Por andam os Vilelas? Continuação... O Retorno de Tábata em "O Girador""


Essa postagem só será entendida se antes dela você tiver lido a postagem anterior, pois trata-se da continuação de uma conversa sobre a memória na pesquisa a "Dramaturgia dos Moleques".

 Sobre a menina Tábata Vilela








Ilustração da menina Tábata, criada durante o processo de "Boca Pequena"



 
Falar sobre Tábata é exercitar a minha capacidade de não exagerar. Mas, Tábata me instiga o exagero! Tábata era daquelas crianças genias, que parecem mini-adultos. E estou falando de adultos inteligentes e críticos. Tábata era daquelas crianças que sempre vinha com uma pergunta que exigia, no mínimo, o seu constrangimento para ser respondida.

Para se ter noção, durante o processo de criação do exercício "Boca Pequena", chegamos no assunto 'medo'. E Tábata mencionou com muita serenidade de que, entre todas as coisas que a fazia temer, nenhuma delas era mais forte do que o "relógio de ponteiro". Todas as crianças ficaram apreensivas à fala da menina Tábata e, no final, com os olhos cheios de lágrimas, certamente inspiradas pela fala de Tábata, uma das crianças - a menina Alice Kaio - disse: "Eu também tenho dessas coisas de morrer".

Trecho da fala da menina Tábata; no final de "Boca Pequena":


"O relógio tem dois ponteiros; o menor parece correr do maior. Tem um que é bem fininho e corre muito, pra esse eu nem ligo... Pra falar a verdade eu só tenho medo daquele que a gente escolhe onde fica. Eu tenho medo de escolher a hora errada pra despertar. Você já acordou antes da hora que devia? Ai, da uma agonia parece que a gente não tem nada pra fazer a não ser esperar a hora certa de acordar...".


 Tábata e seus amiguinhos, em cena do exercício cênico: "Breve História de amor aos que pretendem se tornar: Reis, Rainhas e até mesmo Homens Pulga"


Em Dezembro de 2007, Tábata foi mandado para o interior de São Paulo.


Ali, me ficou claro que um dos primeiros norteadores dossa pesquisa pedagógica com crianças seria o 'como' as crianças lidam com seus primeiros medos. A morte é tema recorrente na vida e no teatro também não deixaria de ser. Graças à profundidade de crianças como Tábata, a "Dramaturgia dos Moleques” também passou seguir o fluxo da vida em seus primeiros instantes, onde a consciência da morte ainda é algo menos palpável e misterioso. E o que seria adquirir essa consciência? Crescer?


Desde 2005, que o Pequeno Teatro de Torneado vem sendo inspirado pelo sutil contato com crianças e adolescentes. Investigar a memória tem sido uma das maneiras de contribuirmos socialmente para que cada indivíduo envolvido em nosso projeto possa entender um pouco mais sobre essa história de "autonomia e liberdade". Pois, acreditamos que a autonomia de um ser só acontecerá no momento que ele souber contar a sua própria história. Compartilhar uma história com alguém é criar um lugar em comum (comunidade). 


Dia desses, a atriz Beatriz Barros, que estagiava durante o processo de aulas para crianças de 2007, também se lembrou da menina Tábata Vilela. Lembrou-se de uma das histórias sobre Tábata, que sempre fazemos questão de recontar. E hoje, uma dessas memórias está viva, presente em forma de dramaturgia no novo espetáculo do grupo "O Girador":


A seguir, uma das muitas memórias relatadas na dramaturgia do espetáculo: "O Girador".(Trecho escrito pela atriz Beatriz Barros).

Tábata sempre gostou de cavalos, mas morava em São Paulo.
A primeira vez que viu um cavalo foi na TV, sempre pomposo, andando por um grande campo de grama verde.
A partir daquele instante, após uma imagem que durou no máximo cinco segundos se movimentando em câmera lenta, Tábata decidiu que o amor da sua vida seriam os cavalos.
Logo após isso, saiu correndo para sua mãe e disse:
- Mãe, eu quero ver um cavalo!
E a mãe, que entendia que crianças quando assistem televisão sentem vontade de querer todos os produtos que são mostrados, disse a sua filha:
- Qualquer dia desses viajamos para o interior, e aí eu te mostro um cavalo.

Tábata, porém, percebeu com o tempo de que o "qualquer dias desses" nunca se aproximava.
Então, Tábata começou a exercer o seu poder de argumentação.
A mãe, que não aguentava mais ouvir a voz de sua filha falando continuamente e de maneira empolgante e estridente sobre cavalos, resolveu acabar de vez com esse problema: dar um livro, com todos os tipos de raça de cavalo que existem no mundo para Tábata.
E a menina, que não se satisfez com o livro e queria mesmo era ver um cavalo de verdade, optou por impressionar a sua mãe, e tomou uma decisão astuta: decorar todos os tipos de raça de cavalo.
A fama veio, a metrópole inteira ficou sabendo de uma pequena garota que sabia centenas de raças de cavalo, de cor e salteado.
Viajou para vários lugares, foi em diversos programas de TV, exibiu seu potencial de gênio e sua capacidade de lidar com a sua mente, uma prova de superação eu diria.
Porém, em todos os lugares, em todos os programas que Tábata ia, sempre perguntava:
- Senhor, produção, vocês podem trazer um cavalo para eu ver, no dia que eu apresentar?
E todas as figuras influentes diziam que sim.
Porém, quando chegava a hora do encontro, o cavalo sumia, não podendo comparecer ao palco, pois não tinha condição ou coisa do tipo.
Depois de um tempo, Tábata decidiu não ir mais a programas, não falar mais com estranhos e tambem resolveu não falar mais sobre cavalos.
Porém, um dia, depois toda a era de transtorno que havia passado, resolveu ir até um parque.
Quando chegou lá, ficou sabendo que, algumas horas antes acontecera uma feira de cavalos!
Tábata saiu correndo pelo parque desesperada, procurando algum cavalo ou potrinho perdido.
Depois de muito tempo correndo de lá pra cá, e não ter encontrado nada, parou, sentou-se e ficou quieta, tentando conter sua respiração.
De repente, quando olhou para o seu lado, no banco do parquinho, viu uma daquelas escovas que se usa para pentear as crinas e os pelos dos animais. E entre as cerdas da escova, tufos de uma crina branca e prateada de um cavalos
Tábata pegou a mecha do cabelo do cavalo. Cheirou, passou em sua pele do rosto, e engoliu, como se fosse a sua primeira e última refeição na vida.
Depois, foi-se.
E a escova permaneceu, sentada no banco. 




Professor William





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