sexta-feira, 4 de setembro de 2015

SOBRE O TEATRO E DAR SENTIDO AO CHORO

Sempre fui muito chorão. Desde pequeno, tive que inventar diversas formas de disfarçar esse choro. Também, crescendo em uma sociedade onde “homem não chora”, fui conseguir dar significado ao meu choro apenas no primeiro ano do ensino médio, durante uma aula de história. Durante uma atividade sobre a Guerra Fria, tive que analisar uma fotografia da Guerra do Vietnã, que mostrava crianças correndo com suas roupas em trapos após um ataque aéreo em sua cidade. Fui para a frente para explicar e simplesmente não consegui parar de chorar.
            De lá pra cá, fotografias tem sido uma forma de chamar meu pranto. Recentemente, muitas fotografias, dentre elas a de um menino com as mão para o alto, em sinal de rendição, confundindo a máquina fotográfica com um fuzil, e a de outro, afogado em uma praia da Turquia, mexeram muito comigo. E cada vez mais imagens fazem isso, uma vez que eu me permiti sentir e dar sentido junto ao Pequeno Teatro de Torneado. Em um período de individualidades, selfies, hora-extra de trabalho, diminuição da maioridade penal, clamor pela intervenção militar e pequenos radicalismos do dia a dia, nos esquecemos da empatia e do que nos toca mais profundamente. O ser humano está correndo o sério risco de virar uma máquina. E máquinas hoje em dia são obsoletas.

            O Torneado tem me oferecido vários momentos de choro e muito momento de compreensão do choro. Me emociono muito ao final de cada apresentação, estando ou não em cena. Já continuei chorando mesmo durante a desmontagem de cenário. Em estreia de temporada então, preciso ainda me isolar para curtir a sensação. Como produtor, choro muito ao fazer projetos, tentando dar sentido ao que nós fazemos, defendendo nosso modo de fazer arte. O “caderno de sensações” então, é uma choradeira só. Tantos sentimentos reunidos juntos, nesses dez anos de existência do grupo, representam também o significado do choro de nosso querido público, sem o qual o nosso fazer não se completa. Posso afirmar que hoje o meu choro significa muito e me torna mais humano e menos máquina. Acredito ser este o caminho do teatro, e é por isso que sigo com este barco.

Marc Strasser
Ator e produtor integrante do grupo 

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