quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Verão de 2005.




Era pra ser só uma aula de teatro, mas não foi. A história que lhe conto nem começou e já passa a ser acidental. Uma tarde ensolarada, uma sala de aula de um colégio privado e aproximadamente 20 crianças e adolescentes. As carteiras escolares exprimidas no canto da sala pareciam equilibrar mochilas e tênis coloridos. A história que lhe conto passa a ser sobre a busca por equilíbrio. Um jovem professor questiona algo sobre a nossa capacidade de roda. Todos silenciam. Minutos depois a primeira explicação sobre o teatro que faremos ali: aquele que reflete o humano. Anunciado o conjunto de dores e encantos, o convite para uma incrível saga é lançado. Todos dizem sim. Essa história passa a ser contada por aqueles que dizem sim. Meses depois uma fábula teatral construída coletivamente pelas mãos de crianças e adolescentes anuncia a morte de uma mãe tragada pela lama de uma enchente. A criança grita: não! Essa história passa a falar sobre o como a morte nos ensina a viver. Mais algumas histórias de sobrevida são contadas enquanto alguns alunos de escolas públicas adentram aquele espaço privado e causam as primeiras estranhezas. Essa história também passa a ser contada por negros e pobres. Sem um grande anúncio e no meio de uma Primavera o tal do “Projeto Meu Olho  Meu Mundo de Pesquisa Cênica Para Crianças e Adolescentes” é convidado a se retirar da instituição. Essa história passa a falar sobre a nossa capacidade de transformar. Meses e meses falando sobre liberdade, enquanto destrinchávamos Frank Wedekind em um parque público do Jabaquara. Diariamente um desabafo sobre a vida escolar daqueles adolescentes, sempre consolado com a frase pronta: “Calma. Vai passar”. Essa história passar a falar sobre ritos de passagem. E passássemos a nos chamar: O Coletivo Pequeno Teatro de Torneado? E foi no auditório de um pequeno partido político, mais uma vez no bairro da Saúde, que mais uma vez todos disseram: sim! Lemos Breton, falamos sobre capitalismo, cotas, ouvimos Gal e falamos sobre o como nossos avós eram divertidos. Essa história passa a falar sobre saudade. E depois de sentir saudade tudo parece disparar descontroladamente como na canção de Roberto Carlos. Uma viagem para um Festival de Curitiba, um texto de uma inglesa, um teatro que também era lavanderia, ocupações em diversas escolas públicas das periferias de São Paulo, festivais distantes que nos faziam pagar excesso de bagagem, imersões em um sítio logo alí. Experiências que trouxeram gente, muita gente mesmo. Fazendo e vendo o que era pra ser só uma aula de teatro.

Texto por William Costa Lima 
 

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