sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Como chorar em cena


Parece um sentimento comum, não é? Isso de não ter tempo para aqueles que você ama. Vivemos num mundo tão cheio de obrigações que o “a gente combina de se ver” virou chavão para amenizar o coração e não criar responsabilidades com o outro.
O trabalho de ator é árduo. Trabalhar no teatro em si é difícil. Mas defendo o peso, a dureza, a labuta que existe no ofício do ator. A mimese faz parte do que é de mais primitivo no humano e é o que, até hoje, nos permite sonhar. Essa é a mística da transformação no outro, do momento em que deixo de ser eu e me transformo em nós, em Legião. Em cena, não somos únicos, somos um milhão de vozes que precisam se exprimir por um corpo inserido no espaço-tempo. Há quem diga que sem técnica não se faz teatro, pois eu digo que a técnica é um atalho para a celebração.
Por isso que hoje os bares são mais cheios do que o teatro. Culpa do mundo? Não, culpa do teatro que deixou de ser um lugar de celebração. O peso tão acumulado que insistimos em carregar nos ombro existem por que as nossas celebrações – assim como as nossas angústias – não são públicas.
A celebração é importante. É no brinde que jogamos para o líquido aquilo que precisamos ingerir. Às vezes, é necessário que transformemos nossas cervejas em algo com um pouco mais de sentido. O trabalho é duro, mas a vida é mais. A segunda-feira costuma ser um dia de descanso para quem faz teatro. Costuma ser a nossa trégua para recomeçar a ouvir e sentir no corpo as dificuldades que existem na legitimação do teatro como trabalho. É daí que começa o choro.
O choro é uma das buscas do trabalho do ator. Nas conversas com amigos, sempre ouvimos “você consegue chorar agora?”. Não, não conseguimos. Não confundam choro com lágrimas, pois uma coisa não tem nada a ver com a outra. É possível chorar sem lágrimas, assim como é possível lacrimejar o vazio. Não se chora sem presença. Não é possível chorar em cena se meu corpo não está ali. Choro é técnica, sim. Mas não é a técnica da escola, do cristal japonês ou de qualquer outro exercício de respiração que visa a finalidade da lágrima. O choro vem do aqui e agora. Ele reside na celebração.
Descobri isso em cena num espetáculo chamado “O Girador”, do Pequeno Teatro de Torneado – grupo onde milito na legitimação do teatro como celebração. Nos primeiros minutos em cena, preciso acessar o choro quando subo em uma cadeira. Ali, jogo pro mundo a grandeza do fazer teatral. Entendo as feridas do mundo e assumo que meu corpo é a ferramenta de mudança que possuo e invisto. Invoco todas as energias que sou capaz de canalizar para mostrar que o grito não é só meu. Respiro todas as coisas indignas que já fiz para me sentir pleno. Celebro o momento. Seguro o bastão. Estou aqui, vivo e com uma história nas minhas mãos. O jogo existe e preciso defender a vida. Esse é o meu ofício e a minha penitência.
Então, o choro vem.

Bruno Lourenço

Nenhum comentário:

Sobre o sentir e o dançar de um corpo gordo

Sempre achei estranha a vontade que eu tinha de dançar. Durante muito tempo, meu corpo ficou inerte. Fugia das aulas de educação física, ...