorei a me aproximar dela devidamente. Acredito que nossa amizade fez um caminho muito sincero. Somos muito diferentes uma da outra, assim como a Martha e a Théa, e admito que o fato de fazermos personagens muito amigos nos aproximou na vida real. Ensaios paralelos com novas Wendla’s, muitas cenas juntas, muitas conversas do que chamávamos de “conversas de meninas”.

Posteriormente durante essa temporada do “Primavera” eu, o Will, o Bruno e a Bia Cavalcante entramos em cena em duas apresentações. Sabe aquela sensação de lembrança constante de algo que já passou? Eu senti isso a todo momento. Foi uma experiência valiosíssima de desapego.

O teatro é maior que tudo isso que eu estou falando, e para nós atores nos resta a memória do que esse ritual nos proporcionou. A memória dos ensaios, do convívio, da comida dividia, do momento do espetáculo, do momento em que somos maestros em cima de um palco com uma plateia, nos olhando, como se isso fosse o nosso último suspiro da vida.

A Mayra faz parte da minha memória teatral. Assim como a saudade que a sua ausência me trouxe quando ela saiu do grupo, e todas essas pessoas que me rodeiam estarão presentes na minha memória, no meu corpo. O “Primavera” é meu, é nosso, é do público que assistiu e é do público que assistirá e dos atores que passaram e passarão. Como Bruno uma vez disse, uma obra de arte é maior que tudo, e essa obra de arte está acima do que qualquer posse de um ser humano.


Aprendi extremamente com essa ultima temporada. Aprendi a me acalmar, a desapegar, aprendi a não comparar um ser humano com o outro. As pessoas são diferentes, os coletivos são diferentes. As histórias podem ser parecidas, talvez sim, talvez não. Sei lá. Eu tenho dezenove anos. Tenho dois amigos, parceiros e companheiros de estrada que me suportam e são uma base, uma coluna e e um teto pra mim, tenho um teatro e um grupo de teatro que decidi dedicar como meu projeto de vida. E com isso tenho pessoas indo, vindo e ficando nesse teatro. Algumas sentam, tomam um café e vão, outras ficam.


É esse o movimento. Não quero saber de nada, mas também não quero saber de tudo. Nos últimos tempos tenho pedido calma e oxigênio pra conseguir respirar, mas nada demais. Nada pelo fato de eu estar em crise, não estou em crise. Estou muito feliz, de ver que o Torneado tem uma história de pessoas.


Uma vez o Will tinha comentado que a Mayra era uma das minhas grandes melhores amigas. De fato, hoje eu percebo que ela é sim.

Beatriz Barros