quarta-feira, 9 de agosto de 2017

“Do you believe in life after Torn?”

Não sei contar ao certo quanto tempo venho sentindo isso. Esta data, do início até o presente momento, está diretamente ligada ao dia em que ingressei de fato no então GRUPO O Pequeno Teatro de Torneado, e é esse o período que não conto com exatidão, mas deve ter por volta de dois anos e alguns poucos meses. Tendo encontrado um tempo no espaço, sigo em meu depoimento.

Sempre tive contato e apreço pela música e as várias formas de musicalização possíveis dentro do meu universo: durante minha infância, minha mãe cantava para si, enquanto realizava seus afazeres domésticos um vasto repertório, que ia desde os maiores sucessos da Jovem Guarda e trechos de imortalizados sambas canções aos piores títulos do besteirol brasileiro da década de 80; num segundo momento tive contato com milhares de playbacks polifônicos das máquinas de karaokê do papai, onde pude brincar um pouco de reproduzir aquelas músicas que aprendi com a mamãe; por último ganhei um violão aos 15 anos (violão esse que nunca foi parar em nenhuma rodinha de amigos. Ao menos não por minhas mãos). 

O fato é que desde que me entendo por gente, meu contato com a música, minha relação com as melodias e versos sempre foram compreendidas de forma subjetiva, no canto contido lavando o tapete da sala, na brincadeira de cantar no microfone enquanto não aparecia nenhum cliente querendo chorar suas mágoas pros alto falantes da máquina, ou batendo seis cordas de nylon cantando alguma do Bowie, com vergonha de ser vista ou ouvida treinando violão, por mais que gostasse de cantar. 

A música no meu mundo era só uma espécie de entretenimento, passa tempo, o som que ditava o ritmo da vassoura ou dos pés. Não me enxergo como musicista ou cantora (por mais que minha biografia do facebook e instagram me contradigam), mas nesse período que venho trabalhando com Torneado, já não consigo mais enxergar a música como simples sons que embalam o movimento, agora eu sinto (e agora voltamos ao início do meu depoimento, que fala do que sinto e não do que enxergo, me lembro ou escrevo).  Sinto todos os graves, agudos, tempos, acordes e palavras com muito mais clareza, todas muito bem articuladas e empregadas, saindo da minha boca ou de outras. Sinto que me tornei uma espécie de ponte entre o que eu de fato sinto e o que farei os olhinhos curiosos que me espiam durante um espetáculo ou uma noite no Karaokê também sentir através da música (seja ela composta por mim, Lariza Xavier, Cartola ou William Costa Lima).
 
Dramaturgicamente pensada ou empregada como um grito de alívio, dor ou indignação, a música tem se mostrado uma ferramenta de união e compreensão dentro da minha vida. O que antes para mim era Grupo, hoje é trupe, e o que era distração hoje é a forma mais sincera que encontrei para me expressar: a tal da música pós Torneado.

Por: Suzi de Castro Jardim

Um comentário:

Higor Moura disse...

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