A PRIMEIRA VEZ

Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência
O ESPELHO, João Guimarães Rosa

Éramos todos adolescentes. Dezessete anos, em média. O dia-a-dia de ensaios e textos decorados nos fez criar uma coisa que não entendíamos muito bem na teoria, mas executávamos com maestria e ingenuidade na prática; um grupo de teatro.

Tudo começou assim, com uns meninos e meninas brincando de fazer teatro. De se descobrir como artista, como corpo e como vontade de fazer. Ensaiamos e ensaiamos. Ensaiamos durante mais de dois anos para montar um espetáculo com 8 atores e 4 horas de duração. Marcamos nossa estréia para final de março de 2008. Mas não em São Paulo, lugar onde todos morávamos. Marcamos a estréia para Curitiba, durante um dos maiores festivais de teatro do mundo. Participaríamos de uma mostra paralela, chamada FRINGE, onde grupos jovens costumavam ter destaque.


Não tínhamos dinheiro, quase ninguém trabalhava. Juntamos nossas moedas, nossos cachês por trabalhar em buffets infantis, o troco do cachorro quente e compramos passagens de ônibus para Curitiba. Enfiamos o cenário, os figurinos, a iluminação inteira e as malas dentro do ônibus – sob o olhar raivoso do motorista e curioso dos outros passageiros. Embarcamos numa viagem para outro estado para participar de um festival e encenar uma peça que ainda não estava pronta. Os últimos ensaios seriam lá.


A semana seguinte foi intensa. Passamos um dia inteiro montando um cenário que só ficou pronto às 23h. Passamos um ensaio geral do espetáculo que só foi terminar às 5h30 da manhã, com o raiar do sol. Não nos abrigamos num teatro, mas numa antiga construção chamada ‘Casa do Estudante’, que abrigou nosso sono e nossa estréia. As janelas eram enormes! Fazer isolamento de luz com papelão não foi fácil. Trabalhamos no mercado – eu e o Fernando – ajudando a empilhar chocolate para esvaziar várias caixas de papelão. Compramos frango assado por quatro reais. Fizemos chegança. Fizemos amizades. Perdemos a inocência e aprendemos a montar fiações elétricas. Eu comi comida vegetariana pela primeira vez.


Enfim, os críticos nos assistiram. Foram poucos, mas falaram coisas tão lindas do nosso trabalho que toda a dor e toda a insegurança foram recompensadas. Gastamos muito dinheiro que não tínhamos, mas o tempo não foi gasto – nossa loucura também não. Ainda tenho recaídas de sobriedade, mas no final das contas continuo achando que o teatro é um pouco isso... Essa coisa que promove um encontro sincero em busca de uma história que pode ser aventura ou experiência.

E no meu caso, espero sempre contar as duas.


BRUNO LOURENÇO

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Verão de 2005.

Curtíssima temporada do espetáculo "O Girador" no Teatro Pequeno Ato

2014: um primeiro balanço e o nosso fim de ano