sábado, 23 de julho de 2011

A sala de aula e o que diz o não silêncio.



Entrar na sala, ver alunos de sete a quatro anos mais novos que a minha pessoa, e eu, com aquela insegurança do tipo: "será que eu tenho capacidade de ensinar alguém?"
Olhar para o Bruno e pro Will. Eles sentam, eu sento também. O Will fala, eu escuto com olhos de aluna de quem aprende a dar aula, de quem aprende como conduzir as palavras e a fala para centralizar a atenção e produzir a calmaria no ambiente.
os alunos vão parando, aos poucos, escutam o silêncio. O Will diz:
- Não vou falar enquanto tiver gente falando.
E então todos se calam. E começa o ritual da escuta e da palavra.
De fato, dar aula não é fácil.
Não estamos acostumados a nos calarmos e escutarmos alguém, não estamos acostumados com o tempo da fala do outro, com o tempo da nossa própria fala, não sabemos qual o nosso tempo individual.
É complicado desenvolver tudo isso em um projeto educacional.
Como reproduzir uma compreensão sobre o tempo do outro?
Como planejar um projeto ao qual o outro se escute, se entenda?
Sou uma estudante de ciências sociais. Estudo constantemente o movimento de massas, a organização social, a forma como a sociedade se planeja e se orienta, o sistema, os grupos, os subgrupos, as relações humanas.
Estudo também o movimento de cada indivíduo consigo mesmo, a organização dentro de si, a forma como o indivíduo se planeja e se orienta, os sistemas de cada um, os grupos que cada um escolhe para se envolver, os grupos e os subgrupos que cada um se relaciona dentro de si e na forma externa.
E a contradição mais bela que eu já me deparei foi: como falar "está tudo bem, calma, respira e escuta" para alguém que só escuta os seus colegas de classe. Como falar "ei, eu to aqui" ou "ei, ele tá aí" ou "escutem o silêncio de cada um" sem gritar, sem falar, só deixar claro que precisamos nos escutar no silêncio.
O corpo fala. O teatro transpõe a fala do corpo. O teatro, a arte move o corpo individual de cada um.
É como ressuscitar a criação de cada um. A família de cada um. Os hábitos tradicionais de cada um.. e a junção, a mistura, a dor de um com a alegria do outro se consomem no palco.
 De fato, as minhas dúvidas são geradas pelos alunos. Uma vez no ensino médio zombaram da minha pessoa por falar duas palavras na mesma frase, as palavras eram: coletivo e indivíduo.
Hoje pergunto, ainda com uma dúvida que me assombrava e continua permanente dentro de mim: como ressaltar os anseios de um indivíduo dentro de um coletivo?
As dores, as alegrias, as travas, os preconceitos de um indivíduo estão interlaçadas por totalidade com o coletivo.. e como educar este indivíduo com todas as suas "limitações"?

De devaneios em devaneios, caio dentro de uma turma, de uma sala de uma escola pública que me permite a constante provocação de ser provocada e de provocar. E o principal aprendizado é este: o dos constantes crescentes.
Somos cavalos pesados, e todos queremos voar.

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