quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Cruzadas da Vida ou a Saga do Peter Pan

                O Torneado de certa forma sempre visitou a minha vida, ou vice versa, essa ordem do fator não é o que importa, pois o importante é estar num lugar que te faz bem ou se não o bem... Te faz simplesmente . Esse" fazer"  é um agir, estar, ser, observar, amar, criticar, gostar, aprender, ensinar, trocar,fazer. 
                O bom filho a casa torna, assim posso me sentir, mais uma vez. Sou aquela que gosta da casa, aquela que sente saudade, e volta e meia arruma as malas e retorna onde sabe que sempre tem as portas abertas, seja observando da janela de fora, ou seja, sentada com a família (que cada vez mais aumenta) no sofá. Sou aquela que teve a oportunidade de ver os primeiros tijolos a serem construídos, a que teve a oportunidade de mexer um pouquinho na massa e colocar o cimento, dar uma pincelada aqui, outro borrão lá e agora retorna pra ver outro cômodo sendo construído disso que já não é mais uma casebre, mas que se torna cada vez mais um grande sobrado e há de ser um castelo.
                Bem, poderia narrar aqui as histórias que vivi já com o grupo, mas não é o que tá querendo ressaltar nesse depoimento.
                O que sobressai aqui é um causo, que vou " adjetivá- lo" de coincidência.  Estava eu há algum tempo (não importa quanto) atuando em um espetáculo infantil que veste literalmente como pano de fundo o conto Peter Pan, não é preciso aprofundar em explicações uma vez que cuja história é conhecida se não por todos pelo menos pela maioria que lê esse post. Mas acontece que depois de muito (mas muito mesmo) representá-lo e acima de tudo e mais importante para mim, ter dividido o palco com muitos atores e em especial aqueles que são amigos, eu parei de fazer parte do elenco e esse conto, contado daquela maneira, com aquelas pessoas passou a simplesmente não existir mais, a não ser na lembrança, afinal é isso que resta das coisas finitas. Enfim acabou pra mim!!! Mas eis que na mesma época surge o convite do Torneado de trabalhar (a princípio) como preparadora corporal e agora também dividindo um dos personagens com uma das atrizes do grupo do espetáculo "Peter Em Fúria" que é uma releitura do conto conhecido e já trabalhado anteriormente por mim; Peter Pan. Claro nem cabe aqui comparação de dois trabalhos bem distintos que se coincidem apenas pelo que podemos chamar de "inspiração"... Enfim vão se os anéis e ficam os dedos... Ou talvez, um dia a gente perde no outro a gente ganha...enfim o adjetivo ou a moral da história disso tudo é o que menos importa. O importante pra mim é ter esvaziado a minha mala e trazê-la leve pra poder colocar tudo novo e bonito que couber dentro dela.


Karina Moraes

terça-feira, 19 de novembro de 2013

“Nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.” - Cora Coralina

 No texto de hoje a atriz Larissa Costa exprime a sua visão sobre ter sido expectadora do grupo e agora, depois de dois anos de processo,  ser uma das 35 integrante do elenco do espetáculo "Peter em Fúria". 


"A concepção do que é o teatro para mim nunca foi muito concreta. Cresci em uma família em que existia já um ator e um garoto propaganda e por conta disso tive desde cedo a arte presente, mesmo que de forma torta, na minha vida.
Aos poucos fui entendendo melhor o que era o teatro e como ele atuava em minha vida e foi nessa caminhada que conheci o Pequeno Teatro de Torneado.
Como muitos dos que hoje são parte dessa família, também comecei como público e diga-se de passagem, eu era daquelas que assistia o espetáculo no sábado e ficava mais quinze dias falando, elogiando e sentindo...
Hoje do outro lado, o de atriz, vejo como é importante se doar e se conhecer para poder assim completar sentidos para muitos outros. Conseguir ser um em muitos e ser muitos em um. Um ser que por alguns momentos consegue ser outro sem deixar de ser quem é, sentir na pele a sensação, o calor e a dor daquele que você se compromete a ser nem que tenha se comprometido por alguns instantes.
Desejo poder trazer as pessoas aquela sensação maravilhosa que se sente ao assistir algo que toca nosso coração e ao mesmo tempo despertar aqueles adormecidos pela labuta do cotidiano, cotidiano esse do qual sou parte integrante, que o mundo tem tantas facetas que nem sempre lembramos de dar valor a gestos, a sorrisos e a histórias.
Contar uma história é muito complicado, contá-la bem então... Reinventamos nossos dias com possibilidades que por vezes não acreditamos que seriam possíveis, renovamos desejos e compartilhamos histórias.
Esses tem sido os meus desejos desde que entrei pro coletivo... crescer e permitir que os demais cresçam comigo. Sonhar e permitir que os demais sonhem comigo.
Não tenho a pretensão de colocar palavras que comportem e acomodem sábios e profetas, quero apenas conseguir tocar o coração de uma senhora velha e de um poeta!"
Larissa Costa

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Sobre essa história de fazer teatro em grupo

Faz muito tempo que não escrevo nesse blog. Quando era mais nova, toda semana escrevia aqui. Era tanto um processo de reflexão comigo mesma, como um processo de registro da história do grupo e da formação do ator no torneado.
Aos meus quinze anos de idade entrei em um grupo de teatro que desde sempre prezou pela emancipação do indivíduo em busca pela sua liberdade.
Hoje com vinte e um anos, depois de seis anos aqui, vejo em mim e nos outros atores do grupo como é difícil compreender essa emancipação, essa cartilha da possibilidade de liberdade. Percebo que cada vez mais esse processo é doloroso.
Dói se compreender, entender e dimensionar os seus limites. Dói colocar para fora aquilo que está dentro de nós. Vai além do discurso de que somos criados para "andarmos em fila e fazer tudo o que os outros fazem".
Sem aderir à esse discurso piegas, mas vejo ao longo desses anos como todos nós temos dificuldades em lidar com o espaço do "aqui você pode fazer o que você quiser" dentro de um âmbito artístico. É muito difícil se colocar, não se sentir criticado, fazer escolhas. E acredito que isso seja difícil para todos os seres humanos.
Foram diversos os momentos que eu, como atriz, tive vontade de falar "eu não consigo", ou "até aqui eu vou". Porque de fato, dói demais fazer teatro. Dói escolher todos os dias isso. Dói decidir, guiar e cuidar de um grupo de teatro.
Dói se repartir. E isso não é uma questão de se expor diante do outro. Acredito que seja, hoje em dia para mim, uma questão de se dividir na frente dos outros. Percebe a diferença?
Não sinto que estou me despindo para o público (me expondo ao ridículo ou essas coisas que pensamos quando começamos a fazer teatro), mas sinto que estou me abrindo, me repartindo, me dividindo tanto com os meus companheiros de cena quanto com as pessoas do público.
Essa repartição dói, mesmo que eu tenha escolhido passar por ela.
Contar a história sobre as nossas perdas (como contamos no espetáculo "O Girador"); sobre como as pessoas nos tempos de hoje não se escutam e ao mesmo tempo estão amontoadas (como no "Peter em Fúria"); sobre a histeria e os traumas que cada um carrega dentro de si próprio (como no "Menina de Louça") gera um sentimento de repartição dentro de mim que me deixa com uma dor profunda.
Minha mãe sempre diz que nós nascemos e lutamos a vida inteira contra nós mesmos. Acredito que no Torneado a gente aprende a pegar esse bicho que mora aqui dentro e transformar. Transformamos em arte a nossa dor. Porque aqui, a gente aprende que essa dor é momentânea.
Pois eu sinto o acalento do outro quando estou em cena. Sinto dos meus companheiros do grupo um abraço e um cuidado comigo. Sinto o olhar do público pedindo para que a gente continue... e eu sinto que devo continuar. Sinto que devemos continuar. Tanto nesse processo de falar no teatro sobre nossas dores e fraquezas humanas, quanto nesse processo que o Pequeno Teatro de Torneado busca em trazer para todos essa concepção de liberdade.
No nosso grupo, todos podem escrever. Todos podem montar luz, criar cenário, figurino, atuar, dirigir e criar em âmbitos nunca dimensionado por nós mesmos. Todos nós podemos, e todos nós nos apoiamos e nos repartimos uns com os outros. Pois acredito que isso sim seja essencial no torneado: ter a dimensão do repartimento e compartilhamento coletivo. Não é um contrato, é um pacto que fazemos com nós mesmos. Um pacto de segurar na mão do outro para conseguirmos fazer juntos.
Muitas vezes antes de entrar em cena eu penso em tudo o que passamos, e em todos que passaram nesses anos de grupo para chegarmos até aqui.
Eu tenho orgulho que esse grupo exista até hoje e por essa luta cotidiana que fazemos para continuar existindo, para continuarmos contando histórias e nos repartindo, e nos reconstituindo com os outros, tanto com nossos conhecidos quanto com os nossos desconhecidos.

Beatriz Barros 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Um pouco mais de Peter em Fúria.

Em 2011, minha amiga da faculdade me ligou pra falar de um convite. Ela queria que eu participasse de um processo de montagem do grupo de Teatro dela. Na animação de fazer alguma coisa diferente e fugir da rotina, logo aceitei. Não conhecia nada do grupo dela, não havia visto nenhuma peça sequer, mas topei de imediato. Lembro até hoje do constrangimento e timidez que me tomavam de início. Nas primeiras leituras eu ainda não conhecia quase ninguém, e todos pareciam já ter uma relação com a peça que eu acabara de conhecer.

Era o Peter em Fúria, e muitas das pessoas ali presentes já haviam participado de tentativas de montagem. Haviam se reunido novamente, agora com mais gente, para realmente tirar o Peter do papel. O início do processo foi de estranhamento. Minha relação com teatro era limitada as peças que fiz na escola, ou seja, quase nada. Os exercícios pra soltar o corpo, improvisar, e se expor, foram uma barreira grande. Lembro daquele primeiro medo de ser ridícula. Esse medo que parece que a gente carrega como um fardo durante a vida inteira... Por que será que fugimos dessa sensação de vulnerabilidade o tempo todo? Por que nos preocupamos tanto com a imagem que os outros vão ter de nós? Por que essa fachada de segurança, quando no fundo ninguém sabe ao certo o que fazer a maior parte do tempo? Acho que o grande aprendizado do processo de montagem pra minha vida foi esse. Eu ainda não sei responder o porquê da gente não conseguir se soltar e mostrar essa fragilidade tão humana... Mas creio que perdi uma parte do medo de me expor ao ridículo. A grande experiência pessoal que marcou esse processo de mergulhar no teatro foi a perda dessa vontade de impressionar e de me provar para os outros o tempo todo. Na verdade ainda é uma batalha constante, mas não tenho mais tanta vergonha e receio de ser boba ou ruim. Na verdade, encontrei um espaço onde ser assim não é um problema.

REFLEXÃO PESSOAL: "Não cresci brincando na rua, e sempre me perguntei se isso era uma coisa da minha geração, ou se era por causa do lugar onde vivi minha infância. Nunca joguei futebol, brinquei de carrinho de rolimã ou pega-pega pelo quarteirão. Será que isso eram coisas de outros tempos distantes, ou eu é que fui privada disso tudo? As minhas brincadeiras se resumiam às correrias com meus irmãos na quadra do prédio (não tinham outras crianças pra brincar, porque a maior parte dos moradores eram adultos e velhos). Aprendi a andar de bicicleta no térreo. O bairro onde eu fui criada não era próprio pra crianças brincarem na rua. Além dos carros passando o tempo todo, os adultos nos alertavam do perigo que era sair na rua desacompanhado, porque mil ameaças nos rondam quando passamos para o outro lado da fronteira, o lado de fora do condomínio: assaltos, estranhos que vão te abordar e querer te levar embora... Aos poucos a gente cresce aprendendo a temer tudo que não conhece quando põe os pés pra fora do prédio. Qualquer pessoa com a aparência diferente e que nos encara por alguns segundos vira motivo pra apertar o passo e desviar o caminho. Nunca me faltou comida, roupa, acesso à saúde ou educação. Mas me faltou a noção de que o mundo era bem maior do que o trajeto do bairro de elite onde morei a vida inteira até o bairro de elite onde estudei a vida inteira. Lembro do choque que foi quando minha mãe me explicou, quando eu ainda era pequena, que a maior parte dos brasileiros não tinha computador em casa. Na minha cabeça ingênua, aquilo era estranhíssimo. Se eu tinha computador, como os outros não tinham também? O pior é que, mesmo quando a gente cresce, essa bolha “protetora” continua nos cegando para o mundo. Parece que a pobreza, a fome e as dificuldades são só coisas que a gente ouve por aí, que acontecem com pessoas que moram no fim do mundo, em algum sertão do Nordeste. Mal nos ocorre que esse “outro mundo” está bem ao lado: na moça que arruma nosso quarto ou na que faz a faxina no colégio (e que geralmente mal cumprimentamos). Não ocorre que ela passa boa parte do seu dia tentando atravessar a cidade. E que os filhos dela estudam na tão falada e aterrorizante escola pública (que pode ser seu castigo se você bombar de ano!), porque simplesmente não têm outra opção, e a educação que você recebe é um injusto privilégio. Nada disso nos ocorre. E se bobear, você pode passar a vida inteira alheio a tudo, rindo das piadas que seus colegas fazem sobre as pessoas que não nasceram do seu lado da fronteira. Crescemos olhando sempre pros mesmos rostos, até nos tornarmos insensíveis a qualquer traço que não seja semelhante ao nosso. O isolamento faz com que a humanidade do outro passe despercebida.

A minha família, tanto por parte de mãe quanto por parte de pai, foi simples e vivia de forma mais humilde do que eu. Sou neta de imigrantes espanhóis, e filha de uma imigrante armênia que nasceu na Síria. O Brasil era a terra das oportunidades, mas elas só se concretizaram de verdade na minha geração. Eu e meus irmãos somos os primeiros, de ambas as famílias, a nascer nessa condição da chamada “classe alta”. Diferente dos meus pais, não passamos por dificuldades, nem tivemos que trabalhar desde cedo. Eu sei que tive uma sorte dupla nessa vida. Primeiro: a de ter nascido nessa rara condição. Segundo: a de conhecer pessoas que me fazem enxergar, pelo menos um pouco que seja, além da bolha. Que me tiraram dessa anestesia. Conviver com as pessoas do Torneado é uma forma de conhecer outras histórias, completamente diferentes da minha. E assim eu posso me sensibilizar com aquilo que é tão distante da minha realidade, mas que se torna próximo quando estamos juntos. Acho que é pra tirar as pessoas dessa bolha que fazemos o Peter em Fúria. Pra que as pessoas aprendam a olhar pro outro, que parece tão diferente, e vejam que todos choramos igual, e todos temos histórias pra contar.


Mariana Boujikian 

Sobre o sentir e o dançar de um corpo gordo

Sempre achei estranha a vontade que eu tinha de dançar. Durante muito tempo, meu corpo ficou inerte. Fugia das aulas de educação física, ...