Sobre cabelos e teatro

Muitas vezes conversamos no Torneado sobre os cabelos das meninas. A conversa nunca foi formal, nunca sentamos juntos e paramos pra discutir o assunto. Mas num grupo diverso, cheio de mulheres, é previsível que nos bastidores do nosso dia a dia a gente pare pra falar sobre nossas madeixas, dicas de cuidado, mudanças no estilo, etc.

Entre essas papeadas, percebemos, quase sem querer, que quando entraram no grupo e começaram o seu processo de formação artística, muitas garotas deixaram de usar o cabelo alisado.

Não vemos mais ninguém fazendo escovas, tratamentos químicos e progressivas, práticas até alguns anos atrás tão comuns entre as integrantes. Hoje olhamos pro grande elenco que compõe o nosso último espetáculo e podemos ver um lindo mar de cachos, blacks, ondulados...E diante dessa prazerosa constatação, me perguntei: o que o teatro tem a ver com cabelos?

Para a mulher o cabelo é muito importante. Não é a toa que a punição escolhida pras mulheres que se relacionaram com nazistas durante a 2a Guerra Mundial era ter sua cabeça raspada em praça pública. Não é coincidência que em sua vingança, Nina escolheu cortar a cabeleira loura de Carminha em Avenida Brasil.                                                    

Nesses casos, o cabelo cortado (a força) simboliza a humilhação máxima, pois significa a destruição daquilo que culturalmente acreditamos constituir a beleza feminina. É uma forma cruel de castigo escolhida propositadamente para mexer com a auto-estima das mulheres. É a degradação de sua aparência, pois o cabelo tornou-se uma parte do corpo essencial para o nosso conceito de belo.

O cabelo de uma mulher está diretamente vinculado a sua feminilidade, e esta é uma construção social tão repetida que vemos essas associações como naturais. Não é a toa que nos emocionamos e caímos no choro em cenas de filmes ou novelas em que alguma garota se vê obrigada a raspar a cabeça por causa de um câncer.

Nos emocionamos pois nos colocamos no lugar daquela mulher, e imaginamos o quão dificil deve ser ter que abrir mão de algo tão precioso. Ficamos com um nó na garganta porque parece impossível ter que se habituar com uma cabeça careca. Nós, mulheres ocidentais, estamos habituadas a enxergar o cabelo como parte de quem nós somos, da imagem que ostentamos perante o mundo, do nosso self.

Quando queremos fazer alguma mudança na aparência, qual é a primeira atitude a se tomar? Mudar o corte de cabelo. É por isso que eu não subestimo o poder dos cabelos na construção da nossa identidade pessoal.

E agora, tentando responder a minha pergunta inicial, trago algumas suposições. Talvez começar a fazer teatro cause uma mudança no modo como enxergamos a nós mesmas. Talvez essa experiência inspire e expanda as possibilidades de apresentações e desenvolvimento do nosso self. Mexer com o nosso corpo e desdobrá-lo para contar histórias envolve se expor.

Sem se expor, o ator não consegue encorajar o outro a refletir sobre si mesmo, como lembrou Beatriz em outro post. E para nos expor, é preciso antes de tudo, nos aceitar. Eu não posso me expor para o público completamente, vulnerável e desnuda, sem saber quem eu sou e da onde vim. Talvez essa exposição envolva ficar a vontade com si próprio, se conhecendo e assumindo-se plenamente.

Eu não sei, como eu disse, são apenas suposições, porque apesar de sofrer como qualquer mulher a opressão de ter que me adequar a ditadura da beleza, meus cabelos e minha cor estão dentro do padrão. Eu nunca alisei meu cabelo, e não posso falar pelas meninas que passaram por esse processo. Mas realmente acho que estar confortável dentro de si e com quem somos pode nos auxiliar como artistas.

Sempre reparei secretamente em duas coisas quando via peças de teatro: pés, e mulheres que faziam a peça sem usar sutiã. O pé é uma parte do corpo que escondemos no nosso dia a dia, que achamos feia e causa nojo. Eu acho tão bonito ver em cena um pé descalço! E a mulher sem sutiã? Está expondo de forma muito natural aquilo que no cotidiano é interditado com pudor. Pra mim, ambos chamam a atenção porque são exemplos pequenos e esporádicos, mas que quando acontecem, mostram como os artistas estão a vontade dentro da própria pele.

Da mesma forma, é lindo ver uma cabeleira, livre leve e solta, desprendida de um padrão de beleza. Como dizemos no Girador “[...] essa coisa de querer se sentir à vontade requer um impulso de coragem para que eu, através dessa festinha - desse suposto ritual - eu exponha algo [...]”. Espero que cada vez mais tomemos este impulso pra expor os pés descobertos, os seios soltos, o cabelo crespo, e tudo que nos compõe, para assim poder trocar histórias.

(Na foto: Aguida Aguiar, atriz criadora e diretora de arte do Pequeno Teatro de Torneado)

Texto por Mariana Boujikian

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