Sobre a transformação do ator

Devido a certos imprevistos da vida tivemos que cancelar a última temporada do espetáculo "O Girador". Porém (e ao mesmo tempo) essa perspectiva de distanciamento do criador com a obra criada faz com que a gente repense, reorganize, resignifique, reestruture algumas questões do espetáculo.

O teatro é vivo. Está em constante mudança. Um espetáculo criado coletivamente (quando todos os envolvidos tem domínio e conhecimento sobre a obra) traz ainda mais essa sensação de vitalidade.
Um espetáculo é um novo ser que a cada ano conquista novas possibilidades: o primeiro passo, a primeira palavra, a primeira curiosidade, o novo choro.

Sinto que nós, atores, somos responsáveis por pensar e criar essas respirações, esses movimentos, esses olhares nunca demonstrados e explorados em cena. Esses novos aprendizados sobre o espetáculo é uma responsabilidade nossa que deve ser explorada.

Em todos os espetáculos do Pequeno Teatro de Torneado o ator é esse órgão que vitaliza o corpo novo do espetáculo. Cabe a nós, responsáveis por essa obra, a transformação e o aprendizado sobre novas melodias.

Gosto de dizer que somos maestros e regemos essa obra que saiu de nosso ventre.

E para mim, pessoalmente, esse é o melhor momento: o da partitura feita e em cima disso  improvisar, recriar, resignificar.

E não somente o improviso na palavra, muito pelo contrário: a palavra nesse caso é um dos pontos menos encantadores, mas o que me encanta é o corpo - o olhar para a plateia - a troca entre meus companheiros de cena e entre a platéia.

Todo esse jogo das artes cênicas ali presentes trazendo uma atmosfera que ainda sim, para mim, é onde eu acredito em Deus e deito em paz sabendo que existe algo de sagrado no mundo.

Sinto isso no Girador, no Peter em Fúria e em todos os outros espetáculos. E graças à essas novas reflexões, trago algumas percepções pessoais sobre o espetáculo "o Girador":

Eu pensei sobre o que eu perdi. O espetáculo fala sobre perdas. Perguntamos a todo momento para a plateia (não de maneira direta) o que foi que cada um ali presente perdeu de importante em suas vidas. Eu nunca parei para pensar o que eu havia perdido. O que eu, Beatriz, Atriz do espetáculo perdi?
Todo dia antes de começar a peça eu chamo o nome de meu tio que morreu. Tio Armando. Ele foi alguém extremamente importante nessa existência minha e a sua perda até hoje me dói.
Eu faço o espetáculo para ele. E divido essa dor com todos os que estão ali presentes. Ele ficaria muito feliz em saber disso, com certeza.

Acredito que cabe a nós, artistas, transformar o peso que existe dentro de nós em arte. E transbordar essa arte a ponto de tocar os outros, de trocar com os outros.
Cada um tem uma dor dentro de si. Um incomodo, uma angústia. Colocar para fora em cena através das possibilidades artísticas existentes em nossa vida é fundamental para trazermos um teatro humano e vivo.

 Sabe aquela brincadeira do “Perdi”? É assim: todos nós estamos jogando, constantemente. E quando digo constantemente é sério. Nesse momento você está jogando, mesmo não conhecendo a brincadeira. Quando alguém fala “Perdi” próximo de você é porque a pessoa lembrou da existência da brincadeira. Logo, quando você lembra que perdeu, automaticamente você diz “Perdi” e todos vão dizendo, porque todos perdem.
Essa brincadeira esclarece para mim “O Girador”. Nós atores dizemos “Perdi”. Perdi meu tio. Perdi objetos do Torneado. Perdemos pessoas queridas. Perdemos o local de ensaio. Perdemos para o cotidiano. Perdemos. Mas assim, logo de vez, a plateia nos responde dizendo “Perdi” e nos contanto sobre as suas perdas.

Somos feitos de perdas e de faltas que nos movem (como diz o Will, nosso diretor). Eu só peço para que nós, artistas e humanos, continuemos a compartilhar nossas faltas, para que de tantas faltas a gente uma hora se preencha.

Toda peça no mundo é uma troca. Uma história sendo contada sobre algo, para alguém. Uma doação, um recebimento e uma retribuição entre todos.

O espetáculo "Peter em Fúria" trás a tona uma realidade diferente para muitas pessoas. Uma realidade de uma maneira que muitas vezes não é dita: um cotidiano que nos endurece em cada passo, em cada ônibus, em cada trânsito, em cada arroz com feijão. E também trás a ideia de um cotidiano não solitário, mas coberto de redes de relações que muitas vezes nos aproximam em um curto espaço de tempo, e nos distanciam logo em seguida.

Cada ator se encontra e se separa. Se vê entre as frestas do cenário em um rápido jogo de olhar. Coloca em seu corpo esse corpo que acorda e levanta para a obra. Nos chocamos em cena, nos encontramos abruptamente, nos ameaçamos com corpos de animais quase atacando, e falamos  e rimamos sobre amor e dor, trazendo para a plateia a comunhão sobre os nossos sonhos e encantamentos humanos, atrelados ao nosso cotidiano que nos mata.
Eu acredito que devemos dentro do teatro nos acalentarmos, questionarmos e acalmarmos nossas almas que já estão pulando e gritando dentro de nós.


Por fim, espero que o ator continue nesse exercício de coragem. De se expor e de encorajar o outro a refletir sobre si mesmo.


Beatriz Barros

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