Um pouco mais de Peter em Fúria.

Em 2011, minha amiga da faculdade me ligou pra falar de um convite. Ela queria que eu participasse de um processo de montagem do grupo de Teatro dela. Na animação de fazer alguma coisa diferente e fugir da rotina, logo aceitei. Não conhecia nada do grupo dela, não havia visto nenhuma peça sequer, mas topei de imediato. Lembro até hoje do constrangimento e timidez que me tomavam de início. Nas primeiras leituras eu ainda não conhecia quase ninguém, e todos pareciam já ter uma relação com a peça que eu acabara de conhecer.

Era o Peter em Fúria, e muitas das pessoas ali presentes já haviam participado de tentativas de montagem. Haviam se reunido novamente, agora com mais gente, para realmente tirar o Peter do papel. O início do processo foi de estranhamento. Minha relação com teatro era limitada as peças que fiz na escola, ou seja, quase nada. Os exercícios pra soltar o corpo, improvisar, e se expor, foram uma barreira grande. Lembro daquele primeiro medo de ser ridícula. Esse medo que parece que a gente carrega como um fardo durante a vida inteira... Por que será que fugimos dessa sensação de vulnerabilidade o tempo todo? Por que nos preocupamos tanto com a imagem que os outros vão ter de nós? Por que essa fachada de segurança, quando no fundo ninguém sabe ao certo o que fazer a maior parte do tempo? Acho que o grande aprendizado do processo de montagem pra minha vida foi esse. Eu ainda não sei responder o porquê da gente não conseguir se soltar e mostrar essa fragilidade tão humana... Mas creio que perdi uma parte do medo de me expor ao ridículo. A grande experiência pessoal que marcou esse processo de mergulhar no teatro foi a perda dessa vontade de impressionar e de me provar para os outros o tempo todo. Na verdade ainda é uma batalha constante, mas não tenho mais tanta vergonha e receio de ser boba ou ruim. Na verdade, encontrei um espaço onde ser assim não é um problema.

REFLEXÃO PESSOAL: "Não cresci brincando na rua, e sempre me perguntei se isso era uma coisa da minha geração, ou se era por causa do lugar onde vivi minha infância. Nunca joguei futebol, brinquei de carrinho de rolimã ou pega-pega pelo quarteirão. Será que isso eram coisas de outros tempos distantes, ou eu é que fui privada disso tudo? As minhas brincadeiras se resumiam às correrias com meus irmãos na quadra do prédio (não tinham outras crianças pra brincar, porque a maior parte dos moradores eram adultos e velhos). Aprendi a andar de bicicleta no térreo. O bairro onde eu fui criada não era próprio pra crianças brincarem na rua. Além dos carros passando o tempo todo, os adultos nos alertavam do perigo que era sair na rua desacompanhado, porque mil ameaças nos rondam quando passamos para o outro lado da fronteira, o lado de fora do condomínio: assaltos, estranhos que vão te abordar e querer te levar embora... Aos poucos a gente cresce aprendendo a temer tudo que não conhece quando põe os pés pra fora do prédio. Qualquer pessoa com a aparência diferente e que nos encara por alguns segundos vira motivo pra apertar o passo e desviar o caminho. Nunca me faltou comida, roupa, acesso à saúde ou educação. Mas me faltou a noção de que o mundo era bem maior do que o trajeto do bairro de elite onde morei a vida inteira até o bairro de elite onde estudei a vida inteira. Lembro do choque que foi quando minha mãe me explicou, quando eu ainda era pequena, que a maior parte dos brasileiros não tinha computador em casa. Na minha cabeça ingênua, aquilo era estranhíssimo. Se eu tinha computador, como os outros não tinham também? O pior é que, mesmo quando a gente cresce, essa bolha “protetora” continua nos cegando para o mundo. Parece que a pobreza, a fome e as dificuldades são só coisas que a gente ouve por aí, que acontecem com pessoas que moram no fim do mundo, em algum sertão do Nordeste. Mal nos ocorre que esse “outro mundo” está bem ao lado: na moça que arruma nosso quarto ou na que faz a faxina no colégio (e que geralmente mal cumprimentamos). Não ocorre que ela passa boa parte do seu dia tentando atravessar a cidade. E que os filhos dela estudam na tão falada e aterrorizante escola pública (que pode ser seu castigo se você bombar de ano!), porque simplesmente não têm outra opção, e a educação que você recebe é um injusto privilégio. Nada disso nos ocorre. E se bobear, você pode passar a vida inteira alheio a tudo, rindo das piadas que seus colegas fazem sobre as pessoas que não nasceram do seu lado da fronteira. Crescemos olhando sempre pros mesmos rostos, até nos tornarmos insensíveis a qualquer traço que não seja semelhante ao nosso. O isolamento faz com que a humanidade do outro passe despercebida.

A minha família, tanto por parte de mãe quanto por parte de pai, foi simples e vivia de forma mais humilde do que eu. Sou neta de imigrantes espanhóis, e filha de uma imigrante armênia que nasceu na Síria. O Brasil era a terra das oportunidades, mas elas só se concretizaram de verdade na minha geração. Eu e meus irmãos somos os primeiros, de ambas as famílias, a nascer nessa condição da chamada “classe alta”. Diferente dos meus pais, não passamos por dificuldades, nem tivemos que trabalhar desde cedo. Eu sei que tive uma sorte dupla nessa vida. Primeiro: a de ter nascido nessa rara condição. Segundo: a de conhecer pessoas que me fazem enxergar, pelo menos um pouco que seja, além da bolha. Que me tiraram dessa anestesia. Conviver com as pessoas do Torneado é uma forma de conhecer outras histórias, completamente diferentes da minha. E assim eu posso me sensibilizar com aquilo que é tão distante da minha realidade, mas que se torna próximo quando estamos juntos. Acho que é pra tirar as pessoas dessa bolha que fazemos o Peter em Fúria. Pra que as pessoas aprendam a olhar pro outro, que parece tão diferente, e vejam que todos choramos igual, e todos temos histórias pra contar.


Mariana Boujikian 

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