terça-feira, 28 de novembro de 2017

Sobre o sentir e o dançar de um corpo gordo


Sempre achei estranha a vontade que eu tinha de dançar. Durante muito tempo, meu corpo ficou inerte. Fugia das aulas de educação física, o meu medo era a aula de atletismo: você ganhava nota de acordo com a distância que percorria, que lançava ou pulava. Por isso me tornei um bom matemático.
Recentemente, no Torneado tive a experiência de uma desconstrução corporal. E eu pensava: o que vou desconstruir, se eu não construí nada. Afinal, nunca havia feito qualquer tipo de dança. Daí, com o passar dos dias fui percebendo muita coisa que havia construído: a flexibilidade dos treinos de goleiro de handebol, a meia ponta do assistir da ginástica rítmica, a delicadeza das mãos do giz da lousa, a prontidão do corpo das tardes de badminton.
O corpo gordo não pode dançar. O corpo gordo não se sustenta. O corpo gordo precisa emagrecer. Nossa, você emagreceu, tá tão bonito. Parabéns! Se eu emagreci, estou só posso dizer que estou magro. Deixe a beleza para as outras muitas coisas que o corpo gordo é. O corpo gordo não é atraente. Nossa, um menino de tetas, como é engraçado. As aulas de futebol eram um terror, eu rezava para não ser do time sem camisa.
Consegui apenas recentemente a aceitar meu corpo. Aceitar minhas capacidades corporais. Entender que o meu corpo é só mais um corpo, mas é um corpo que pode tudo. E é meu. O sentir do corpo gordo também existe. Durante muito tempo não me senti atraente. Afinal, quem iria gostar de um corpo gosto? E não é que tem gente que gosta? O toque para mim sempre foi muito complicado. Cada vez mais tenho tocado e sido tocado de muitas maneira que, vez ou outra, me deixam confuso. Mas uma coisa é clara: o toque permanece na pele. O toque marca. Se você não decidir que você toca e quem te toca, seu corpo permanece com marcas que você não deseja.

No teatro não é diferente: não é possível simular um toque. É algo sagrado que, pela urgência de refletir o humano, precisa ser verdadeiro. O teatro me fez perceber isso. Eu decido quem me toca. Eu me permito tocar quem se deixa ser tocado por mim. E, toque por toque, vou conhecendo e fluidificando meu corpo para que ele possa, mais uma vez, dançar e se fundir com outros corpos.

Por Marc Strasser

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Sobre me refletir no Outro



''A sensação que tenho é que toda vez que passo naquele mesmo caminho cercado por árvores e com  cheiro úmido de terra e mato, estou indo de encontro a um local dentro de mim que eu desconheço e então toda vez que me choco comigo mesmo, como quem topa com "fulano de tal" na calçada logo após consultar o saldo no Banco do Brasil, e notar, claro, a falta de qualquer quantia que seja capaz de ajudar a pegar um táxi até você, estou na verdade topando meu ombro num corpo que não me é estranho, mas apenas estive tão desatento trilhando becos e sarjetas que não pude perceber a presença daquele novo canto dentro de mim que logo mais será parte do que sou e dos passos que dou para, por ventura ou não, dar de encontro com vãos e asilos. Eu me projeto nesse sopro interestelar que é o seguir, porque é entendendo o tamanho do terreno que eu ocupo numa vastidão de outras terras e poeiras e cheiros e úmidos, que é só nesse sentido amplo, que é o caminho de volta, que é a vida, que a gente passa saber por onde se palpita mais de si e mais do que vem em si nessa miudeza esfarelada que é a experiência humana.''

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

20º edição da Mostra de Teatro de Ribeirão Pires

Na terça-feira, dia 7, às 20h, iniciou a 20ª edição da Mostra de Teatro de Ribeirão Pires. Durante o mês de novembro, 16 espetáculos teatrais serão apresentados gratuitamente para moradores e visitantes, no Anfiteatro Arquimedes Ribeiro (Rua Diamantino de Oliveira s/n Jardim Pastoril) e na Praça da Bíblia.

A Mostra acontecerá até o dia 29 de novembro, com peças encenadas pelos alunos da Escola Municipal de Teatro Arquimedes Ribeiro e Grupo convidados.
O evento é promovido pela Prefeitura de Ribeirão Pires, por meio da Secretaria de Educação, Inclusão, Cultura e Tecnologia. 

O Pequeno Teatro de Torneado também estará na mostra com alguns espetáculos de nosso repertório. 





sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Quando recebi o convite para "Do Ensaio para o Baile"


No momento em que recebi o convite para integrar o Espetáculo "Do Ensaio para o Baile", fiquei meio receoso, pois era a primeira vez que haviam me convidado para algo assim: "ENORME". Mas aceitei. Em minha cabeça eu ficava me parabenizando sem parar, pois imagine a bomba que foi para um jovem da periferia de Suzano, saber que iria se apresentar com um grupo já conhecido em SÃO PAULO, na FUNARTE!.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Mala de Boneco - Mariana Acioli



As malas de boneco ainda estão guardadas.

Malas revestidas de pano.

Pano colorido.

Florido, amarelado.

A bailarina que teve pernas, hoje não tem mais.

Ainda existe seus ruivos cabelos e o olhar bordado de verde.

Meio vesga. Meio morta.

Era uma boneca de fio.

Agora é meio corpo do pano.

Onde estão os fios dela? Se não foi meu cabelo é o teu.

Que faz várias vozes.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Badaladas Shakespearianas – Pequeno Teatro de Torneado promove série de baladas cênicas sobre Skakespeare e Juventudes.

É balada? É. É teatro? É. É improviso? É também! Em parceria com a Oficina Cultural Alfredo Volpi, a Trupe Pequeno Teatro de Torneado irá promover seis encontros onde, através de estudos e improvisações em formato de baladas matinais, seis obras do autor William Shakespeare servirão de ponto de partida para reflexões relacionadas às juventudes contemporâneas e suas culturas. 

Através de seis encontros, cada um com duração de três horas, artistas da Trupe incentivarão experiências através da linguagem do teatro, pesquisando os vetores e estímulos que possam colaborar para a autonomia do imaginário de cada jovem participante. Dessa forma, as histórias e os anseios que os aprendizes trazem para a balada constituirão a essência criativa de cada encontro.

O primeiro dos encontros acontecerá no dia 19 de outubro, das 14h às 17h, e será guiado pela atriz e figurinista da Trupe, Mariana Acioli. Nesse encontro, o público será convidado a improvisar partindo de aspectos lúdicos e míticos da obra Sonhos de um Noite de Verão. Signos e jogos cômicos que costuram a trama serão os detonadores dessa fábula jovem sobre encontros e desencontros afetivos. 

A ideia da Trupe é partilhar com outros jovens parte dos primeiros estímulos que impulsionam os seus processos de criação nesses 13 anos de caminhada e se abrir cada vez mais para a percepção dos caminhos políticos e afetivos que percorrem e constituem o jovem contemporâneo. Os encontros ainda terão como convidados as (os) artistas da Trupe Higor Moura (Romeu e Julieta), Thais Moura (Muito Barulho por Nada), Marina Yohara (Macbeth), Aguida Aguiar (Hamlet) e Thiago Andrade (Rei Lear).
A Trupe Pequeno Teatro de Torneado é constituída por jovens artistas pesquisadores em teatro e tem em seu currículo espetáculos como “Do Ensaio para o Baile", “Peter em Fúria", "Primavera" e "O Girador". Em 2015 foi indicada a categoria Inovação do Prêmio Shell.

A série de encontros irá acontecer de 19 de outubro a 30 de novembro, sempre quintas das 14h às 17h e com Entrada Franca. Para maiores informações consulte o site da Oficina Cultural Alfredo Volpi: www.oficinasculturais.org.br ou o blog www.torneado.blogspot.com

Serviço
Badaladas Shakespearianas
Onde: Oficina Cultural Alfredo Volpi
Rua Américo Salvador Novelli, 416 - Itaquera 
Contato: (11) 2205-5180 | 2056. 5028 | 

De 19 de outubro a 30 de novembro – quintas das 14h às 17h
Indicação: 13 anos
Entrada Franca

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Nova temporada do espetáculo "Do Ensaio para o Baile"

Claro que setembro chegou nos trazendo grandes felicidades, não é mesmo? Pois então! 
 
O Espetáculo "Do Ensaio para o Baile" voltou, só que dessa vez no ESPAÇO PARLAPATÕES.

Aquele teatro/bar que muita gente vai pra encontrar os amigos, tomar uma breja e ver alguma intervenção artística. 
E é tão delícia! 
Nossa trupe vai esperar por ti para entrar nessa dança com a gente! 

Iniciamos aqui algo já iniciado. Corpos colapsam para indicar que há algo de errado em seu funcionamento. E se os corpos aproveitassem o tremor para dançar? Eis então a importância do movimento em nosso projeto. Jovens de uma década de 90 dançam hits de um futuro aqui presente. E as paredes de uma escola dos anos 90, quais hits dançaram? Aqui, paredes escolares dançam lentamente uma coreografia cotidianamente invisível, mas historicamente presente e escancarada. E será sob os passos dessa complexa coreografia que iremos caminhar, tentando colocar em relevo o desapercebido processo de precarização das instituições escolares. É 2017 e um espetáculo de teatro, atrelado a ações reflexivas, tenta falar sobre a esperança de um colapso institucional diante de alguma possibilidade de transitoriedade. As paredes precisam dançar, abalar de vez suas estruturas e ruir. Ruir para desvelar as frestas por onde algum ar possa passar. E talvez, após uma queda desastrosa e vertiginosa, enfim, a escola possa respirar. 

SINOPSE
DO ENSAIO PARA O BAILE retrata uma instituição educacional na década de 1990, com o intuito de impulsionar uma discussão sobre as transformações no sistema educacional do Brasil até os tempos de hoje, mostrado nas recentes ocupações nas escolas estaduais no ano de 2015. As trajetórias dos personagens se desenvolvem em pequenas fábulas cotidianas que sempre desembocam na importância que os indivíduos dão para o evento social do baile de formatura da escola. Através de cenas fragmentadas que anunciam a espera pelo último momento de relação desses jovens com a instituição escola, anseios relacionados à juventude são colocados em relevo alcançando suas maiores potências poéticas em seis números musicais.




Temporada do Espetáculo “Do Ensaio para o Baile”
De 16 de Setembro a 4 de Novembro
Sábados às 17h
Ingressos: R$30 (inteira) R$15 (meia).
Duração do espetáculo: 60 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Gênero: Drama Musical
Duração: 70 minutos
Espaço Parlapatões
Praça Franklin Roosevelt, 158 – Consolação, São Paulo – SP, 01220-020
Fone: 3258-4999



quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O Teatro e o Coletivo

Conheço o teatro há pouco mais de dois anos e meio. Antes, nunca tinha ido em um espaço teatral. Assisti um espetáculo que mexeu com muita coisa dentro de mim e lembro muito bem a sensação de vazio enquanto eu andava com minha amiga para a estação de trem, para voltarmos à nossa realidade. Algum tempo depois, comecei a frequentar o ambiente desse grupo de teatro, e a minha primeira impressão foi: “nossa, quanta gente”. Ficava com medo de entrar no camarim e assistir o aquecimento dos atores, com receio de atrapalhar, com um sentimento de não pertencimento. Acabei iniciando como o auxiliar da cozinha: era uma delícia preparar os pratos e servir os espectadores. Com o tempo, fiz bilheteria, arrumei camarim, substitui um ator, viajei para apresentar, ganhamos alguns festivais, fomos contemplados e remunerados por fazer teatro. 

Mas aquele vazio continuava... 

Esse vazio aparece em muitos momentos. Toda vez que temos uma conversa mais profunda, quando acabo confessando algumas coisas que não falava para ninguém, quando me repreendiam por atitudes que só depois de muita reflexão eu entendia que estas pessoas estavam corretas ao me chamarem a atenção. E isso acontece quando se usa alguma linguagem para discutir o humano: parece que o teatro é a minha. Na verdade, o teatro coletivo, a trupe. Essas pessoas que me cercam, ou que já me cercaram, possuem, por um instante que seja, a coragem de se mostrar. E ao nos mostrarmos, apresentamos nossas incoerências. Pois, pasmem, o ser humano é um ser incoerente. E é muito difícil conviver com nossas incoerências, ainda mais em um ambiente onde isso é necessário: no teatro social. Também é duro lidar com pessoas, sentimentos, incoerências, e ainda seguir fazendo teatro. 

Mas sigo, pois sinto que tudo isso faz parte da minha essência, do que eu quero para o mundo. Como me disse um amigo querido certa vez, eu também não quero acabar com o mal. O mal está presente e devemos conviver com ele. Essa trupe que tanto amo lida com isso diariamente, seja na sala de ensaio, nas questões cotidianas ou nas aulas com os novos aprendizes.

O Torneado é um espaço de reflexão do humano e, refletindo o humano, conseguimos refletir sobre a sociedade e esse mal que muitos possuem o desejo maniqueísta de acabar. É fácil para quem está de fora julgar. O julgamento é uma brincadeira extremamente prazerosa que nós desenvolvemos no processo de modernização de nossa sociedade. Mesmo sendo inerente da psique humana, vivemos em meio a julgamentos tão rasos que, vez ou outra, achamos que entendemos de algo sem sequer ter vivido a experiência. Pois esta sim, nos permite ver nossas contradições. 


terça-feira, 22 de agosto de 2017

A semente do mamulengo



26 de Maio, 2017

Uma praça em Santos, o picadeiro era de concreto e o cenário as árvores ao fundo. Uma vez meu pai brincava boneco em um espaço que era perto do mar. O chapéu rodava pra conseguir o sustento. O pouco dinheiro de um, é o café do palhaço e de seus filhos. A brincadeira tradicional, sempre a mesma, ano após ano. Refaziam-se as saias ficavam os bonecos de madeira cuidadosamente a pele era pintada de preto com olhos espertos. Se ver um boneco do mestre Saúba de Carpina, verás a arte de construir bonecos.

O palhaço popular de maquiagem pouca, chapéu trançado de fitas e a calça feita da mesma forma, coloria o olhar das crianças. Um Mateu, um Bastião. O palhaço batia o pandeiro, contracenava consigo mesmo e triangulava com o público. Retirava da malinha um boneco negro como aquele palhaço que se apresentava.  O boneco de mestre saúba tinha uma vida que o ator só emprestava o espírito. Um boneco inexplicavelmente falante. Falava enquanto a boca do ator não se movia. Ventriloquia é uma arte de lábios cerrados e voz solta. Aquele palhaço de boca miúda, aquele boneco de boca vermelha, aquele olhar de lembrança.
E ele dizia: Bastiãooo?
E o boneco respondia: o ooi..
O diálogo solitário do ator, tomava vida na personagem de cilíos compridos.
Esse boneco foi desaparecido, certa vez, em Santo André. Numa temporada confusa do ator. Perdeu seu companheiro de praça. Seu Bastião querido. Toda a vez que a brincadeira terminava. Na hora de guardar o brinquedo. Meu pai cantava uma canção. Existe uma versão da banda Matruz com Leite. Mas a versão de meu pai vinha de dentro. Me lembro tanto quando ontem, de sua voz atravessando o espaço em notas graves. Seus lábios ligeiramente curvados, desenhados como são. Cantavam.

 Eu sou a flor do mamulengo
Me apaixonei por um boneco
E ele neco de se apaixonar
E ele neco de se apaixonar
E ele neco de se apaixonar e ele neco
Se no teatro eu não te encontrar
Boneco eu juro vou me esfarrapar
Eu não consigo viver sem teu dengo
Meu mamulengo

A letra se repetia melosamente, as lágrimas eram rios, que davam passagem pra dor e pro amor que sentia o ator pelo seu personagem, Foi a última vez que me lembro de Bastião.

E na arte de construir espetáculos, meu pai adentrou, com seu boneco gigante, esse feito por suas mãos. Seu corpo se empresta como órgãos doados de um indigente para um velho louco. Juvenal, O primeiro boneco dessa história, o ator em cena vestia então cada membro, cada pedaço e por fim, trazia no peito uma empanada de mamulengo. A história tinha outras histórias em si mesma. E o homem palco se desprendia com os pés calçados. 

Por Mariana Acioli

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A importância do teatro de ter um olhar histórico



SOBRE CONTAR HISTÓRIAS E PERMANECER SENDO UM ARTISTA.

Quando sofremos a imersão de um enredo nos vêm diversos sentimentos, diversas corresponsabilidades e diversas vontades de compreender o que precisa ser dito com clareza. Todo teatro tem história, tem veracidade e pulsa enredos reais de tempos vividos ou a serem vivenciados. Afinal cada época fala sobre suas inquietações e nenhum objeto tem significado sem que atribuíssemos significado a eles, o teatro é isso o reflexo do seu tempo que cria significações a cerca de objetos sendo eles o corpo a alma e a história. O teatro completa a história e a história se complementa através do teatro, o teatro é uma fonte documental riquíssima, muitas vezes documenta o frenesi dos corpos sociais. Em outras palavras o teatro é de todas as certezas espaço de reflexão do humano: lugar onde se manifesta o corpo, a cultura e a história da sociedade. O objeto da história, segundo Marc Bloch, são os homens em sua plenitude e relatividade. O teatro é produção humana e de certo, sendo produção humana é de interesse complexo da história. A cada enredo escrito, a cada história sendo contada, a cada emaranhado de realidades percebemos como historiadores a personificação das representações coletivas em sua especificidade singular, afinal a lógica da sociedade não é igual à soma dos indivíduos.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

“Do you believe in life after Torn?”

Não sei contar ao certo quanto tempo venho sentindo isso. Esta data, do início até o presente momento, está diretamente ligada ao dia em que ingressei de fato no então GRUPO O Pequeno Teatro de Torneado, e é esse o período que não conto com exatidão, mas deve ter por volta de dois anos e alguns poucos meses. Tendo encontrado um tempo no espaço, sigo em meu depoimento.

Sempre tive contato e apreço pela música e as várias formas de musicalização possíveis dentro do meu universo: durante minha infância, minha mãe cantava para si, enquanto realizava seus afazeres domésticos um vasto repertório, que ia desde os maiores sucessos da Jovem Guarda e trechos de imortalizados sambas canções aos piores títulos do besteirol brasileiro da década de 80; num segundo momento tive contato com milhares de playbacks polifônicos das máquinas de karaokê do papai, onde pude brincar um pouco de reproduzir aquelas músicas que aprendi com a mamãe; por último ganhei um violão aos 15 anos (violão esse que nunca foi parar em nenhuma rodinha de amigos. Ao menos não por minhas mãos). 

O fato é que desde que me entendo por gente, meu contato com a música, minha relação com as melodias e versos sempre foram compreendidas de forma subjetiva, no canto contido lavando o tapete da sala, na brincadeira de cantar no microfone enquanto não aparecia nenhum cliente querendo chorar suas mágoas pros alto falantes da máquina, ou batendo seis cordas de nylon cantando alguma do Bowie, com vergonha de ser vista ou ouvida treinando violão, por mais que gostasse de cantar. 

A música no meu mundo era só uma espécie de entretenimento, passa tempo, o som que ditava o ritmo da vassoura ou dos pés. Não me enxergo como musicista ou cantora (por mais que minha biografia do facebook e instagram me contradigam), mas nesse período que venho trabalhando com Torneado, já não consigo mais enxergar a música como simples sons que embalam o movimento, agora eu sinto (e agora voltamos ao início do meu depoimento, que fala do que sinto e não do que enxergo, me lembro ou escrevo).  Sinto todos os graves, agudos, tempos, acordes e palavras com muito mais clareza, todas muito bem articuladas e empregadas, saindo da minha boca ou de outras. Sinto que me tornei uma espécie de ponte entre o que eu de fato sinto e o que farei os olhinhos curiosos que me espiam durante um espetáculo ou uma noite no Karaokê também sentir através da música (seja ela composta por mim, Lariza Xavier, Cartola ou William Costa Lima).
 
Dramaturgicamente pensada ou empregada como um grito de alívio, dor ou indignação, a música tem se mostrado uma ferramenta de união e compreensão dentro da minha vida. O que antes para mim era Grupo, hoje é trupe, e o que era distração hoje é a forma mais sincera que encontrei para me expressar: a tal da música pós Torneado.

Por: Suzi de Castro Jardim

terça-feira, 11 de julho de 2017

Do Ensaio para o Baile na FUNARTE SP com ENTRADA FRANCA

Mais uma vez estamos iniciando uma temporada com o espetáculo Do Ensaio para o Baile, em um lugar especial para a trupe. A Funarte, foi o local onde fizemos uma parte de nosso processo, estudo e imersão para a construção do projeto, e agora estamos em uma temporada de resistência, com este espetáculo que tanto nos motiva e nos orgulha. 

 

Por Fabio Cabeloduro
Em “Do Ensaio para o Baile”, abordamos uma instituição educacional pública na década de 1990, com o intuito de impulsionar uma discussão sobre as transformações institucionais no sistema educacional do estado de São Paulo nessa época e quais são suas possíveis relações com o atual colapso educacional, mostrado nas recentes ocupações nas escolas estaduais no ano de 2015.


Por Fabio Cabeloduro
Sinopse
o eixo central da dramaturgia de Do Ensaio para o Baile retrata as trajetórias dos personagens que se desenvolvem em pequenas fábulas cotidianas encaminhadas para a importância que esses jovens dão para o baile de formatura da escola. Cenas fragmentadas de um cotidiano jovem, anunciam o sentimento de expectativa pelo último momento de relação desses jovens com a instituição escola. os diálogos são parte de uma dramaturgia que se completa no encontro com as outras linguagens presentes na encenação: nas relações políticas e temporais propostas pela narrativa áudio visual; na ampliação da percepção dos sentidos do texto visualmente dilatadas pelo movimento da dança; e no apontamento da realidade atual (caótica e complexa) proposta pelos seis números musicais.   
Por Alexandre Bassani

Trilogia Colapsos Institucionais 
Nossa trilogia Colapsos Institucionais conta com os espetáculos: “Do Ensaio para o Baile” (Parte I - a Escola), “Incandescente” (Parte II - o Hospital) e “Acassiopeia” (Parte III – a Prisão). 

Falamos sobre a atuação de instituições sociais e suas transformações, tanto físicas quanto políticas ao longo do tempo. Tivemos, como ponto de partida para um possível desdobramento, o discurso foucaultiano e suas reminiscências em nossas atuais instituições. Para Foucault, a Escola, assim como o Hospital e a Prisão, são “instituições de sequestro”, que moldam, disciplinam e direcionam o corpo/pensamento dos indivíduos.

Sobre a Temporada
De quinta a sábado às 21h 
Domingo às 20h 
Chegue, pelo menos, 1 hora antes. 
Entrada Franca 
Classificação Indicativa 14 anos 
Local: Alameda Nothmann, 1058, Campos Elíseos - SP 
Próx. ao metrô Santa Cecília e Marechal Deodoro 
Temporada vai até o dia 30 de Julho de 2017
 

Sobre o sentir e o dançar de um corpo gordo

Sempre achei estranha a vontade que eu tinha de dançar. Durante muito tempo, meu corpo ficou inerte. Fugia das aulas de educação física, ...