segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Sobre essa história de fazer teatro em grupo

Faz muito tempo que não escrevo nesse blog. Quando era mais nova, toda semana escrevia aqui. Era tanto um processo de reflexão comigo mesma, como um processo de registro da história do grupo e da formação do ator no torneado.
Aos meus quinze anos de idade entrei em um grupo de teatro que desde sempre prezou pela emancipação do indivíduo em busca pela sua liberdade.
Hoje com vinte e um anos, depois de seis anos aqui, vejo em mim e nos outros atores do grupo como é difícil compreender essa emancipação, essa cartilha da possibilidade de liberdade. Percebo que cada vez mais esse processo é doloroso.
Dói se compreender, entender e dimensionar os seus limites. Dói colocar para fora aquilo que está dentro de nós. Vai além do discurso de que somos criados para "andarmos em fila e fazer tudo o que os outros fazem".
Sem aderir à esse discurso piegas, mas vejo ao longo desses anos como todos nós temos dificuldades em lidar com o espaço do "aqui você pode fazer o que você quiser" dentro de um âmbito artístico. É muito difícil se colocar, não se sentir criticado, fazer escolhas. E acredito que isso seja difícil para todos os seres humanos.
Foram diversos os momentos que eu, como atriz, tive vontade de falar "eu não consigo", ou "até aqui eu vou". Porque de fato, dói demais fazer teatro. Dói escolher todos os dias isso. Dói decidir, guiar e cuidar de um grupo de teatro.
Dói se repartir. E isso não é uma questão de se expor diante do outro. Acredito que seja, hoje em dia para mim, uma questão de se dividir na frente dos outros. Percebe a diferença?
Não sinto que estou me despindo para o público (me expondo ao ridículo ou essas coisas que pensamos quando começamos a fazer teatro), mas sinto que estou me abrindo, me repartindo, me dividindo tanto com os meus companheiros de cena quanto com as pessoas do público.
Essa repartição dói, mesmo que eu tenha escolhido passar por ela.
Contar a história sobre as nossas perdas (como contamos no espetáculo "O Girador"); sobre como as pessoas nos tempos de hoje não se escutam e ao mesmo tempo estão amontoadas (como no "Peter em Fúria"); sobre a histeria e os traumas que cada um carrega dentro de si próprio (como no "Menina de Louça") gera um sentimento de repartição dentro de mim que me deixa com uma dor profunda.
Minha mãe sempre diz que nós nascemos e lutamos a vida inteira contra nós mesmos. Acredito que no Torneado a gente aprende a pegar esse bicho que mora aqui dentro e transformar. Transformamos em arte a nossa dor. Porque aqui, a gente aprende que essa dor é momentânea.
Pois eu sinto o acalento do outro quando estou em cena. Sinto dos meus companheiros do grupo um abraço e um cuidado comigo. Sinto o olhar do público pedindo para que a gente continue... e eu sinto que devo continuar. Sinto que devemos continuar. Tanto nesse processo de falar no teatro sobre nossas dores e fraquezas humanas, quanto nesse processo que o Pequeno Teatro de Torneado busca em trazer para todos essa concepção de liberdade.
No nosso grupo, todos podem escrever. Todos podem montar luz, criar cenário, figurino, atuar, dirigir e criar em âmbitos nunca dimensionado por nós mesmos. Todos nós podemos, e todos nós nos apoiamos e nos repartimos uns com os outros. Pois acredito que isso sim seja essencial no torneado: ter a dimensão do repartimento e compartilhamento coletivo. Não é um contrato, é um pacto que fazemos com nós mesmos. Um pacto de segurar na mão do outro para conseguirmos fazer juntos.
Muitas vezes antes de entrar em cena eu penso em tudo o que passamos, e em todos que passaram nesses anos de grupo para chegarmos até aqui.
Eu tenho orgulho que esse grupo exista até hoje e por essa luta cotidiana que fazemos para continuar existindo, para continuarmos contando histórias e nos repartindo, e nos reconstituindo com os outros, tanto com nossos conhecidos quanto com os nossos desconhecidos.

Beatriz Barros 

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