quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O Teatro e o Coletivo

Conheço o teatro há pouco mais de dois anos e meio. Antes, nunca tinha ido em um espaço teatral. Assisti um espetáculo que mexeu com muita coisa dentro de mim e lembro muito bem a sensação de vazio enquanto eu andava com minha amiga para a estação de trem, para voltarmos à nossa realidade. Algum tempo depois, comecei a frequentar o ambiente desse grupo de teatro, e a minha primeira impressão foi: “nossa, quanta gente”. Ficava com medo de entrar no camarim e assistir o aquecimento dos atores, com receio de atrapalhar, com um sentimento de não pertencimento. Acabei iniciando como o auxiliar da cozinha: era uma delícia preparar os pratos e servir os espectadores. Com o tempo, fiz bilheteria, arrumei camarim, substitui um ator, viajei para apresentar, ganhamos alguns festivais, fomos contemplados e remunerados por fazer teatro. 

Mas aquele vazio continuava... 

Esse vazio aparece em muitos momentos. Toda vez que temos uma conversa mais profunda, quando acabo confessando algumas coisas que não falava para ninguém, quando me repreendiam por atitudes que só depois de muita reflexão eu entendia que estas pessoas estavam corretas ao me chamarem a atenção. E isso acontece quando se usa alguma linguagem para discutir o humano: parece que o teatro é a minha. Na verdade, o teatro coletivo, a trupe. Essas pessoas que me cercam, ou que já me cercaram, possuem, por um instante que seja, a coragem de se mostrar. E ao nos mostrarmos, apresentamos nossas incoerências. Pois, pasmem, o ser humano é um ser incoerente. E é muito difícil conviver com nossas incoerências, ainda mais em um ambiente onde isso é necessário: no teatro social. Também é duro lidar com pessoas, sentimentos, incoerências, e ainda seguir fazendo teatro. 

Mas sigo, pois sinto que tudo isso faz parte da minha essência, do que eu quero para o mundo. Como me disse um amigo querido certa vez, eu também não quero acabar com o mal. O mal está presente e devemos conviver com ele. Essa trupe que tanto amo lida com isso diariamente, seja na sala de ensaio, nas questões cotidianas ou nas aulas com os novos aprendizes.

O Torneado é um espaço de reflexão do humano e, refletindo o humano, conseguimos refletir sobre a sociedade e esse mal que muitos possuem o desejo maniqueísta de acabar. É fácil para quem está de fora julgar. O julgamento é uma brincadeira extremamente prazerosa que nós desenvolvemos no processo de modernização de nossa sociedade. Mesmo sendo inerente da psique humana, vivemos em meio a julgamentos tão rasos que, vez ou outra, achamos que entendemos de algo sem sequer ter vivido a experiência. Pois esta sim, nos permite ver nossas contradições. 


terça-feira, 22 de agosto de 2017

A semente do mamulengo



26 de Maio, 2017

Uma praça em Santos, o picadeiro era de concreto e o cenário as árvores ao fundo. Uma vez meu pai brincava boneco em um espaço que era perto do mar. O chapéu rodava pra conseguir o sustento. O pouco dinheiro de um, é o café do palhaço e de seus filhos. A brincadeira tradicional, sempre a mesma, ano após ano. Refaziam-se as saias ficavam os bonecos de madeira cuidadosamente a pele era pintada de preto com olhos espertos. Se ver um boneco do mestre Saúba de Carpina, verás a arte de construir bonecos.

O palhaço popular de maquiagem pouca, chapéu trançado de fitas e a calça feita da mesma forma, coloria o olhar das crianças. Um Mateu, um Bastião. O palhaço batia o pandeiro, contracenava consigo mesmo e triangulava com o público. Retirava da malinha um boneco negro como aquele palhaço que se apresentava.  O boneco de mestre saúba tinha uma vida que o ator só emprestava o espírito. Um boneco inexplicavelmente falante. Falava enquanto a boca do ator não se movia. Ventriloquia é uma arte de lábios cerrados e voz solta. Aquele palhaço de boca miúda, aquele boneco de boca vermelha, aquele olhar de lembrança.
E ele dizia: Bastiãooo?
E o boneco respondia: o ooi..
O diálogo solitário do ator, tomava vida na personagem de cilíos compridos.
Esse boneco foi desaparecido, certa vez, em Santo André. Numa temporada confusa do ator. Perdeu seu companheiro de praça. Seu Bastião querido. Toda a vez que a brincadeira terminava. Na hora de guardar o brinquedo. Meu pai cantava uma canção. Existe uma versão da banda Matruz com Leite. Mas a versão de meu pai vinha de dentro. Me lembro tanto quando ontem, de sua voz atravessando o espaço em notas graves. Seus lábios ligeiramente curvados, desenhados como são. Cantavam.

 Eu sou a flor do mamulengo
Me apaixonei por um boneco
E ele neco de se apaixonar
E ele neco de se apaixonar
E ele neco de se apaixonar e ele neco
Se no teatro eu não te encontrar
Boneco eu juro vou me esfarrapar
Eu não consigo viver sem teu dengo
Meu mamulengo

A letra se repetia melosamente, as lágrimas eram rios, que davam passagem pra dor e pro amor que sentia o ator pelo seu personagem, Foi a última vez que me lembro de Bastião.

E na arte de construir espetáculos, meu pai adentrou, com seu boneco gigante, esse feito por suas mãos. Seu corpo se empresta como órgãos doados de um indigente para um velho louco. Juvenal, O primeiro boneco dessa história, o ator em cena vestia então cada membro, cada pedaço e por fim, trazia no peito uma empanada de mamulengo. A história tinha outras histórias em si mesma. E o homem palco se desprendia com os pés calçados. 

Por Mariana Acioli

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A importância do teatro de ter um olhar histórico



SOBRE CONTAR HISTÓRIAS E PERMANECER SENDO UM ARTISTA.

Quando sofremos a imersão de um enredo nos vêm diversos sentimentos, diversas corresponsabilidades e diversas vontades de compreender o que precisa ser dito com clareza. Todo teatro tem história, tem veracidade e pulsa enredos reais de tempos vividos ou a serem vivenciados. Afinal cada época fala sobre suas inquietações e nenhum objeto tem significado sem que atribuíssemos significado a eles, o teatro é isso o reflexo do seu tempo que cria significações a cerca de objetos sendo eles o corpo a alma e a história. O teatro completa a história e a história se complementa através do teatro, o teatro é uma fonte documental riquíssima, muitas vezes documenta o frenesi dos corpos sociais. Em outras palavras o teatro é de todas as certezas espaço de reflexão do humano: lugar onde se manifesta o corpo, a cultura e a história da sociedade. O objeto da história, segundo Marc Bloch, são os homens em sua plenitude e relatividade. O teatro é produção humana e de certo, sendo produção humana é de interesse complexo da história. A cada enredo escrito, a cada história sendo contada, a cada emaranhado de realidades percebemos como historiadores a personificação das representações coletivas em sua especificidade singular, afinal a lógica da sociedade não é igual à soma dos indivíduos.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

“Do you believe in life after Torn?”

Não sei contar ao certo quanto tempo venho sentindo isso. Esta data, do início até o presente momento, está diretamente ligada ao dia em que ingressei de fato no então GRUPO O Pequeno Teatro de Torneado, e é esse o período que não conto com exatidão, mas deve ter por volta de dois anos e alguns poucos meses. Tendo encontrado um tempo no espaço, sigo em meu depoimento.

Sempre tive contato e apreço pela música e as várias formas de musicalização possíveis dentro do meu universo: durante minha infância, minha mãe cantava para si, enquanto realizava seus afazeres domésticos um vasto repertório, que ia desde os maiores sucessos da Jovem Guarda e trechos de imortalizados sambas canções aos piores títulos do besteirol brasileiro da década de 80; num segundo momento tive contato com milhares de playbacks polifônicos das máquinas de karaokê do papai, onde pude brincar um pouco de reproduzir aquelas músicas que aprendi com a mamãe; por último ganhei um violão aos 15 anos (violão esse que nunca foi parar em nenhuma rodinha de amigos. Ao menos não por minhas mãos). 

O fato é que desde que me entendo por gente, meu contato com a música, minha relação com as melodias e versos sempre foram compreendidas de forma subjetiva, no canto contido lavando o tapete da sala, na brincadeira de cantar no microfone enquanto não aparecia nenhum cliente querendo chorar suas mágoas pros alto falantes da máquina, ou batendo seis cordas de nylon cantando alguma do Bowie, com vergonha de ser vista ou ouvida treinando violão, por mais que gostasse de cantar. 

A música no meu mundo era só uma espécie de entretenimento, passa tempo, o som que ditava o ritmo da vassoura ou dos pés. Não me enxergo como musicista ou cantora (por mais que minha biografia do facebook e instagram me contradigam), mas nesse período que venho trabalhando com Torneado, já não consigo mais enxergar a música como simples sons que embalam o movimento, agora eu sinto (e agora voltamos ao início do meu depoimento, que fala do que sinto e não do que enxergo, me lembro ou escrevo).  Sinto todos os graves, agudos, tempos, acordes e palavras com muito mais clareza, todas muito bem articuladas e empregadas, saindo da minha boca ou de outras. Sinto que me tornei uma espécie de ponte entre o que eu de fato sinto e o que farei os olhinhos curiosos que me espiam durante um espetáculo ou uma noite no Karaokê também sentir através da música (seja ela composta por mim, Lariza Xavier, Cartola ou William Costa Lima).
 
Dramaturgicamente pensada ou empregada como um grito de alívio, dor ou indignação, a música tem se mostrado uma ferramenta de união e compreensão dentro da minha vida. O que antes para mim era Grupo, hoje é trupe, e o que era distração hoje é a forma mais sincera que encontrei para me expressar: a tal da música pós Torneado.

Por: Suzi de Castro Jardim

Sobre o sentir e o dançar de um corpo gordo

Sempre achei estranha a vontade que eu tinha de dançar. Durante muito tempo, meu corpo ficou inerte. Fugia das aulas de educação física, ...